A gestão da água exige uma agenda clara e permanente. A seca em Portugal é estrutural e, por isso, temos de ser, cada vez mais, parcimoniosos no uso da água. “Temos de a poupar, em casa”, “de a preservar, nas suas fontes”, “de a usar regradamente” na agricultura, bem como de “a reutilizar para finalidades que não exijam a sua potabilidade”. Quem o diz é Ramiro Matos, presidente da empresa Municipal Águas de Santarém que, em entrevista ao Correio do Ribatejo traça um retrato de um sector que precisa de todos para se manter sustentável.

O País viveu este ano uma situação de seca hidrológica que foi considerada a pior dos últimos 100 anos, com quase todo o país em seca severa ou extrema.

Colectivamente, ganhámos maior consciência da importância deste recurso?

Sem dúvida. Nós temos a grande felicidade de abrirmos a torneira e termos água a qualquer hora do dia, todos os dias do ano. Mas não nos podemos esquecer que, no mundo inteiro, há dois mil milhões de pessoas que não têm acesso a água potável na sua habitação.

Quando não temos a escassez de um bem, acabamos por não o valorizar. O ser humano tem uma tendência de levar a aplicação do princípio económico da lei da oferta e da procura a tudo. Quando não há dificuldade em obter, não é valorizado.

A par disso, a água não é um bem caro – ou não tem sido até aqui – e as pessoas também não a valorizam por isso, não lhe atribuem grande valor.

É claro que são períodos como o actual em que vivemos, com a seca que está à vista de todos – basta olhar para os ribeiros, albufeiras e vemos que efectivamente estamos numa altura de seca – que pensamos: “afinal, isto é a sério”. Mas também podemos correr o risco de as pessoas pensarem que se trata de um episódio conjuntural, e não é. Sabemos que as alterações climatéricas vão levar-nos, sucessivamente, a assistir a fenómenos destes.

E a tendência que existe, ou que pode existir, segundo as pessoas que estudam as condições climatéricas, é que a pluviosidade vai diminuir cada vez mais e nós corremos um risco grave de escassez deste bem que é fundamental para a vida.

Não podemos olhar para isto como uma coisa pontual, temos de encarar isto de frente e ter bem presente que existe uma forte possibilidade de isto voltar a acontecer, e a acontecer todos os anos.

Mas eu acho que estamos num ponto de viragem, em que as pessoas têm que ter consciência de que as alterações climatéricas vão ter um forte impacto na nossa vida. E a água pode vir a escassear.

Relativamente à região, como estamos em termos de reservas e como é que a empresa Águas de Santarém está a perspectivar este desafio?

Não temos – e vamos monitorizando isso com regularidade – e não sentimos, em momento algum, durante este período, falta de água. Porque temos efectivamente aqui lençóis que permitem ter níveis estáveis.

É evidente que esta circunstância não nos permite ter algum, ou qualquer grau de certeza, de que assim continue, sempre desta forma, indefinidamente. É certo

que os lençóis freáticos também estão a baixar. De repente, podemos ter furos ou captações que deixam de ter capacidade de extracção. E teremos que estar preparados para isso naturalmente. E temos de estar preparados para isso, essencialmente, em duas formas, que é o que temos vindo a fazer.

Desde logo, há uma questão essencial num sistema de abastecimento que é a redução das perdas e essa redução tem sido uma realidade na nossa empresa.

No ano de 2021, conseguimos reduzir drasticamente as perdas, e continuamos apostados em continuar a fazê-lo. Estamos, neste momento, a discutir formas de o fazer de uma forma ainda mais eficaz: já foram dados passos, como a detecção via satélite das fugas de água, com aquisição de equipamentos, contratação de prestação de serviços para detecção dessas mesmas fugas de água, entre outras medidas. E essa é a base, quando se fala na gestão da água, que é uma questão, é um desafio do século.

Não podemos exigir comportamentos aos consumidores e não podemos falar em sustentabilidade, ou consumo eficiente, quando nós próprios, entidades gestoras, não apostamos seriamente na redução das perdas. Um passo decisivo que vamos dar para estancar este problema será uma aposta na telemetria, ou seja, a leitura remota dos contadores que nos permitirá, a cada momento, perceber se numa determinada zona estão a existir fugas.

Neste momento, temos o nosso sistema de abastecimento todo dividido por zonas, sendo que o sistema de telemetria permite perceber se a determinado período do dia continua a haver consumo. Se assim é, é porque existe ali, efectivamente, uma perda.

Contamos conseguir reduzir ainda mais as perdas de água e irmos para valores recorde com a implementação da telemetria. Contamos que essa redução de perdas se cifre em cerca de 7 ou 8%, o que é efectivamente um número muito bom, face às médias nacionais.

Em segundo lugar, temos também que pensar o sistema de abastecimento e eventualmente armazenar mais. Por outro lado, vamos iniciar um estudo com algumas parcerias, para reutilização de água tratada, ou semitratada, na nossa ETAR.

Este é um tema que tem que vir para cima da mesa, e as pessoas têm que ter essa consciência. Não só as pessoas têm, em suas casas, que aproveitar a água das chuvas, quando têm essa possibilidade, para regar plantas, por exemplo, mas também as entidades gestoras têm que o fazer, e encontrar usos como regar os jardins municipais para essa água que não está a ser canalizada para consumo. Estamos a desenvolver um projecto desses com o Município de Santarém: vamos fazer a rega dos jardins com a água tratada da ETAR e estamos, em parceria com a Associação dos

Agricultores do Ribatejo a estudar a utilização agrícola da água semi-tratada que cumpre os parâmetros que nos são exigidos e a devolvemos ao meio ambiente com um nível de tratamento muito elevado.

Em suma, diria que temos que actuar proactivamente em diferentes frentes, sendo que a primeira é todos, colectivamente, termos a noção da responsabilidade. Toda a gente pode ajudar e colaborar. Este não pode ser só um problema das entidades gestoras. É um problema da humanidade.

E desengane-se quem pense que não temos que reduzir, efectivamente, o consumo. É preciso dizer com clareza e frontalidade que vamos ter que reduzir o consumo de água. E quando mais cedo o fizermos melhor será. As próximas gerações também têm que ter água e, se neste momento já estamos a ter problemas, só tendem a agudizar-se. Estamos a fazer campanhas diárias nas nossas redes sociais, vamos lançar uma campanha especial no Dia Nacional da Água, num esforço de passarmos a mensagem de que é vital reduzir o consumo. Esta é das soluções que pode ter mais impacto.

A água é um bem essencial e temos que consciencializar as pessoas: vamos ter que fechar a torneia, gastar menos água a lavar os dentes, nos duches, regar menos vezes. Todos temos que ajudar.

Quais as grandes linhas de acção da Águas de Santarém para os próximos tempos? Que investimentos estão previstos?

Este é um sector que tem que ter sempre investimento: temos 562 km2 no Concelho. Temos mais de mil km de condutas, que foram, naturalmente, construídas em momentos diferenciados e que têm que ser substituídas. E todos os anos, regularmente, temos que fazer essa obra. Esse é um dos nossos maiores investimentos.

Em termos de investimentos diferenciados daquele que é o nosso ‘core’, já elenquei a telemetria, que é um investimento grande, de cerca de 2,5 ME. Para implementar só na parte urbana, que é onde temos 60% do consumo e onde podem existir mais problemas, temos alocados 1.3 ME. Vamos também construir a nova ETAR, cujo projecto está a ser finalizado, para lançar o concurso, e estimamos qualquer coisa perto dos 10 ME, sendo que os preços que ainda não estão revistos, face a esta conjuntura que estamos a viver.

E teremos mais investimentos na área organizacional, ao nível das bases de dados, de arquitectura de sistemas e protecção de ataques cibernéticos, entre outros de suporte à actividade que têm que acompanhar o nosso investimento. Estes serão, sem dúvida, nos próximos tempos, os investimentos maiores.

Neste momento, temos outro problema grande, que se prende com o custo da exploração da água. E esse custo subiu drasticamente por força do aumento do custo da energia. Para terem uma noção, o custo da electricidade da Águas de Santarém, vai triplicar.

Tínhamos, já fruto de algumas reduções e renegociação de contrato, reduzido o consumo de energia para 800 mil euros.

Neste momento, e por força do concurso da Comunidade Intermunicipal, o nosso consumo de energia de 2023 está estimado em 2.4 ME. Se isto são muitos factores conjunturais ou não, essa é a nossa dúvida e a nossa incerteza neste ramo porque não sabemos se para o ano vai chover em quantidades razoáveis para repor os níveis freáticos e ninguém sabe o que vai acontecer ao custo de electricidade. Ninguém sabia que ia haver a guerra na Ucrânia. Ninguém sabia que ia haver o Covid-19: há um conjunto de factores imprevisíveis que levam a que não seja fácil gerir estes negócios que estão muito influenciados por essas questões, inclusivamente pelo clima.

Temos muitos factores que influenciam a nossa actividade e sobre os quais não temos qualquer controle. Os custos da exploração da água vão subir fortemente não só pela questão da energia, mas também pela inflação no geral. Inevitavelmente, nos próximos anos, a água vai subir, e não é uma questão das Águas de Santarém, é uma questão mundial. Este preço mais alto, em primeiro lugar, vai ser um factor de valorização pelas pessoas, que geralmente valorizam o que é mais caro. É por isso que lanço o apelo para que as pessoas reduzam o consumo. Isso terá impacto nos nossos números, mas é um impacto positivo.

Decorrente desta conjuntura, estão previstas mexidas nos tarifários?

Sim, isso é inevitável. Inclusivamente a entidade reguladora lançou directivas para este aumento. O custo de electricidade tem um peso de 10% no nosso orçamento anual: é um peso muito significativo e, em bom rigor, temos que transferir o custo, mas se decidirmos transferir a sua totalidade, estamos a falar de aumentos na ordem dos 15%, porque é esse o aumento que este factor de produção tem no orçamento global.

Claro que vamos fazer de tudo para conseguir inverter esta tendência, atenuar este impacto, com poupanças noutras áreas da empresa, com energias renováveis e, por outro lado, através de um estudo de eficiência, em que estamos a verificar como é que podemos, nas nossas captações, nas nossas estações elevatórias, e em todos os nossos equipamentos, poupar através da alteração dos mesmos.

Com a redução de alguns custos internos de fornecimentos e de serviços externos, com o estudo da eficiência e com as energias renováveis, queremos amenizar o impacto que este aumento da electricidade tem na exploração da água e não imputar ao consumidor, nem a totalidade nem a maior parte. Mas, aumentos, todos os anos têm que existir. A entidade reguladora manda que, pelo menos, a água tenha que subir de acordo com a inflação.

Vamos tentar que o aumento não seja muito expressivo. Mas as pessoas têm que ter consciência em termos da utilização deste bem que cada vez é mais escasso.

A factura da água vai aumentar este ano e vai aumentar em todos os próximos por causa da dupla vertente que falei.

A águas de Santarém é a primeira empresa nacional a obter uma certificação alinhada com os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Concretamente, o que significa esta distinção?

Acima de tudo, é um compromisso com os nossos clientes, com os nossos fornecedores, e acaba por ser um compromisso com todos os agentes. Nós entendemos que temos uma responsabilidade acrescida no desenvolvimento sustentável, porque gerimos um recurso que, ele próprio, tem um grande pendor de sustentabilidade, de necessidade de ser gerido de forma muito criteriosa. Entendemos que nós tínhamos essa responsabilidade de poder dar um passo mais à frente. Esse passo foi alinhar a nossa actividade com os ODS e subscrever um grande número deles que se adequam com a nossa actividade. E a que é que isto nos obriga? Obriga a empresa a ser sustentável na maioria das suas áreas de intervenção.

Esta certificação dos objectivos de desenvolvimento sustentável, ou do nosso alinhamento com estes objectivos, significa que nós, antes, já estávamos comprometidos, ou seja, já cumpríamos com esses critérios.

Estamos a transformar a nossa frota totalmente em viaturas eléctricas, estamos a apostar na desmaterialização dos processos e não temos já papel a circular dentro da empresa. Damos condições de saúde e de segurança aos nossos trabalhadores que levou a que, no ano passado, não tivéssemos tido nem um acidente de trabalho.

Damos assistência na saúde aos nossos trabalhadores através de um seguro de saúde de grupo e temos já um conjunto de medidas implementadas e que continuamos a implementar, que vão ao encontro dessa sustentabilidade, numa perspectiva alargada.

Dizer que as pessoas que cá trabalham comprometeram-se com a empresa e quando

estão comprometidas, a sua eficiência, a eficácia do seu trabalho é ela própria sustentável do ponto de vista da protecção do planeta.

Assinalou-se no passado sábado, dia 01 de Outubro, o Dia Nacional da Água. Que mensagem quer deixar a este propósito?

A pretexto do dia nacional da água queria deixar um apelo a todos: temos que poupar água, pois é um bem escasso e temos tido, neste período, sinais que efectivamente podemos vir a ter problemas sérios de falta de água. Para o evitar, cada um de nós pode ser parte da solução.

Temos que praticar, na nossa vida quotidiana, alguns actos que tentem minimizar os problemas da falta de água. Vamos reduzir água nos duches, no lavar dos dentes, nas lavagens de viaturas, vamos todos tentar cumprir com a nossa parte. Se todos nós conseguirmos reduzir o consumo de uma forma pequena, o global é muito grande e isto significa termos água, se calhar, para muitos dias ou para muitas semanas.

O grande desafio é valorizar a água, poupando-a, porque, no futuro, vamos garantidamente ter falta de água, e temos que salvaguardar não só as nossas gerações, mas as que ainda estão para vir.

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