Este nosso país é mesmo uma caixinha de surpresas no que toca ao seu património artístico! O olhar micro-histórico, outrora visto como uma dimensão menorizada e supérflua, só tardiamente chegou à prática corrente dos nossos investigadores — mais vale tarde que nunca, mas a verdade é que, por ignorância, por soberba intelectual ou por negligência de tutelas, foram imensos os bens que ficaram esquecidos e se perderam por falta de registo, de estudo e de salvaguarda. Como se sabe, não se protege aquilo que não se conhece, pelo que a prospecção de campo é sempre o começo de todos os saberes.
Vêm estas considerações a propósito de um belíssimo portal gótico-manuelino que existe, completamente esquecido, numa casa em ruínas em lugar recôndito do Concelho de Santarém. Está embutido, entre vegetação bravia, na parede arruinada de um pátio numa aldeia rural da freguesia de Alcanede. Trata-se da aldeia de Mata do Rei, na qual existe, meio escondido numa construção que foi outrora estrutura habitacional, perto da Capela de Nossa Senhora das Neves, um inesperado portal do princípio do século XVI. A peça, de óptima qualidade artística, chegou íntegra ao nosso tempo, inscrita na sua moldura com a verga relevada, constituída por cordame lavrado com romãs e outros motivos naturalistas estilizados, a encimar as duas ombreiras chanfradas. A decoração da verga é de fina erudição e atesta o lavor de um artista de recursos.
Tive oportunidade de ver este portal há uns dias com o pároco de Alcanede, o historiador de arte Tiago Moita, quando revisitei a capela dessa aldeia, tendo-se-nos deparado, com total surpresa, a peça quinhentista. Trata-se de portada digna de admiração pela sua qualidade artística, aliás muito afim, no estilo, ao que remanesce das obras manuelinas realizadas na igreja matriz (onde o porta-óleos da capela baptismal e portal da antiga sacristia parecem ser produção do mesmo escultor ou, pelo menos, saídas de uma mesma oficina).
O portal de Mata do Rei datará, portanto, dessa mesma campanha artística patrocinada pelos freires da Ordem de Avis na segunda década do século XVI, sendo então comendador e alcaide de Alcanede o nobre Aires de Sousa (como no-lo diz o historiador Luís Duarte Melo na sua ‘Crónica da igreja de Alcanede’, de 2022). Avento como hipótese plausível que esta esquecida peça, que nos chegou íntegra, e que muito urge revalorizar, seria o primitivo portal da antiga Capela de Nossa Senhora da Luz, erguida após um miraculoso sucesso mariano ocorrido na Serra de Aires e descrito por Frei Agostinho de Santa Maria no ‘Santuário Mariano’ (1707).
Tal prodígio ocorreu em tempos arcanos, quando um caçador descobriu num penedo serrano uma imagem da Senhora das Neves. O milagre, ocorrido «em tempos antigos» mas não discriminados pelo referido cronista, deverá ter sido algures no fim do século XV ou início do século XVI, época em que era tradição os reis virem caçar na Serra. A seguir ao achado, já com forte devoção a acorrer ao local, a imagem foi levada para a matriz de Alcanede, de onde miraculosamente se escapuliu (diz Frei Agostinho) para voltar ao sítio onde fora descoberta e onde entretanto se erguera um tosco oratório! Por isso, e após várias peripécias, os moradores de Mata do Rei construíram na sua aldeia uma capela a fim de fixar o culto e de venerarem a imagem da Senhora das Neves. Esta escultura, em pedra, infelizmente muito repintada, é uma pequena peça de ingénuo lavor arcaizante, com características da viragem dos séculos XV-XVI, e que continua a ser alvo de grande veneração.
Em 1639, a capela seria ampliada na sua forma actual, decorada com um retábulo pétreo (que ostenta essa data na cimalha, acimas do nicho central) e revestida de bons azulejos polícromos. Creio que o portal gótico-manuelino poderia ter sido então deslocado e substituído, sendo recolocado em casa próxima, a mesma em cujas ruínas hoje se encontra. Mas pode ser também, como sugere o padre Tiago Moita, que pertencesse à antiga «Casa do Ermitão» que se sabe ter existido na povoação desde o século XVI, por iniciativa da Ordem de Avis, para assegurar apoio ao crescente surto devocional à Senhora das Neves que, entretanto, começava a desenvolver-se (o antropólogo Aurélio Lopes prepara neste momento, precisamente, uma investigação sobre a lenda mariana e o seu culto).
O portal manuelino localizado em Mata do Rei é uma preciosidade da nossa arquitectura do século XVI precoce e vem mais uma vez destacar a importância do projecto (em curso) de inventariação exaustiva do património das terras da antiga Comarca de Alcanede/Pernes, um vasto território que, no campo da arte sacra, precisa mesmo de ser mais e melhor conhecido. O projecto em causa, coordenado por Luís Duarte Melo, intitula-se ‘Tricentenário da Notícia Histórica de Alcanede e Pernes (1726)’ e inclui, sob pretexto de homenagear o escritor setecentista local Simão Fróes de Lemos, o projecto de estudo científico integral deste vasto território.
A ser o portal oriundo da antiga capela, não seria aliás a única sobrevivência. Também a pia de água benta, de pé, é do século XVI, e bem assim uma estranha pedra com bela inscrição latina em caracteres ‘all’antico’, que estava guardada na capela e se expõe agora no recém-inaugurado Museu Arqueológico de Alcanede. Essa pedra votiva, a meu ver datável do século XVI, tem a legenda AVDE VEVO CELO CEDE VIVO CELO, ou seja, ‘Dai ouvidos ao céu’, e pode ser relacionada com um pequeno cruzeiro (?) situado no local de achado da veneranda imagem da Senhora das Neves, na Serra, com um apelo à sabedoria cristã e ao amor mariano. Mas esta é apenas uma hipótese de trabalho.
Mais algumas informações históricas podem ser, para já aduzidas sobre a capela de Mata do Rei. As investigações do historiador Rui Manuel Mesquita Mendes, generosamente partilhadas, deixam saber que em 14 de Março de 1663 «o Juiz e os mordomos da Irmandade de Nossa Senhora da Serra do lugar de Mata do Rei obtiveram provisão de licença para continuar a celebrar missa na sua ermida». Ou seja, a designação da padroeira, Nossa Senhora das Neves, também chamada Senhora da Luz, era então também chamada Senhora da Serra… O registo de 1663 mais declara que foi vista a «informação do Visitador» e que não se pagariam direitos, por se tratar de «ermida antiga», ou seja, já então considerada não só de especial valia em termos de devoção como de fundação arcanas. Outra referência, em 1712, designa a capela já como Nossa Senhora das Neves.
Sobre a arruinada casa, falei com moradores de Mata do Rei, como a senhora Maria Emília Vieira Lopes, para recolher informações. O senhor Américo Martins atesta que o último residente da casa foi o seu tio-avô Manuel Filipe, o Cabo da Terra, o que constituiu uma pista para se localizarem os actuais proprietários (a família do senhor Vítor Filipe) e se poder propor alguma medida adequada (através da paróquia e da Junta de Freguesia) no sentido da preservação deste achado, actualmente esquecido entre silvas e arbustos no pátio de uma casa destelhada em ruela junto à capela…
Uma derradeira palavra sobre a arte do Manuelino na Diocese de Santarém (aceitando por comodidade o epíteto estilístico que, como se sabe, define a última fase do Gótico português e não tem as conotações ideológicas que abusivamente lhe colaram…). Os grandes testemunhos deste estilo no Ribatejo são, naturalmente, a Charola do Convento de Cristo em Tomar (obra dos arquitectos João de Castilho e Diogo de Arruda, entre outros), as igrejas da Golegã e de Marvila em Santarém (do mestre Diogo Boitaca) e o cruzeiro do Cartaxo (de escultor ainda desconhecido). No Xartinho, uma das aldeias vizinhas a Mata do Rei, diz-nos Luís Duarte Melo que existe em casa contígua à capela de Santo António um portal gótico-manuelino, de morfologia mais simples (porventura aqui colocado nas obras de reconstrução do templo em 1919, que abrangeram a mudança do pórtico). Assinalam-se também os já citados vestígios da campanha realizadas no início do século XVI na igreja matriz de Alcanede, com o belo porta-óleos do baptistério, a que acresce o fragmento do antigo pórtico, apeado nas obras de 1905 e hoje existente em colecção particular. A verga e ombreiras desse último portal lembram, também, o lavor estilístico atestado pela peça de Mata do Rei.
Olhando de novo para o portal agora localizado em Mata do Rei, trata-se, em suma, de importante achado histórico-arqueológico e artístico, que vem enriquecer sobremaneira o património regional e local e que exige imediata salvaguarda e revalorização.
Agradecimentos: ao Padre Doutor Tiago Moita, pároco de Alcanede e ilustre historiador de arte; a Manuel Joaquim Vieira, presidente da Junta de Freguesia de Alcanede, a quem se pede atenção para este achado; aos senhores D. Maria Emília Vieira Lopes, Américo Martins e Maria Filipe, de Mata do Rei; ao historiador Dr. Luís Duarte Melo, a quem se deve a primeira referência à verga lavrada; ao Dr. Rui Manuel Mesquita Mendes, pelas achegas documentais inéditas; ao Dr. Aurélio Lopes, pela pesquisa etnográfica e lendária, e ao Mestre Luís António Mata, pela troca de opiniões a propósito da pedra votiva e do culto de Nossa Senhora das Neves nesta aldeia alcanenense.

