A igreja do Hospital de Jesus Cristo, que está neste momento a receber obras vultosas de conservação e restauro, é um importante Monumento Nacional (assim classificado desde 1923) que justifica um papel de maior relevância no roteiro de visitas da cidade. Poucos sabem já que a igreja se chamava, na origem, de Nossa Senhora de Jesus, e que integrava um antigo convento franciscano fundado pelo Arcebispo D. Miguel de Castro no sítio onde antes existiu, extra-muros da vila de Santarém, o Paço dos Arcebispos de Lisboa. Com a exclaustração, em 1834, passou para a gestão da Santa Casa da Misericórdia, herdeira do antigo Hospital de Jesus Cristo, daí derivando a designação que se manteve até hoje.

Com a sua austera estrutura arquitectónica maneirista em ‘estilo chão’ (a fachada e a estrutura interna inspiram-se na traça do Mosteiro de São Vicente de Fora, de Baltasar Álvares), a igreja teve obras de construção começadas em 1617 mas só realizadas em 1645-1649 quando recebeu apoio mecenático de uma rica benemérita, D. Joana Coelho, viúva de Fabião de Andrade da Veiga, capitão de Cochim, de que resultou a sua configuração, acrescentada no fim de Seiscentos pela anexa Capela Dourada destinada aos irmãos terceiros. 

Mas é com as grandes obras de decoração produzidas no reinado de D. João V, em concreto entre 1719 e 1726, que a igreja se aprimora tornando-se um expoente desse gosto exorbitante em que o Barroco proselitista foi pródigo. Diz Luís Montês Matoso que para se pagarem estas obras iniciadas de 1719 teve papel relevante o «grande espírito» de um franciscano chamado Frei Luís, natural da vila. É então que as artes das ‘chinoiseries’ se insinuam nas capelas laterais, revestindo molduras de painéis e envolvendo altares com um sopro de exotismo que conjuga visões sacras e profanas e testemunhos de culturas muito díspares, europeias e asiáticas, numa comunhão de formas que parece afastar o peso do ‘decorum’ tridentino e a influência nefasta dos habituais censores da época, sempre ávidos a visar todos os atrevimentos que pudessem invadir os lugares de culto. 

Ora a decoração do sub-coro e das capelas laterais intercomunicantes é, toda ela, uma verdadeira sinfonia contada em dialectos luso-asiáticos! As ‘chinoiseries’ a ouro sobre fundo vermelho que decoram quatro capelas (de Nossa Senhora das Angústias e de São Francisco, à esquerda, e do Senhor do Bonfim e de Sant’Ana, à direita) são uma maravilhosa panóplia de sub-cenas que incluem, entre meandros e flores exóticas, jogos lúdicos, cenas de galanteio, trechos de caça e pesca, surda música profana e celestial, festas populares, cenas marítimas, testemunhos de arquitectura onde  avultam pagodes chineses e outras imaginosas construções, bem como animais exóticos, camelos, aves canoras, pássaros míticos (o Sighurt) e, ainda, alegorias moralizantes abertas ao ecumenismo, sem esquecer as poses de sensualidade e nudez — ou seja, são uma viagem de formas que convidam no seu êxtase de liberdade explosiva e de festividade a abraçar o quadro de um Barroco pluricontinental!

Nomes como os dos pintores António Simões Ribeiro e Vicente Nunes, de Lisboa, e Xavier de Paiva, de Santarém, agigantam-se nesta decoração quinto-joanina da igreja e espantam-nos, de certo modo, tratando-se de uma casa franciscana… À luz dos documentos, sabemos que couberam ao primeiro os frescos dos tectos (datados de 1723) com perspectivas arquitectónicas e ‘quadri riportati’ com alegorias morais, bem como a pintura das telas dos altares de três capelas. Este pintor, discípulo do florentino Vincenzo Baccarelli, também pintaria em Santarém a Sala da Irmandade da igreja de Santa Cruz e iria, a breve trecho, partir para Salvador da Bahia, onde morre em 1755 e onde será o pioneiríssimo introdutor de tectos pintados em ‘quadratura’ perspéctica em todo o continente americano! Quanto ao segundo, o colaborador de Simões Ribeiro nas pinturas da Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra e também activo na Misericórdia de Abrantes e em São Paulo de Almada, era um delicado ornamentista de flores, vasos, pássaros, anjos e outros elementos complementares à decoração da pintura de tectos. O último, um pintor local de estatuto mais modesto, aprimorou-se no dourado de talha, no estofado de imagens e no ‘axaroado’ de molduras, havendo notícia de trabalhos congéneres produzidos por si no mosteiro dominicano das Donas, no Hospital de Jesus Cristo, em São Nicolau e na Misericórdia de Santarém. 

Quero crer que foi Vicente Nunes (ou Xavier de Paiva, sob superintendência dos dois mestres Iisboetas) o executante deste programa imaginoso de xarões, a partir de fontes de erudição que ainda se desconhecem, fossem elas gravuras com temas chineses destinados a pinturas de papel, ou modelos repertoriais já estabelecidos. O que é certo é que o pintor sabia o que usar e que os frades concordavam com a ousada escolha temática…

Em visita recente a Santarém, o historiador de arte Thomas DaCosta Kaufmann elogiou muito a complexidade deste programa artístico, que considerou de alta qualidade e erudição, resultando desta múltipla decoração barroca um efeito de espelho de todo um microcosmos globalizado! Os surpreendentes motivos de xarão (as ‘Chinoiserie’, imitações da laca chinesa) casam-se aqui com a talha e telas dos altares, a óptima pintura de perspectiva, os azulejos figurativos, as imagens estofadas, os fingimentos de decoração mural: eis, pois, um programa artístico soberbo, elaborado de 1719 a 1726 e pensado como um todo neste espaço conventual de franciscanos, e que vem sobremaneira enriquecer uma das menos conhecidas igrejas de Santarém! 

A voz autorizada de Thomas DaCosta Kaufmann atestou nesta decoração da igreja do Hospital um comprovativo do sentido de máxima globalização de que se reveste o Património Cultural da nossa cidade. Professor da Universidade de Princeton e nome maior da História da Arte internacional, Kaufmann de há muito manifestava interesse em conhecer a arte santarena e, aproveitando o facto de ter sido feito ‘Doutor Honoris Causa’ pela Universidade de Lisboa, esse desejo tornou-se realidade. Pôde destacar o que chamou a singularidade artística de uma arte localizada que nos séculos XVI, XVII e XVIII, pelo menos, se soube abrir aos encontros de culturas, com testemunhos vivos de uma universalidade concebida em alto grau de engenho e fortes relações multiculturais. 

Por isso, os ‘axaroados‘ chineses da igreja do Hospital suscitaram-lhe o maior interesse, assim como, na mesma igreja, o tapete persa pintado por Diogo Teixeira no quadro ‘São Nicolau Tolentino’ (1603) ou os tectos de perspectiva (1723) de António Simões Ribeiro, com seus nus profanos. Como Kaufmann provou no livro ‘Towards a Geography of Art’ (2004), a trans-contemporaneidade das obras só se percebe quando as questões de identidade e intercâmbio de formas envolvem a Geografia e a Cultura na sua complexa teia de articulações. A História da Arte, segundo ele, defronta-se com um esforço de análise assente naquilo que chama Geografia da Arte, com uma centralidade que supera os enfoques tradicionais sobre o papel das obras, confinadas a discursos nacionais irremediavelmente localizados tal como sustenta a investigação mais tradicional. Ora são as questões de identidade e intercâmbio de formas que envolvem Geografia e Cultura que permitem abordagens transculturais dos actos de transferência, circulação, inovação, subversão, centro e periferia, em que as obras de arte são sempre pródigas. As agendas formalistas localizadas nunca chegam para explicar o mundo maravilhoso em que as obras de arte respiram. Não basta saber quem as fez, quando, como e onde, mas perguntar: porque são assim

O mercado artístico de Santarém da Idade Moderna sabia respirar por esse pulmão global, com influências múltiplas, incluindo as extra-europeias nas suas expressões vernáculas ou periféricas. E basta ver-se quem eram os clientes e mecenas que custeavam obras santarenas: por exemplo, o mercador Tristão Nunes Infante, que no fim do século XVII foi benfeitor dos terceiros franciscanos do Sítio, tinha negócios em Pernambuco e na Bahia, assim como outros escalabitanos abonados desse mesmo século que andaram pela Índia, pela China, pela Indonésia. O intercâmbio de obras de arte, junto com novas soluções, gostos e ideias, tornava-se assim um veículo de actualização e de globalização.

Boas práticas são estas no campo das artes — as que permitem ver melhor as obras ontem produzidas, e as dos técnicos de conservação e restauro de hoje que preservam testemunhos e saberes. Registe-se, por isso, o sucesso do trabalho a que a Santa Casa da Misericórdia de Santarém e a empresa Água de Cal-Conservação e Restauro meteram mãos: o milagre começa a ressurgir…

A mesma insólita decoração de chinoiserie inspirada em temas asiáticos a partir do conhecimento do lacado chinês também surge nos retábulos laterais da igreja de São Vicente do Paúl, numa serventia da igreja de Vale de Figueira e na porta de uma dependência no Mosteiro de Almoster. São decorações regionais que podem ter tomado inspiração na extraordinária presença das ‘chinoiseries’ da igreja franciscana do Sítio (hoje Hospital de Jesus Cristo). 

Que dizer de um património artístico assim, de dimensão inclusiva e extra-nacional, que continua a querer dialogar com todos, fora dos tempos, para além dos tempos? A cidade de Santarém é hoje, de facto, muito mais do que a Capital do Gótico ou um centro do Renascimento — é um verdadeiro microcosmos do Mundo inteiro e precisa de ser melhor vista a essa luz!

 

AGRADECIMENTOS: a António Monteiro, a Anabela Neves e ao Provedor José Miguel Correia Noras (SCMS), pelo apoio a esta breve investigação realizada no decurso de obras de restauro (empresa Água de Cal-Conservação e Restauro), bem como a José Meco, Sílvia Ferreira, Maria de Fátima Reis, António Filipe Pimentel, Eva Raquel Neves e Joaquim R. Santos pela troca de impressões sobre a arte da ‘chinoiserie’ no século XVIII nacional. 

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