Desde há muito que me intrigam duas grandes pinturas a óleo sobre tela com temática mitológica que se podem admirar no topo da escadaria nobre da Biblioteca Municipal Anselmo Braamcamp Freire e que representam dois temas clássicos sobre o Amor, assumido tanto nas suas facetas de contenção como de euforia.

O seu anonimato não diminui o evidente interesse literário e artístico que oferecem aos nossos olhos. Uma delas narra a conhecida saga de ‘Narciso e Eco’, inspirada numa das histórias das célebres ‘Metamorfoses’ do poeta Ovídio (escritas no tempo do imperador Augusto), e alegoriza as artimanhas dos deuses para contrariar a paixão entre mortais. A outra mostra-nos, bem pelo contrário, o furor amoroso da história de ‘Angelina e Medoro’, tão bem descrita no poema ‘Orlando Furioso’ de Ludovico Ariosto, uma obra saída em 1516 e dedicada ao cardeal Ippolito d’Este; vemos o par de amantes a gravar os seus nomes numa árvore de bosque em jura de amor eterno.

Tais pinturas aliam a sua evidente qualidade artística às duas referidas fontes literárias, consideradas obras de sucesso entre as elites europeias da Idade Moderna. Têm, por isso, um interesse histórico, cultural, artístico, literário, iconográfico e iconológico que não explica o continuado desinteresse a que têm sido votadas, como se o seu papel decorativo fosse suficiente para justificar a presença numa pinacoteca tão bem apetrechada de obras muito acima da mediania…

De facto, o gosto estético de Anselmo Braamcamp Freire (1849-1921), que, além de historiador com reconhecidos pergaminhos, foi Presidente da Câmara Municipal de Lisboa (1908-1913) eleito pelo Partido Progressista, Deputado às Câmaras Constituintes de 1911 e primeiro Presidente do Senado já em tempo de Primeira República, estima-se pela aquisição de pinturas de excelência. Além de genealogista, escritor, arqueólogo, heraldista, bibliófilo e historiador com obra relevante, tinha um apurado gosto artístico. Na Casa-Museu acham-se óptimas peças de Pieter Coeck van Aelst e de Dirk Stoop entre os flamengos, Domenico Pellegrini entre os italianos, e Josefa de Óbidos, Tomás da Anunciação, Miguel Lupi, Francisco Metrass, Alfredo Keil, José Malhoa e Dórdio Gomes (sem esquecer as esculturas de Teixeira Lopes e Simões de Almeida) entre os nacionais. No caso das duas naturezas-mortas de Josefa de Óbidos (1676), por exemplo, é consensual considerar-se que são mesmo as suas melhores obras…

Não é de crer, pois, que um avisado comprador de pinturas com este nível de exigência descurasse o rigor aquisitivo no caso deste par de telas de temário clássico e deixasse que na sua coleccção se misturassem meras cópias de âmbito académico de factura oitocentista e responsabilidade de bolseiros idos aprender a Roma junto dos clássicos.

Trata-se, a meu ver, de pinturas italianas originais, datáveis da transição do século XVII para o XVIII e de muito boa qualidade plástica, que enobrecem a pinacoteca criada e doada à cidade por desejo testamentário do historiador Braamcamp Freire. Infelizmente, ao contrário de outras peças do acervo das quais se conhecem dados precisos sobre a aquisição, o silêncio é, neste caso, total a respeito da origem dos quadros: onde e quando foram adquiridos, quem foi o marchand ou intermediário, qual o valor da compra e com que atribuição deram entrada na colecção santarena.

A tela da esquerda representa a bela ninfa Eco quando se apaixonou pelo pastor Narciso, o qual por influência da deusa Hera a rejeita, preferindo mirar-se nas águas, encantado pela sua própria beleza, o que levaria à sua irremediável perdição. Os temas do narcisismo e da vã vaidade humana unem-se, assim, ao da maldição com que a despeitada Hera castigou Eco, impedindo-a de comunicar com Narciso… O tema mereceu a Ovídio, nas suas épicas ‘Metamorfoses’, uma atenção que atrairia, depois, a criatividade de grandes artistas (como Caravaggio, por exemplo).

Quanto à história dos amores consumados (apesar de proibidos) entre a princesa carolíngia Angélica e o soldado sarraceno Medoro, criada pelo génio de Ariosto e fonte de inspiração para muitos poetas e artistas, ela é sumariada no quadro da Braamcamp Freire pelo momento em que os amantes gravam numa árvore o seu nome, para grande fúria de Orlando, pretendente de Angelina.

As telas de Santarém oferecem, no seu assertivo desenho académico, na boa modelação dos valores de enquadramento e na sólida correcção compositiva as razões de acrescida atenção por parte de quem gosta de obras de arte. No meu caso, andava há muito a cismar nestes quadros, mas só agora apurei a sua fonte artística. Trata-se de pinturas de temário clássico, quase de certeza executadas em Roma na viragem do século XVII para o XVIII, e que se inspiram, quase sem variantes, em duas composições de um dos mais notáveis artistas activos no contexto do Barroco romano: o pintor Benedetto Luti (1666-1724)!

Nascido em Florença, cidade onde recebeu formação e apoio mecenático do Grão-Duque da Toscana Cosimo III, e onde cedo se destacou no uso do óleo e do pastel, Luti mudou-se para Roma, ingressando em 1694 na famosa Accademia di San Luca, e trabalhando nos palácios Colonna, Barberini, Odescalchi e Pallavicini, as grandes famílias artistocráticas da cidade. Mas também pintou para o mercado religioso (caso dos frescos da basílica de San Giovanni in Laterano, por exemplo). Recebeu, também, discípulos de fora na sua oficina (um deles foi o nosso famoso Francisco Vieira Lusitano).

Senhor de um desenho admirável, com um sentido sedutor da composição, dentro daquela afectação formal típica da época e dentro de um repertório em que Barroco e Classicismo se encontram (o que conquistou muitos admiradores por toda a Europa), o pintor estimava-se no dealbar de Setecentos, junto a Carlo Maratta, como uma das personalidades máximas da arte romana. Em 1708 integrava a Congregazione dei Virtuosi sedeada no Panteão de Roma. Personalidade de difícil temperamento, no dizer dos biógrafos, no fim da vida, em 1720, ainda recebeu o título de Príncipe (presidente) da Accademia di San Luca, cargo que, aliás, gerou polémica por o seu nome não ser consensual.

…Olho melhor para estes dois grandes e ignotos quadros santarenos da Casa-Museu Braamcamp Freire (cujo acervo desde tenra idade aprendi a admirar, ainda no tempo em que Bertino Coelho Martins era seu responsável). O ‘Narciso e Eco’ e a ‘Angélica e Medoro’ da escadaria são, pois, boas versões de originais pintados por Benedetto Luti com estes precisos temas e se acham em colecções privadas.

O catálogo mais completo da sua obra, da responsabilidade de Rodolfo Maffeis (2012), intitula-se Benedetto Lutil’ultimo maestro e referencia essas pinturas que, segundo agora atesto, serviram de inspiração às que Braamcamp iria adquirir dois séculos volvidos para a sua residência. Eram, ao tempo, peças muito apreciadas e disputadas pelas melhores colecções aristocráticas.

Como diz este historiador de arte, o estilo de Luti foi a quintessência desse ideal de Arcádia que no início do século XVIII visava superar os excessos do Barroco proselitista e regressar às formas puras da inspiração clássica, seguindo a tradição italiana que, desde Rafael, chegaria a Canova. Mais diz Maffeis: «because of Luti’s role in Roman painting at the turn of the century, he represented the bridge between the Baroque classicism of Carlo Maratti and Pompeo Batoni’s crystalline Rococo or in other words, between the 17th and 18th centuries». É por tudo isto que as telas de Santarém merecem não só outra atenção como um renovado esforço no estudo das suas fontes artísticas.

 

BIBL. Carlos Amado e Luís António Mata, Braamcamp Freire: o génio poliédrico, catálogo de exposição, Câmara Municipal de Santarém, 2022; Luísa Arruda, Francisco Vieira Lusitano (1600-1783). Uma Época de Desenho, Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, 1999; E. Peters Brown, «Benedetto Luti». Art in Rome in the Eighteenth Century, Philadelphia & London, 2000, pp. 392–399; Rodolfo Maffeis, Benedetto Lutil’ultimo maestro, Firenze, ed. Mandragora, 2012; e G. Sestieri, Risarcimenti a Benedetto Luti, in ‘Studi di storia dell’arte in onore di Fabrizio Lemme’, Roma 2017, pp. 265–276.

Agradeço a Luís António Mata, Maria Emília Pacheco, Teresa Desterro, Carlos Amado, António Monteiro, Luísa Capucho Arruda e Nuno Saldanha as informações colhidas nesta investigação, bem como à equipa da Biblioteca Municipal Braamcamp Freire dirigida por Luísa Cotrim, pelas facilidades de acesso às colecções documentais e artísticas.

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