A frase com que título este breve apontamento não é da minha autoria, pelo que tiro o meu chapéu ao seu Autor. Não tomei nota do seu nome, mas sei que foi proferida há alguns anos por um dos responsáveis do Concurso das “7 Maravilhas da Cultura Popular”, profusamente difundido pela RTP, que, por acaso, ouvi num zapping de domingo à noite.

O facto de estar agora a ser anunciada uma nova edição do programa “7 Maravilhas” suscitou-me a ideia de voltar ao tema reflectindo sobre o interesse da realização deste tipo de concursos.

Achei esta expressão curiosa e detive-me alguns instantes a reflectir sobre o seu sentido, sendo mais tarde levado a concluir que, apesar da sua ambiguidade, esta expressão, apenas aparentemente simples, pode carrear múltiplos e, até, opostos significados. Coisas da semântica e da polissemia… Não conhecendo o seu Autor, tenho mais dificuldade em apreender os fundamentos que estejam subjacentes a esta suposta imagem, que, de resto, pode nem corresponder à realidade, sendo, contudo, conveniente ponderarmos um pouco sobre a mesma.

O Concurso das “7 Maravilhas da Cultura Popular”, a muitos títulos controverso no seio da comunidade antropológica nacional, teve, quanto a mim, o grande mérito de emprestar visibilidade a muitos bens patrimoniais da cultura imaterial portuguesa e a muitas festividades populares que na sua grande maioria eram, e em muitos casos, continuarão a ser, do desconhecimento geral.

Vivemos um tempo em que, aparentemente, não se atribui muita relevância às festividades cíclicas de âmbito local ou regional, sendo absolutamente esmagadas mediaticamente por alguns eventos que se impuseram através de processos sociais e culturais de duvidoso interesse, mas de profunda eficácia simbólica. Relegámos para as calendas gregas algumas das mais típicas festividades populares portuguesas, como a tradição do “Pão por Deus”, ou do “Pedir para as Almas”, ou ainda das Fogueiras dos Santos Populares, mas acolhemos entusiasticamente o Halloween anglo-saxónico, que, apesar da sua origem e do seu processo simbólico, não está muito distante do espírito do nosso Dia de Todos os Santos e do Dia de Fiéis Defuntos, numa relação estreita entre a vida e a morte. Motivação dialéctica sempre presente na nossa dimensão espiritual.

Porém, não devemos ignorar a importância que as festividades populares continuam a ter ao nível das pequenas comunidades, envolvendo expressivamente as famílias que continuam a viver nessas regiões e as que, por diversas razões, tiveram de (e)migrar para outras regiões do país, ou até para países estrangeiros, mas que se sentem impelidos a regressar anualmente à terra natal para vivenciar estas festividades no convívio de familiares e de amigos.

Na afirmação e na persistência destas festividades está quase sempre a influência do santo padroeiro local, não obstante que o carácter religioso tenha perdido alguma transcendência em favor das actividades profanas. Mantém-se um sadio equilíbrio entre estas duas dimensões – o sagrado e o profano – embora o Povo na sua imensa e provecta sabedoria, recomende que em primeiro lugar se devem cumprir as obrigações e só depois as devoções.

Então, candidataram-se ao Concurso das “7 Maravilhas da Cultura Popular” 504 bens patrimoniais de todo o território português, o que evidencia a imensa quantidade de manifestações e de eventos que ainda se realizam no nosso país. Todavia, todos nós poderemos constatar numa breve análise ao contexto sócio-cultural das nossas regiões -que, tendencialmente, conhecemos melhor – que este inventário de 504 expressões patrimoniais está muito aquém da realidade, por identificarmos facilmente muitas festividades, ou lendas, ou artefactos ou danças que não foram referidos, porque, por uma qualquer razão, não se inscreveram.

Esta circunstância já nos faz questionar a razoabilidade do título deste apontamento – Afinal, este Portugal tradicional estará, assim, em extinção? 

Modestamente, parece-me que as festividades populares continuam a motivar a participação de milhares e milhares de portugueses em todo o território nacional, favorecendo o relacionamento inter-geracional entre os membros de cada comunidade e propiciando a persistência destas tradições, embora, como se compreende, com a introdução de algumas inovações, que são determinantes para a sua sobrevivência.

Talvez valesse a pena que quem de direito pugnasse pela inventariação e pelo estudo deste tipo de manifestações cíclicas, que tenderão a descaracterizar-se ou, até, a perder-se, quer pelo facto de assistirmos a uma debandada de população do interior do país, quer porque as novas gerações valorizam cada vez menos a componente religiosa da sua existência, num tempo em que parece ser moda cada um assumir-se ateu ou agnóstico. Quanto mais não seja pelo facto, simples e óbvio, de uma pessoa não ter de se justificar perante os outros pelo facto de ser crente e, eventualmente, praticante de uma qualquer religião.

A universalidade de costumes e de expressões culturais tenderá a fomentar o esbatimento das singularidades comunitárias, tornando mais confortável a opção pelo “cinzentismo”, em detrimento da convicta opção pelo branco ou pelo negro. Este é um erro educacional crasso, pois, o Homem carece de uma dimensão espiritual que oriente a formação da sua essência enquanto pessoa, equilibrada entre a dimensão racional e a dimensão espiritual, o que permite estruturar o nosso posicionamento na sociedade que integramos.

Sendo certo que a maioria das festividades cíclicas populares assenta a sua realização no relacionamento “normalizado” entre o sagrado e o profano, poderemos estar em vésperas de um corte umbilical entre a essência destas manifestações, pela perda de importância ou pela omissão da sua religiosidade, o que, como é bom de ver, desvirtuará o sentido e o simbolismo da celebração festiva.

Mas, o que nos tem sido dado assistir na Romaria de S. Miguel, em Sousel, em Segunda-feira de Páscoa, a que afluem centenas e centenas de jovens, que entre si convivem de uma forma muita aberta e desinibida, garante pelo menos que a dimensão lúdica destas festividades tenderá a persistir, ainda que amputada da sua dimensão espiritual, o que reflecte os sinais dos tempos. 

E, nesta perspectiva, poderá ser acertado o reconhecimento de um “Portugal em extinção” … O que só o futuro poderá esclarecer!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Leia também...

O penoso ofício de mendigar… (I)

Por uma ou qualquer outra razão sempre houve quem se dedicasse ao penoso exercício de pedir esmola, sobretudo como forma de suprir as suas…

Festival Celestino Graça está de volta!

O que podemos esperar da edição deste ano do Festival ‘Celestino Graça’? Desejamos que a próxima edição do Festival Celestino Graça constitua um grande…

As migrações sazonais no Ribatejo

Um dos temas mais aliciantes na investigação antropológica prende-se com a influência resultante dos contactos entre pessoas de diferentes comunidades e até de distintas…

A Contradança do Malaqueijo

Anualmente Malaqueijo cumpre a mais que centenária tradição da “Contradança”, uma original dança praticada espontaneamente por ocasião dos tradicionais festejos em honra de São…