A Ermida do Milagre, que se situa na Rua das Esteiras, a sessenta passos da igreja do Santíssimo Milagre, no lugar onde alegadamente ocorreu no século XIII o mais famoso dos eventos miraculosos de Santarém, é um pequenino templo praticamente desconhecido de quem visita a cidade e admira o seu património.
É, todavia, uma verdadeira surpresa: preserva incólume a campanha artística gizada nos anos 60 do século XVII pelo arquitecto João Nunes Tinoco, que desenhou a fachada e transformou o exíguo interior num dos mais originais espaços cénicos que se podem admirar em todo o património artístico de Santarém, com a articulação entre o corpo da ermida, com o vistoso zimbório piramidal, e a rica decoração maneirista com recurso ao ‘stucco’ e aos mármores de cor.
Autor único a destacar a beleza deste espaço mínimo (vinte e seis palmos e meio de comprimento, da porta ao altar) foi o sempre atento e erudito Inácio da Piedade e Vasconcelos, que em 1740, na sua ‘Historia de Santarem Edificada’, lhe destaca a ciência da volumetria, a beleza da forma piramidal do zimbório e as boas proporções no uso das cantarias, mármores e estuques, bem distribuídos pelos espaços. Mas, no resto da bibliografia santarena, a arquitectura da ermida quase passou despercebida ou foi marginalmente citada, com total indiferença por parte dos historiadores de arte.
A história do edifício está bem apurada. Em 1654, um devoto do Santíssimo Milagre, o Dr. Manuel dos Reis Tavares (1590-1686), conhecido médico de Santarém, também poeta, músico e homem de letras, e sua mulher Margarida César de Almeida, adquiriram o terreno onde alegadamente ocorrera o Santíssimo Milagre, quatro séculos antes, para aí erguerem um lugar de culto que para sempre o rememorasse. A obra começou por volta de 1663 e prolongou-se, com a sua decoração, até cerca de 1675, sabendo-se que em 1684 começou o regular serviço de missas. O casal fez-se enterrar na ermida, à mão direita, em vistoso túmulo de mármore em brecha da Arrábida, assente em dois leões de pedra, junto ao altar.
Em cartelas maneiristas em estuque que se repetem nas paredes, lê-se: NESTA CASA / FOI O SANTISIMO MILAGRE / NAº 1266». A data de 1266, considerada no tempo do casal como sendo a da ocorrência do Santíssimo Milagre, foi muito contestada por autores como o padre Inácio da Piedade e Vasconcelos (1740), cujo achado de certo pergaminho no cartório da igreja o levou a assentar a data de 1247, hoje consensualizada, como sendo a do evento miraculoso ocorrido na Rua das Esteiras.
O que movia o Dr. Manuel dos Reis Tavares era o frémito patriótico de alguém que, como tantos no seu tempo, apoiava a Restauração anti-filipina e que, em pleno clima de guerras com Castela, entendia ser preciso motivar os ânimos da população retomando antigos cultos e lembrando feitos históricos gloriosos. A antiquíssima devoção do Santíssimo Milagre foi, assim, alvo de um surto devocional fortalecido, no qual a fundação desta Ermida se inscreve e se explica.
O facto de o arquitecto régio João Nunes Tinoco (c. 1610-1689) estar então em Santarém, para erguer a igreja da Piedade, comemorativa da vitória no Ameixial contra os espanhóis em 8 de Julho de 1663, levou certamente o médico a contactá-lo para desenhar a ermida que se propunha fundar na rua das Esteiras. Como se sabe, a igreja da Piedade (erguida entre 1664 e 1698) como se sabe a mais importante obra de planta centralizada de toda a arquitectura nacional (só superada, no fim do século, com a Santa Engrácia do arquitecto João Antunes). Nessa obra de arrojada concepção, e de grande «significado nacionalista», com inovação absoluta face à linha tradicional do ‘estilo chão’, João Nunes Tinoco contou, entre outros, com o mestre de pedraria Manuel Duarte, morador na vila, que chegou a dirigir então os trabalhos. Quero crer, ainda que sem prova documental, que tenha sido este a cumprir, como empreiteiro, o projecto da Ermida do Milagre, ultimada em 1684. Também se pode assacar a Manuel Duarte o túmulo dos fundadores, nesse caso segundo desenho de Luís Nunes Tinoco (1642-1719), o jovem e inspirado filho de João Nunes Tinoco, também arquitecto, poeta, escritor sebastianista e iluminador de talento, cuja biografia foi já muito bem traçada por Teresa Campos Coelho em livro de referência.
Que os Tinoco muito trabalharam para Santarém nos anos de reinado de D. Afonso VI e de regência de D. Pedro II mostra-o o facto de, em Janeiro de 1673, João Nunes Tinoco ter feito o risco do retábulo-mor da igreja de São Nicolau (desaparecido), que o mestre entalhador João Henriques executou por alto preço. Tal como seu pai Pedro trabalhara na Graça, o seu filho Luís irá trabalhar no Colégio jesuítico e ainda nesta ermida…
Voltemos então à Rua das Esteiras e à Ermida do Milagre. Na fachada, de estilo chão, com frontão curvo, pilastras e pináculos cónicos, destaca-se a pedra de armas com a emblemática do Santíssimo Sacramento, acima da porta, a qual integra a inscrição latina DNS DOMVS LEGIT I PAR 17 (cujo significado é: Eu habito numa casa de cedro). O interior é, como se disse, uma verdadeira surpresa: uma pequena escala que se revela afinal grandiloquente, com uma estrutura que remete para as construções maneiristas do fim do século precedente, e com bom uso das ‘cartouches’ em estuque, tanto nas paredes como nos frisos, no apainelado da abóbada e na ornamentação do zimbório com lanternim, sem esquecer as pedras de cor em brecha e trigache, usados com parcimónia para transformar este interior de capela numa espécie de inspiradora cenografia polícroma.
Por isso nos parece a todos, como visitantes surpreendidos, que o tempo parou nestas paredes, sem alterações significativas, como se os anos da regência de D. Pedro II hoje se mantivessem… É o gosto desse tempo, de facto, que prevalece. Quem sabe se D. Afonso VI, que visitou Santarém a 25 de Janeiro de 1664 para assistir ao início de obras da Piedade, não viria já ver o lugar da ermida que se projectava erguer ?
Sabe-se, ademais, que o altar tinha um painel (que, como diz o padre Inácio em 1740, era «admiravelmente pintado com o cazo do Milagre Santissimo»), obra ainda do tempo do Dr. Reis Tavares, mas que desapareceu. Tinha, também, um Sacrário e uma âmbula de vidro engastado de prata, guardando uma relíquia de pedra manchada pelo sangue que jorrou da hóstia consagrada na altura do furto. O que se mantém é outra surpresa: uma pia de água benta assente numa coluna com capitel de fim do século XV ou início do XVI, invertidos ! Deve ser oriunda da antiga igreja de Santo Estêvão, ou do SS. Milagre, antes da reforma impostas pelo megassismo de 1531…
Os Tinoco foram talvez a mais prestigiada dinastia de construtores de toda a história da Arquitectura portuguesa, começada por Pedro Nunes Tinoco (fal. 1640), arquitecto dos reis Filipes, pai de João e avô de Luís. Foi a este patriarca da estirpe que se pode assacar o peculiar gosto pelas decorações com «cartelas de Antuérpia» e mármores de cor, dentro de um ‘Maneirismo ao flamengo que já se patenteia na traça da Sacristia do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (1604-1622), de Pedro, e se perpetua no ornato da fachada do Colégio dos jesuítas de Santarém, de Luís (1701). A colaboração de Luís em projectos traçados por seu pai João está largamente demonstrada. A perduração de tais receitas, que são verdadeiros estilemas autorais, mostra-se com evidência na produção destes arquitectos de alto requinte, fidelizados a receitas do Maneirismo do século anterior. E não só: também a receitas do ‘manuelino’, como se vê quando Luís Nunes Tinoco reveste a fachada da actual Sé (Colégio jesuíta) com cordames enroscados do tipo dos que, dois séculos antes, eram usados nos estaleiros de D. Manuel !
O túmulo do casal fundador da Ermida é obra de Luís Nunes Tinoco, com os típicos estilemas que sempre o caracterizam, numa visão de arquitecto-pintor muito singular. O micro-sarcófago de mármore de cor assenta em dois leões, característicos de outros desenhados pelo mesmo artista. Tem a legenda: DESTA CAZA ONDE DEOS FES O Sº / MILAGRE ANNO 1266 FIZERÃO IGR: O LDº MANOEL DOS REIS / TAVARES E SVA MULHER MARGARIDA CEZAR DE ALMEIDA E A DOTARÃO / IAZEM DEBAIXO DO ALTAR DELLA. Junto ao altar de mármores vermelhos, e sob a opulenta cenografia do zimbório piramidal de ousado cromatismo, o túmulo dos fundadores oferece à ermida outra marcante nota visual. O médico era, como se disse, homem culto: escreveu ‘Controversiae Philosophicae, et Nedicae ex- doctrina de febribus’ (Lisboa, 1667) e o tratado de medicina ‘De duobos magnis Artis Medicae auxiliis tractactus duplex’ (Lisboa, 1671), deixando manuscritas a ‘Cirurgia Especulativa’, ‘Psalmos’ (a várias vozes) e uma Ladainha da Virgem. Trata-se de uma daquelas figuras esquecidas de intelectuais de província que abundaram no século XVII e que urge investigar.
Resta destacar, enfim, a importância histórico-artística da Ermida do Milagre, verdadeira jóia micro-arquitectónica da nossa arquitectura da segunda metade do século XVII. Para além do significado local, tem uma evidente, mas esquecida, dimensão nacional que era importante reconhecer.
Formulo votos para que este espaço passe a integrar os roteiros turístico-culturais e religiosos da cidade, sabendo-se do impacto que diariamente tem a peregrinação que envolve a igreja do Santíssimo Milagre com romeiros oriundos de quatro continentes e sabendo-se que, no que respeita ao Santíssimo Milagre, tudo começou mesmo nesta casa da Rua das Esteiras.
BIBL. Inácio da Piedade e Vasconcelos, Historia de Santarem Edificada, Lisboa, 1740, II, pp. 251-253; Francisco Marques de Sousa Viterbo, Dicionário de Architectos, Engenheiros e Constructores Portuguezes (3 tomos, 1899-1922); Gustavo de Matos Sequeira, Inventário Artístico de Portugal, III, 1949; Isabel Mendonça, «Ermida do Milagre», ficha no Inventário do SIPA-Monumentos/ DGPC, 1997; George Kubler, Portuguese plain architecture; between spices and diamonds, 1521-1706, Wesleyan, 1972; Vítor Serrão, Santarém, Lisboa, ed. Presença, 1990; idem, «A construção da igreja de Nossa Senhora da Piedade em 1674», in Correio do Ribatejo de 12 de Julho de 2024; e Teresa Campos Coelho, Os Nunes Tinoco, uma dinastia de arquitectos régios dos séculos XVII e XVIII, Lisboa, 2014.
Agradecimento especial à Arq. Teresa Campos Coelho, a António Monteiro, ao Doutor José Raimundo Noras, a Graça Maria Padinha e ao Dr. Luís Mata pelas informações trocadas e, enfim, ao Prof. Martinho Vicente Rodrigues e ao Engº Fernando Trindade, Juiz do Santíssimo Milagre, e ao senhor Padre Aníbal Vieira, Reitor do Santuário, pela oportunidade da visita.

