Data de 1839 um desconhecido ensaio sobre a essência e o espírito da arte portuguesa intitulado ‘Da Arte (Fragmentos)’, escrito por Alexandre Herculano (1810-1877) no tempo em que, muito jovem ainda, iniciava carreira como bibliotecário-mor das Reais Bibliotecas das Necessidades e da Ajuda e começava as pesquisas de arquivo que iriam gerar as suas célebres obras sobre a História de Portugal.
O manuscrito, com onze fólios autógrafos, encontra-se entre o espólio do grande historiador que se guarda na Biblioteca Braamcamp Freire, em Santarém, e foi-me dado a conhecer pela senhora Dra Maria Isabel Claudino Santos, a quem se deve a catalogação do Fundo Alexandre Herculano, a quem muito agradeço o apoio à investigação (num agradecimento extensivo à equipa dirigida pela Dra Luísa Cotrim, directora da BMBF).
Neste inédito sob todos os pontos de vista precioso, Herculano recusa validade ao conceito horaciano da ‘ut pictura poesis’ e explica a criação artística na senda da Luz e do Sublime, rejeitando a ‘imitatio’ e negando que a arte seja mera ‘imitação da natureza !’. Contrário a esse ‘axioma repetido até aos nossos dias’, Herculano assume sem peias a causa do Romantismo e afirma que existem ‘em cada obra artística três elementos distinctos e todavia inseparáveis: o ideal, o poetico e a forma: o ideal é o mysterio, o poeta é o vidente, a forma é a revelação escripta’. É sob esse prisma romântico que detecta na arte portuguesa três ‘príncipes máximos’: o arquitecto Afonso Domingues, criador do mosteiro da Batalha e ‘poeta da pedra’; o Grão Vasco, pintor de ‘formas feitas palavras’; e Camões, o áspide do conceito de ‘poeta-pintor’.
Esta inesperada defesa da ‘unidade das artes’ no quadro do Romantismo nascente de que foi um dos fundadores mostra o destaque que Herculano dá a Os Lusíadas, obra-prima de um pobre poeta que ‘morreu sobre a enxerga fétida de um hospital’ e para quem ‘a Arte consiste em traspassar fragmentos do mundo ideal para o mundo real’. O texto deste ensaio inédito, em que Herculano desenvolve as suas teses estéticas à luz da recuperação da Arte Medieval, constitui um texto da maior importância. É significativo o facto de integrar na sua tríade de ‘águias’ o nosso Camões, a despeito de ser, como diz, um autor já do século XVI, ou seja, o ‘tempo de degenerescência do Gótico’…
A boa fortuna permitiu que este fosse um dos manuscritos inéditos que se conservou num fundo documental adquirido pela Câmara Municipal de Santarém em 2021 e integrado desde então, em regime de depósito, no arquivo da Biblioteca Braamcamp Freire. O manuscrito tem uma indicação final, também do punho de Herculano, onde atesta o interesse em prosseguir a sua análise em torno do seu conceito romântico de Forma, mas a verdade é que o grande historiador não voltou a retomar essa reflexão estética.
O texto reporta-se, assim, a uma proposta de ensaio que, por indicação do próprio (no tempo em que, já a viver na quinta de Vale de Lobos, se dedicou a revisões de espólios e a organizar os seus famosos ‘Opúsculos’, de que se editaram dez tomos, entre 1873 e 1908), não desejou dar à estampa porque, como diz, o assunto deixara de ‘ter oportunidade’.
Trata-se de um ensaio sobre o sentido artístico que define a Cultura portuguesa e que demonstra com clareza, como bom romântico, a sua opção pela estética do Gótico em detrimento das artes que, depois do século XVI, teriam vindo ‘deturpar essa busca do sublime’ dos séculos precedentes. O seu modelo estético é o Mosteiro de Santa Maria da Vitória e um dos seus três príncipes é o arquitecto Afonso Domingues (ao qual daria, poucos anos volvidos, protagonismo maior no conto ‘A Abóbada’, de 1843); o segundo é o enigmático Grão Vasco das lendas, então considerado o fundador de uma ‘escola portuguesa de pintura’, e o terceiro – surpresa! … – Luís de Camões, o eterno vate! Vemo-lo na gruta de Macau a escrever o seu poema épico, emerso numa atmosfera melancólica em que é a saudade da pátria ausente que se perfila: ‘…Curtia amargura e saudades. A imagem da pátria via-a surgir pouco a pouco; e abraçava-se com esta sombra, que tanto amou. Então as procelas da sua alma asserenavam, e elle repetia uma estrofe do seu largo hymno da terra natal. Depois vinha a noite, e a tempestade de agonias de novo lhe entenebrecia o coração’.
O texto de Herculano é magnífico, quer em termos literários, quer em argumentário filosófico, e traz-nos um contributo inesperado para os estudos camonistas, sendo de lamentar que não tivesse dado desenvolvimento a este verdadeiro esboço de tese filosófica sobre o conceito de Belo, acima do conceito de Imitação, em que Camões surge na liça como expoente do primeiro! O Idealismo Alemão do tempo do historiador estimou essa ‘revolução do espírito’ que, a essa luz, se podia assinalar em Os Lusíadas, conforme atesta Johann Gottlieb Fichte (1810) num texto alusivo ao episódio de D. Inês de Castro, cotejado face a Dante (nos cantos do Purgatório da Divina Comédia) e a Petrarca (no soneto a Laura). Também Friedrich Schlegel, considerado o descobridor alemão da epopeia portuguesa, definiu Camões como poeta romântico avant la lettre, ao dar voz à ‘vida efectiva da nação intimamente unida à sua disposição poética’. O mesmo filósofo disse também que a obra do poeta luso merecia ombrear junto à de Homero como poema épico maior. Pelos mesmos anos, Hegel escreve que Os Lusíadas são ‘o livro do povo, a sua língua, o seu discurso, a bíblia de um povo’, e elogia Camões pelo ‘absurdo maravilhoso’ da sua épica, que não esconde a ‘imensidade do genio’… Herculano conhecia também a citação de Schlegel (num soneto de Paris, 1807) onde diz: ‘sê então, Camões, o meu modelo’…
Alexandre Herculano foi influenciado por estes círculos filosóficos inflamados do Idealismo alemão, e é sob esse espírito que deve ser lido o ensaio de 1839 agora achado. Na sua opção pela estética do Gótico, acima do Renascimento, o modelo nacional é o Mosteiro de Santa Maria da Vitória e o primeiro dos seus ‘três príncipes’ é o arquitecto Afonso Domingues (ao qual viria a dar depois protagonismo no conto ‘A Abóbada’). O conceito de Belo, no qual se revela um romântico de vanguarda, leva Herculano a ver a arte nacional auto-justificada pela tríade constituída por Afonso Domingues, ‘arquitecto da pedra’, por Grão Vasco, ‘pintor da palavra´, e por Camões, o ‘poeta das ideias’ — todos eles vistos como autores dos nossos três mais imortais monumentos…
Em suma, diz Herculano, ‘um pensamento dominante, e o crer fortemente são as condições subjectivas e absolutas da composição artística’. O Mosteiro da Batalha, cenóbio domínico e panteão régio, erguido no rescaldo da vitória de Aljubarrota, é a obra-prima do Gótico flamejante em Portugal e sempre extasiou o espírito romântico, rendido à obra suprema da Dinastia de Avis. Não admira, pois, que Afonso Domingues, arquitecto oficial do mosteiro de 1388 a 1402 e alegado responsável pela gigantesca abóbada única que cobre a Sala do Capítulo, seja um dos três ‘príncipes das artes’ de Herculano e possa ser heroicizado como ‘poeta da pedra’.
Já com Grão Vasco a escolha é mais difícil de justificar, já que em 1839 nada se sabia sobre um artista com esse nome para além de ser uma espécie de mito a quem eram atribuídas todas as boas pinturas antigas existentes no país! A mitificação, com origens no século XVII, constituiu o maior fenómeno de auto-legitimação patriótica de que há exemplo na nossa História da Arte, o que explica a vasta fortuna crítica que envolveu tantas pinturas atribuídas a esse mito Grão Vasco presentes nas colecções de Oitocentos, bem como o esforço de ilustres estrangeiros em as adquirir (José-Augusto França, entre outros autores, dá conta desse mercado de Oitocentos, tão ignorante quanto falho de crítica…). Só com os estudos de Vergílio Correia no início do século XX, ao estabelecer quem foi realmente o pintor viseense Vasco Fernandes (c. 1480-1542), a quem as fontes antigas chamavam Grão Vasco, o mito começou finalmente a desaparecer. Mas se, hoje, o Vasco Fernandes histórico já não se confunde com essa nuvem lendária, readquirindo com a pesquisa científica da História da Arte a justa reabilitação, no tempo de Herculano o mito grão-vasquista merecia ser destacado por valorizar e internacionalizar o nosso património artístico no Mundo.
Para o romântico Herculano, que escreve num tempo dilacerado por guerras civis e em que o país ainda tão pouco sabia da sua própria História artística, o mito Grão Vasco justificava-se por devolver orgulho, identidade e sentido de pertença a um povo ávido de reconhecer símbolos credíveis. É por isso que neste ensaio filosófico o historiador entendeu escolher o Grão Vasco como um dos seus três príncipes das artes, dando-lhe forma e existência no século XV, junto ao próprio Afonso Domingues, e integrando-o estilisticamente no Gótico. E porque o ‘substracto da arte é só o ideal’, imagina-o na Sala do Capítulo da Batalha, defronte do cavalete, a pintar a cena do Menino entre os Doutores, um veraz ‘quadro demonstrativo’ para ‘quem tiver olhos para ver, coração para sentir, entendimento para perceber’. Mais ainda: ‘ao artista diz que há ali em cada postura de membros, em cada gesto, em cada ruga dessa multidão de frontes expressivas, um pensamento de poeta; o nada do saber humano ante a sciencia de Deus, expresso na lucta das duas sabedorias’.
O terceiro herói máximo da Arte portuguesa é Camões, o ‘pintor da palavra’ ! O ensaio mostra-o como exemplo do ‘poeta livre, celebrando as memorias de uma Nação illustre’. Embora Herculano lhe vitupere o Classicismo (‘…tal é Camões a quem não póde envilecer a desventura, nem o ar da Côrte de D. João 3º e de seu illudido e absoluto neto, ar já apestado pela escravidão. Assim talvez o unico defeito dos Lusiadas seja o seu absoluto maravilhoso, que elle deveu ao seculo, e de que mesmo poderiam tirar como argumento o favor da immensidade do genio de Camões’), a verdade é que ‘só por Camões, nós os portugueses seriamos grandes. Opprobio da Europa nos tempos modernos, era debaixo da sua coroa de louro e das de antiga gloria, que ja começavam a desfolhar quando elle a cantou, que nós nos abrigávamos para ainda entre os estranhos ousar dizer o nome da nossa Patria. E esta com que retribuiu ao Poeta ? Nem com um amigo’…
Herculano pensou destinar este ensaio de 1839, não publicado, ao Jornal do Conservatorio, que se editou no Porto entre Dezembro desse ano e Junho de 1840 por iniciativa do Conservatório Geral de Arte Dramática dirigido por Almeida Garrett (tendo saído 21 números). Aí escreveu alguns dos seus primeiros artigos sobre o estado da literatura nacional. Num apontamento manuscrito chamado ‘Opúsculos vol. Litteratura (vol. I)’, conservado no acervo da BMBF, o historiador, já a viver em Vale de Lobos, esboça os títulos que iriam integrar os ‘Opúsculos’: na enumeração de 17 títulos de ‘Materias’ para um dos tomos, refere este manuscrito ‘Da Arte, fragmentos – 1839’, mas está riscado pelo seu punho (‘«Não tenciono integrar isto em tomo algum’), acrescendo à nota o seu empenho em que esse ensaio não se publicasse, por estar incompleto e por nunca ter voltado a usufruir de disponibilidade para o desenvolver.
Creio que Herculano deve ter considerado este estudo juvenil um esboço muito datado, tendo em vista o polémico tom ultra-romântico de que se investe o texto, visando os defensores da Ut Pictura Poesis e do conceito de arte como imitação da natureza, que ele freneticamente refutava. Seja como for, o ensaio permaneceu silencioso. Integrado no póstumo tomo IX dos Opusculos, encontramos aí, porém, um texto filosófico chamado Imitação – Bello – Unidade, onde Herculano volta a contrariar a imitatio e afirma, taxativamente, que «a incerteza acêrca do critério do bello não é o unico resultado do princípio da imitação; ele também está em contradiccão com o da unidade»…



