Um treinador ribatejano no país onde o futebol é respeito e educação

Rui Pedro Gaivoto, de 34 anos de idade, natural da Louriceira, concelho de Alcanena, é actualmente coordenador de futebol no Shonan Bellmare, no Japão. O convite para treinar o clube nipónico surgiu através de uma viagem ao continente asiático. Ao longo da entrevista o treinador fala da experiência naquele país, em duas academias de futebol chinesas, como chegou a técnico de futebol e aquilo que pretende para o seu futuro na modalidade.

Quando é que o futebol entra na sua vida?
Penso que num país como Portugal, é fácil o futebol entrar na vida de uma criança, é quase cultural porque felizmente temos motivos para isso. Como tantos outros meninos, também eu dormia com uma bola, e no verão passava horas e horas a jogar na rua, depois de almoço até tarde, e no final do dia “ser premiado com uns puxões de orelhas” da minha mãe, mas isso era o que menos importava, queria era jogar futebol. No meu caso mais específico, o futebol entrou na minha vida com cerca de três anos e deve-se a uma pessoa que tem sido a minha referência até aos dias de hoje. Essa pessoa é o meu tio, Rui Gaivoto que foi jogador de futebol profissional, que sempre me puxou e me ajudou a ter paixão por este desporto, e desde criança que comecei a acompanhá-lo e a ter uma ligação muito forte ao futebol. A partir daí as coisas aconteceram naturalmente. Comecei a jogar aos seis anos, fui cinco vezes campeão distrital no futebol da formação pela EFCA, passei pelo Alcanenense e Ac. Santarém nos juniores, e cheguei aos seniores onde fiz 10 épocas (GDR Monsanto 2004/2005, UR Mirense 2005/2006 e CD Amiense de 2006/2007 a 2013/2014) antes de me dedicar a 100% a ser treinador.

Porque é que decide torna-se treinador de futebol tão jovem?
Comecei com 21 anos. Foi numa equipa de Sub-10 da EFCA, uma experiência muito boa, que me fez claramente ganhar o gosto pelo treino, por liderar uma equipa e que me ajudou a perceber o quão difícil é a posição de treinador, pois paralelamente jogava nos seniores do CD Amiense e este início de etapa mesmo que duma forma mais lúdica, ajudou-me também a mudar a visão e opinião sobre as opções dos treinadores que ia tendo enquanto jogador, porque já podia ir sentindo também as dificuldades de gerir um grupo. Aos 28 anos tive uma grave lesão no joelho que me fez decidir deixar de jogar e imediatamente iniciei a minha formação de treinador e tornou-se de forma natural num objectivo mais concreto para o que queria no futuro.

A sua formação académica é na área da gestão. Isto ajuda-o no seu dia-a-dia de treinador?
Sim. Muito particularmente na definição de objectivos e na forma de os alcançar. Maximizar ao máximo e perceber a diferença de eficiência e a eficácia foi algo que aprendi na faculdade e que me auxilia bastante. Também na parte da gestão de grupos foi uma boa ferramenta que adquiri.

É actualmente coordenador de futebol no Shonan Bellmare, no Japão. Como é que surgiu este convite para coordenar o futebol de formação no clube?
Este convite surgiu através duma viagem de férias que fiz pela Ásia no passado mês de Maio, que tinha no roteiro estar uma semana no Japão, e através de um grande amigo, Kazuaki Maeda, japonês e com fortes ligações no futebol nipónico, me apresentou aos responsáveis do Shonan Bellmare. Daí passados dois meses e após algumas conversas mantidas via WhatsApp surgiu o convite do clube para ingressar e iniciar funções a partir do dia 1 de Setembro. É um grande desafio que tenho pela frente, não só futebolístico pelo clube em si, de 1ª Liga do Japão, mas também pessoal e cultural porque não tenho tradutor para o dia-a-dia como tinha por exemplo na China, estou a aprender japonês, estou a adorar a experiência e está a correr tudo muito bem.

O futebol é o desporto de eleição dos japoneses? Há qualidade nos praticantes?
Sim, o futebol é o desporto rei dos japoneses, muito embora haja também o baseball que é muito popular. Mas a paixão, o fervor, o gosto pelo futebol aqui existente é fantástico. Os jogos têm sempre muita gente nos estádios e o ambiente proporcionado pelos adeptos é incrível. O respeito e educação entre as equipas que são adversárias e os seus adeptos é algo absolutamente brutal, e que me faz muitas vezes pensar, que são de facto um grande exemplo mundial. Em relação aos praticantes, é como em Portugal, há de tudo, mas numa forma geral os japoneses têm muita qualidade técnica, são bastante inteligentes e com uma intensidade elevadíssima, juntando a isto uma mentalidade forte e bastante resilientes. A liga japonesa é muito competitiva e pratica-se um futebol muito ofensivo e de pressão alta.

Como é que avalia o Japão como país?
Especial. Diferente. Único.
Especial porque tem características muito próprias desde logo a educação, o cumprimentar e agradecer a toda a gente a toda a hora, com aquela semi vénia, demonstra o enorme respeito entre todos. O conceito de civismo está altamente presente em todas as pessoas seja de que idade for.
Diferente porque culturalmente tenho vivido situações muito diferentes do que estava habituado em Portugal ou até na China. Por exemplo a segurança é ao detalhe com câmaras de vigilância em todas as ruas, o que faz com que não haja sequer ideia de qualquer tipo de mau comportamento, podes andar tranquilamente na rua seja a que horas for. Há também a questão do cuidar daquilo que é o seu meio ambiente, onde cada dia da semana tem um certo e determinado tipo de lixo para as pessoas meterem nos locais apropriados, com algumas condicionantes e selecção de material, o que promove também todo um cenário de limpeza existente em qualquer lugar. É comum uma pessoa comprar alguma coisa num supermercado ou loja de conveniência para comer ou beber, e a embalagem guarda na sua mala, para fazer a separação do resíduo na sua própria casa.
Único porque proporciona uma enorme qualidade de vida, particularmente naquilo que diz respeito ao ambiente, as infra-estruturas, aos serviços, transportes, à disponibilidade e amabilidade de toda a gente para ajudar o próximo no quer que seja, à calma das pessoas, aqui não há stress mesmo que se demore uma hora para fazer 20 km de carro por causa do trânsito.
Também ao rigor que regula o dia-a-dia das pessoas e que de forma tão natural faz com que a adaptação seja fácil.

Tem outras passagens por clubes de outros países, como por exemplo, a Academia do Sporting de Suiyang no sul da China e também na Ole Football Academy, na capital Pequim. Como foram estas experiência fora de Portugal?
Óptimas, enriquecedoras, com experiências loucas aos olhos de um europeu. Comparativamente ao Japão, a China é exactamente o oposto. Menos organização e rigor, o não se preocupar com o planear ou antecipar alguma coisa, em todo lado existe multidões, stress, e alguma desconfiança com estrangeiros. Tive um episódio na China em que estava a dar treino, e entrou a polícia pelo campo dentro a pedir-me a minha documentação para ver se estava legal e com tudo em ordem, visto de trabalho, etc. Porque é muito comum e em face da pouca organização de lá, um estrangeiro ter visto de turismo e estar a trabalhar ilegalmente. A estadia em Pequim deu para perceber que é um país com um potencial económico assombroso, com uma riqueza histórica e cultural acima do normal, com edifícios e arranha-céus imponentes e com uma arquitectura sui generis. Para se ter uma ideia os limites da cidade de Este a Oeste dista a cerca de 70 km e de norte a sul cerca de 60 km, com uma rede de metro que chega a todo o lado, uma cidade que durante o dia chega a ter 30 milhões de pessoas, só isto diz muito sobre a potência existente.

Já treinou o Amiense e o Mação. Como avalia estas duas passagens por estes clubes históricos do distrito de Santarém?
Sou de facto um treinador privilegiado nesse aspecto com passagens por esses dois clubes. O Amiense é um clube diferente. Primeiro que tudo pela forma como me receberam, me passaram a importância e o significado do clube para a Vila de Amiais de Baixo. É um clube com mística única, com uma massa adepta formidável, com bairrismo que ganha jogos e com um tipo de jogador muito característico, onde nem todo o jogador encaixa. Tenho uma ligação de 11 anos no total ao CD Amiense (oito como jogador e quatro como treinador) e é de conhecimento público que é um clube especial para mim e significa muito no meu percurso, também pela oportunidade que me deram de iniciar como treinador no futebol sénior. Sei que fiz um óptimo trabalho no clube com resultados fantásticos. Enquanto treinador tive uma das melhores classificações da última década no distrital de seniores, com uma clara aposta nos jogadores da formação e onde tínhamos uma média de idades de 22 anos no plantel. Enquanto coordenador da formação, juntamente com o excelente trabalho desenvolvido pelos treinadores de todos os escalões, além das subidas de divisão alcançadas e do campeonato Distrital de juniores da 1ª distrital e consequente subida à 2ª divisão nacional em duas épocas, a aposta efectiva nos seniores com jogadores oriundos da formação foi algo bastante gratificante e de enorme sucesso. A juntar a tudo isto, o melhor de tudo, que são as amizades feitas e fortalecidas para toda a vida durante esses 11 anos lá passados.
A AD Mação, um clube que nos últimos anos viveu os melhores e mais felizes momentos da sua história com grandes conquistas no distrito, e ter a oportunidade de fazer parte desse percurso logo no ano de estreia num CPP foi extraordinário. Um campeonato diferente, profissional, com adversários de enorme qualidade. A AD Mação foi um clube que aprendi a viver, a sentir e a admirar. As pessoas de Mação que passaram pela maldade dos incêndios meses antes, tinham no clube e na região, um grande orgulho pela oportunidade de tal presença no CPP, e nunca deixaram de apoiar mesmo a saber que as diferenças para os adversários eram abissais. Estou eternamente agradecido, a dois bons amigos que fiz, ao Presidente Espírito Santo e ao Fábio Patrício porque me darem a oportunidade de atingir um patamar diferente.
São ambos clubes que marcam o meu percurso e onde gostaria um dia regressar.

Sente-se melhor a treinar em Portugal ou no estrangeiro?
É curioso a quantidade de vezes que me fazem essa pergunta… Eu gosto é de treinar. Seja onde for, com que idades for. Felizmente já tive oportunidade de treinar desde sub-6 a seniores, portanto tenho a noção das dificuldades em cada uma dessas etapas. Uma coisa que não abdico é haver compromisso e rigor. Se não há, implementa-se. Se há, dá sempre para melhorar. E no início de tudo e o mais importante é sentir-me realizado naquilo que são as minhas escolhas. Até aos dias de hoje, tenho saído sempre realizado, fortalecido, enriquecido e crescido enquanto pessoa e treinador no percurso que tenho escolhido, mas sei que um dia isso pode não acontecer. Também já tive momentos em que as coisas não correram como esperado no que a resultados diz respeito, como na última temporada em Mação, mas nem sempre o caminho se faz de vitórias, porque esse é o mais fácil de percorrer.

O que espera para o futuro como técnico de futebol?
Espero puder continuar o meu trajecto tal e qual como tem sido até hoje é que me permita viver disto, que foi um sonho que sempre me acompanhou desde há muitos anos. Com muita humildade, muito trabalho e dedicação, sempre na procura de evoluir e ser melhor. Gosto muito de ouvir, observar e guardar. Obviamente que sonho com um patamar bem mais alto, e gostaria muito de um dia lá chegar, mas não vivo obcecado com isso e se não acontecer, que seja como tem sido até hoje, com realização pessoal e profissional. Não passo por cima de ninguém para atingir o que quer que seja. O destino encarregar-se-á de me trazer aquilo que eu merecer em cada momento, e nunca questionarei, porque no futebol o momento é lei, e cabe-nos a nós treinadores mudar as adversidades e nunca deixar que o conformismo esteja presente.

Daniel Cepa

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