Tancos: Ex-comandante recusa “desleixo” na missão e destaca falta de efectivos

O coronel de infantaria David Correia revelou ontem que pediu “várias vezes” para que a Unidade de Apoio à Brigada de Reacção Rápida não integrasse a escala de segurança dos paióis de Tancos, recusando “desleixo” no cumprimento da missão.

O militar explicou aos deputados da comissão de inquérito ao furto de material de guerra dos paióis de Tancos que fez essa solicitação “por várias vezes”, por verificar que os recursos humanos “eram escassos” para todas as áreas à sua responsabilidade.

O coronel David Correia disse que a Unidade estava a cerca de 46% do quadro, tendo de “obter sinergias” de unidades como a companhia de transmissões, o agrupamento sanitário, socorrendo-se desses homens para manter operacional o aeródromo militar de Tancos que, por sua vez, “estava a um terço” do desejável em termos de efetivos.

O militar frisou que o quadro orgânico aprovado em 2016 pelo Exército dotou a Unidade com um pelotão de guarnição para a segurança dos paióis nacionais de Tancos, um oficial três sargentos e 21 praças, em secções de sete praças. Contudo, “o pelotão de guarnição e segurança para os PNT [Paióis Nacionais de Tancos] estava com zero praças”, afirmou.

Com os recursos disponíveis os paióis de Tancos eram vigiados com “nunca abaixo de dez rondas” em cada 24 horas, havendo “indicações para uma presença física dissuasora” como forma de “colmatar” os equipamentos de videovigilância e os sensores que “não estavam a funcionar”, sublinhou David Correia.

O plano de segurança para os paióis de Tancos de 2016 continuava, contudo, a prever a vigilância por rondas com “complementaridade” dos sistemas eletrónicos e de sensores, apesar de já estarem inoperacionais há anos, admitiu.

“O plano referia que o militar tinha de retirar a cassete” de um equipamento que não estava operacional, reconheceu o coronel, com o deputado do CDS-PP António Carlos Monteiro a manifestar estranheza: “Era de esperar que se adaptasse o plano à realidade”, disse.

António Carlos Monteiro confrontou o coronel citando afirmações que atribuiu ao anterior chefe do Estado-Maior do Exército, general Rovisco Duarte, na comissão de Defesa Nacional.

Segundo o deputado do CDS-PP, Rovisco Duarte falou em “desleixo” e referiu “falhas dos comandantes” que teriam desvalorizado a prioridade de Tancos.

“Se foram desleixados? Nas minhas funções como comandante, eles [os militares sob o seu comando] não foram desleixados, não foram. Foram contribuintes para que a missão de Tancos fosse concretizada”, vincou.

A necessidade de assegurar o descanso dos militares empenhados nas rondas diurnas e noturnas aos paióis foi repetidamente salientada pelo oficial, que descreveu instalações sanitárias sem água quente, sem separação entre homens e mulheres e sem mínimas condições de conforto para a recuperação e descanso.

À data do furto, 28 de junho de 2017, o oficial era tenente-coronel da Unidade de Apoio à Brigada de Reação Rápida, e foi um dos cinco coronéis exonerados temporariamente pelo ex-xhefe do Estado-Maior do Exército Rovisco Duarte para “permitir a transparência” das averiguações.

“O impacto que teve na vida familiar e no berço onde nasci foi deveras preocupante. Quando eu entrava para beber café e as pessoas se calavam, é lógico que incomoda”, assumiu.

O militar recusou que a missão de segurança aos paióis, que lhe competia três vezes por ano em períodos de um mês, fosse desvalorizada pela sua Unidade e desempenhada “de forma rotineira”, após questionado pelo deputado do PS Santinho Pacheco.

“Havia supervisão (…) e eu, pessoalmente, estava presente e falava com eles [com os militares que faziam as rondas]”, salientou, considerando “uma coisa impensável” um período de tempo de 20 horas sem rondas.

O militar disse que soube do furto no dia 29 de junho de 2017 pelo comandante da Brigada de Reação Rápida que lhe pediu para perceber se dentro da Unidade de Apoio também tinha havido algum desaparecimento de material.

Por outro lado, recebeu instruções para aumentar os efetivos disponíveis para as rondas, que deveriam andar “com os carregadores desselados e com mais munições”, contou.

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