Como tem sido afirmado muitas vezes nesta série de crónicas, temos um país que é deveras surpreendente no que ao seu património histórico-artístico diz respeito, e uma região onde esse sentimento de ‘terra ignota’ mais se destaca. Através do sempre recomendado olhar micro-histórico, livre de preconceitos menorizantes e de ideias pré-estabelecidas, deparamo-nos com uma realidade que precisa de ser vista, apreciada, estudada e melhor esclarecida. Fosse por ignorância, soberba intelectual ou negligência de tutelas, são ainda imensos os bens hoje praticamente esquecidos, sem contar com os que já se perderam por falta de inventário e de salvaguarda. A sensibilidade estética e a busca microscópica de mais saberes, junto à prospecção de campo, são o começo de tudo no que à arte portuguesa diz respeito.
Vem esta consideração a propósito da Capela de São Pedro da Chamusca, por certo a mais importante, em termos artísticos, entre os vários monumentos que existem na vila ribatejana. A sua arquitectura chã e o seu recheio unívoco e plural tornam-na um belíssimo testemunho da chamada Arte Barroca Total do reinado de D. Pedro II (1683-1706). A junção de todas as grandes artes do tempo num só espaço restrito – a talha dourada, o marmoreado, a escultura em madeira, barro e marfim, a pintura a óleo, a decoração do tecto de brutesco, os azulejos de figuração, e a marcenaria da teia e do púlpito, complementando a sábia espacialidade intestina – forma um conjunto que é absolutamente fascinante e que impõe morosa visita!
A Capela foi fundada em 1672 por duas irmãs da vila, Branca Nunes Crandia (que faleceu em 1681 e jaz em campa rasa na capela-mor) e D. Leonor Velho (casada com o nobre Diogo Correia Coutinho), e mostra no aparato construtivo uma arquitectura chã que é, no desenho da fachada e na volumetria do interior, de nave única, deveras similar à da coeva ermida de São José da Azinhaga. A obra de pedraria estava pronta em 1681. O interesse explode, porém, quando se entra no espaço da nave e nos surge o testemunho de uma preciosa unidade de estilo, como se o tempo aqui tivesse parado…
De facto, toda a decoração decorre de uma mesma campanha artística, começada nos anos 80 do século XVII (a data de 1681 inscrita no portal assinala-o) e ultimada em 1703. Tal unidade, sentiu-a também um investigador local, Manuel Carvão Guimarães (que em meado do século passado escreveu importantes estudos monográficos sobre a Chamusca), quando nos diz que esta pequena igreja «é incontestavelmente o único monumento em todo o concelho que se conserva no estado em que o deixaram os seus constructores», ou seja, sem adições nem restauros que alterassem esse espírito erudito da época de D. Pedro II…
As duas irmãs fundadoras recorreram a bons artistas. O competente mestre pedreiro que em 1672 ergueu a frontaria (e que penso fosse o mesmo da citada ermida da Azinhaga) mostra erudita concepção, na estrutura ainda maneiristas dos volumes, com cunhais apilastrados, acrotérios com esferas, frontão curvo e nicho com fruste imagem pétrea do orago na cimalha. O anónimo entalhador do retábulo (que foi dourado em 1699 por instâncias de Leonor Velho, como se diz no seu codicilo testamentário) revela ainda uma morfologia entre o epi-maneirismo dos flancos e o novo gosto barroco do Estilo Nacional que já se respira nas arquivoltas torsas. A tela da tribuna, uma tenebrista Nossa Senhora da Conceição (e não Nossa Senhora do Ó, como erradamente ali se diz), é de desenho tradicional, remetendo para as oficinas proto-barrocas regionais. Também o tecto de caixotões pintado de brutesco, com enrolamentos de acantos, flores, anjos, molduras e outros elementos, que cobre a capela-mor, tem certa qualidade (prejudicado embora, nas edículas centrais, por um mau repinte). Poderão ser — tanto a tela como a decoração de brutescos — obras do artista local Baltazar Cardoso, pintor das modalidades de óleo, fresco, policromia e dourado, que esteve muito activo na Chamusca (Misericórdia), e em Torres Novas (São Tiago), na viragem do século XVII para o século XVIII.
Além da bela grade de madeira torneada (um trabalho do mesmo anónimo marceneiro que fez a teia do púlpito), também os marmoreados de cores que revestem a banqueta (de 1703), merecem atenção, como testemunho desse gosto «crespo e relevante» que lembra o arquitecto régio João Antunes e é típico do gosto da época pedrina, o gosto em que toda esta capela-mor se inspira. De certo modo, é o mesmo cânone artístico da Capela Dourada (da Ordem Terceira Franciscana) em Santarém, bem como o da capela-mor da igreja matriz da Chamusca, outro exemplo de ‘arte total pedrina’ que reclama estudo.
Quanto à imaginária do altar-mor e dos dois altares colaterais, destacam-se peças em madeira (São Pedro), em terracota (Santa Bárbara e Senhora da Conceição) e, sobretudo, em marfim, neste caso o extraordinário Cristo crucificado de factura indo-portuguesa que se admira no altar-mor. Trata-se de uma peça deveras surpreendente do pleno século XVII, que pela sua fina qualidade escultórica é digna de museu (ainda que nem sequer seja referida no Inventário Artístico de Portugal de Gustavo de Matos Sequeira, no tomo III, de 1949, dedicado a este Distrito, nem nas monografias locais). Merece atenção, por ser absolutamente notável, o lavor escultórico da cabeça, e a modelação do tronco, tirando bom uso de um pequeno dente de elefante. A peça ainda tem restos da primitiva policromia (lamentando-se apenas a perda, por incúria ou vandalismo, da parte esquerda do enrolamento do cendal).
Esta imagem oriunda de Goa deve ser de uma das doações feitas pelas irmãs Grandia à capela por si fundadas. O testamento fala de peças oferecidas, desde uma grande tela da Descida da Cruz, desaparecida, além de colchas, pratas, imagens e outros ornamentos não especificados. O saque da vila durante as invasões napoleónicas, que foi extenso e violento, e o facto de ter deixado de haver capelães em São Pedro (o último, em 1875, foi o Padre João José da Costa, sucedendo ao Padre Francisco de Sousa de Prado Lacerda, que seria Bispo de Angra), levou a que o abandono e a incúria se apossassem da Capela em diversas fases mais recentes, o que explica a perda do arquivo e de algum do seu património sacro.
As irmãs Crandia, fundadoras da Capela, eram muito abonadas, a crer no legado testamentário de D. Leonor Velho, que o investigador Carvão Guimarães revelou, e na demais informação que nos dá a saber que ambas eram cristãs-novas e que, segundo a tradição, o feitor da casa onde viviam, quase defronte da capela, era um negreiro também de «sangue judeu» chamado Inácio Leitão Ferreira. A fundação do templo poderá entender-se, assim, como um esforço de investimento das irmãs em busca de um estatuto de respeitabilidade local de que careciam. A documentação sobre a Capela que sobrevive (no arquivo da Misericórdia), bem como o testamento com codicilo de 1698 (dado a conhecer pelo citado investigador do século passado) e, ainda, a contabilidade dos administradores da Capela, mereciam ser melhor estudados à luz das obras de arte que a mesma conserva e trarão por certo mais saberes.
Completa-se a decoração da capela-mor com a azulejaria azul e branca, já de início do século XVIII, que reveste as paredes laterais. Deve datar de 1703, data do douramento do retábulo (que estava pronto, mas «a cru», desde cerca de 1681), e que mostra cenas da iconografia de São Pedro (Entrega das Chaves, Libertação de São Pedro da prisão pelo Anjo, São Pedro arrependido, etc), mas a pintura é de fraco desenho, ainda que na sua disposição cenográfica cumpra o seu papel de integração no conjunto de um modo convincente. No tipo de estilemas, o pintor destes azulejos revela um tónus barroquista dentro da tradição do célebre pintor de azulejos Gabriel del Barco, pelo que, creio, eles podem ser assacáveis a um seguidor de Barco, o mesmo que ornou, cerca de 1692, a capela do Senhor Jesus dos Lavradores na igreja de São Tiago de Torres Novas (não por acaso uma igreja onde também trabalhava, em 1708, o pintor chamusquense Baltazar Cardoso) … Apesar da torpeza do desenho, esta obra de azulejaria contribui para o global efeito de surpresa que se tem quando, como disse, se entra no espaço de culto de São Pedro e verificamos que esse espaço mantém, incólume, o fruto de uma só campanha barroco-pedrina!
Merece atenção, enfim, uma incomum pia de água benta com base torneada em brecha da Arrábida, de boa traça barroca, à direita da entrada do templo. Também o púlpito clássico, na parede esquerda, mostra uma teia seiscentista que reflecte características idênticas à que separa a nave do presbitério. Possivelmente, também a abóbada da neve seria pintada, como sucede em São José da Azinhaga; se foi, não restam vestígios nem sinais cripto-artísticos que o atestem. Mas imaginar ambas as coberturas pintadas, com a sua explosão de formas e cores, seria o atestado final de unicidade e a suma de gosto pedrino de que o templo é vivo testemunho…
A Capela, classificada como Imóvel de Interesse Municipal desde 1997 (Dec. 67/97), pertence hoje à Santa Casa da Misericórdia da Chamusca e só raramente tem culto (dia das festas de São Pedro, a 29 de Junho), só sendo aberta em ciclos de visitas. É importante que estas visitas se continuem a realizar com regularidade e, mais, que possam integrar com coerência uma Rota da Arte Barroca na Chamusca, por ser o estilo em que vários monumentos desta vila são especialmente ricos.
Agradecimentos: ao senhor Pedro Ribeiro, pela oportunidade da visita; aos historiadores de arte Nuno Prates (Câmara Municipal da Chamusca) e Joaquim Moedas-Miguel (empresa Patrimonium- Rota das Sete Igrejas da Chamusca) por úteis informações complementares; a António Matias Coelho, autor do livro ‘Chamusca 2022 – 400 Anos de Misericórdia´; e ao Editor Joaquim Garrido (de Edições Cosmos), pela amizade e oportunidade de acesso aos cadernos manuscritos de Manuel Carvão Guimarães (1896-1975), os quais permanecem inéditos. Aliás, muito importava que, pela riqueza de informações, fossem finalmente editados em monografia, um voto que deixo formulado.


