“Aos domingos, sair por aí, à bolina… Feirar de terra em terra. Saborear o desafio do direto integral. Vogar numa paisagem sonora maioritariamente portuguesa…
Todas as semanas… num qualquer lugar ou praça, num qualquer café, clube recreativo ou centro cultural, por alturas de uma qualquer festa ou celebração – ou até sem nenhuma justificação aparente – assentar arraiais, sorver dois dedos de conversa, escutar sons de música popular, pressentir saberes e sabores antigos, beber um copo…
Durante duas horas… percorrer uma terra, descobrir-lhe veredas e pedras antigas, sondar-lhe passados e futuros, ficar na contemplação de uma paisagem ou de uma peça saída das mãos de um artesão.

Durante duas horas… descobrir rostos, histórias, segredos da cozinha velha, músicas…
Um programa de Rui Dias José.”

Naquele domingo, uma miríade de cabos de som saía dos claustros da Casa do Campino, a caminho do carro de som digital, estacionado junto ao portão de serviço, ali bem aconchegado junto ao quartel general dos Serviços Municipais de Higiene e Limpeza. Era um luxo! Foram anos de grande aposta técnica da RDP – Antena 1.

O carro tinha sido adquirido pela Rádio Difusão Portuguesa, para a transmissão dos grandes concertos da Antena 2, mas com todo o cuidado, algumas amizades e muita persuasão, era disponibilizado anualmente para vir a Santarém, para a realização do programa Feira Franca.

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Os técnicos que então acompanhavam o programa, eram equipas de quatro algumas vezes cinco pessoas. A linha telefónica era especial, dedicada a este fim específico e instalada com grande antecedência. As montagens decorriam sempre de véspera e com grande aparato. A qualidade do som era a de um estúdio de gravação.

O tempo que decorria neste processo, permitia a quem vinha, envolver-se no festival e nas suas diferentes facetas. Assimilar a experiência, conhecer os interlocutores. Criar amizades para a vida e entender coisas muito para além dos momentos fugazes de trabalho.

Na véspera tinha tido lugar a preparação: aos chefes de mesa, pedia-se a chamada “mise en place” das mesas compridas que a organização da Feira do Ribatejo, cedia para o efeito e as jovens instruendas dos sucessivos cursos de formação promovidos anualmente para formar pessoas para o serviço do grande salão, sob a batuta dos chefes beira Mar, Saraiva ou Araújo, consoante os anos, vinham com atoalhados e talheres, guardanapos de pano e diferentes copos e logo o aspeto que tudo muda, transformava o encanto da presença;

Aos cozinheiros das tasquinhas, pediam-se contributos (petiscos) para uma mesa de provas e a presença para tudo explicar, a alguns artesãos, objetos, para tocar, ou soar e histórias das suas artes;

A primeira hora, era sempre dedicada a Santarém, aos seus artistas, sobretudo músicos, mas também atores, pintores, bailarinos. A Orquestra Típica Scalabitana, foi sempre um pedido recorrente, mas todas as Bandas Filarmónicas, alunos e professores da então escola de Música e quase todos os Ranchos Folclóricos do concelho ali compareceram. Disso se encarregava o Nelson Ferrão e à hora marcada era vê-los a chegarem, com os seis instrumentos, ou obras de arte, ou ainda à procura de um local para mudar de roupa.

Mas também ponderavam os seus petiscos e os seus vinhos, e os artesãos e os seus artefactos. Mais uma vez trabalho do Nelson Ferrão, quase sempre ajudado pela Margarida Machado, organizando esta panóplia de presenças.

A segunda hora era sempre dedicada à região do dia. Aqui, havia que antecipar ainda mais o planeamento, pois implicava que os cozinheiros estivessem preparados e quase á hora do almoço, a contar com o tempo para a rádio e que os grupos musicais, etnográficos, teatrais ou outros saíssem de suas terras mais cedo para estar em Santarém a tempo de tocar, cantar, representar, atuar para o programa. Também aqui era o Nelson Ferrão o principal responsável, por garantir a necessária produção.
Uma preocupação era permanente: se a Região quiser fazer prova de vinhos, fazemos em direto na rádio… e o som característico dos néctares a cair nos copos fazia suscitar o desejo de estar presente, de participar, porque era ali, no festival, na Casa do campino que tudo estava a acontecer.

Nesta altura, o programa de rádio da Antena 1 era o “Feira Franca”, como antes, com menos meios, tinha sido o “Café Portugal” e antes ainda o ”Passeio das Virtudes”.
O Rui Dias José, terá começado a fazer a cobertura do festival de Gastronomia para a Antena 1 em 1982, ou 1983. Nessa altura, começava pelas oito horas da manhã e entrava por diversas vezes no programa da manhã, que então terminava às dez horas, continuando a falar de Santarém e do Festival com diversas outras intervenções, até cerca das treze horas. Depois vinham os programas da tarde e a função continuava.

Um ano, a pedido do Rogério Vidigal, assegurou simultaneamente crónicas diárias para o Diário de Lisboa. Noutro, colaborou com a “Du Vídeo” na realização de uma série de programas de televisão, para a RTP.

Um dia, quando por razões de decisão superior, o Rui deixou de fazer a cobertura diária do festival ouvi o Carneiro Gomes da Rádio renascença desabafar: – Faz-me falta o Rui! Ele e a sua criatividade impõem, impuseram sempre ao nosso trabalho, uma fasquia muito alta e desafiadora.

Nesta altura, viver o festival, representava claramente uma cruzada de defesa da gastronomia portuguesa, das nossas tradições, saberes e sabores e um sentimento de partilha, de família que se une em prol de um objetivo comum.

E o Rui Dias José, foi muito importante no desenho e na construção e na defesa intransigente dessa realidade.
(continua)

Reflexos – Nuno Domingos

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