Dois sismos de magnitudes 7,2 e 7,5, separados por apenas 39 segundos, atingiram o Norte da Venezuela a 24 de Junho e transformaram bairros inteiros em montanhas de betão, ferro e vidas interrompidas. La Guaira, na faixa costeira a oeste de Caracas, ficou entre as zonas mais devastadas. O balanço oficial mais recente apontava, no início desta semana, para 6125 mortos, quase 18 mil desalojados e dezenas de milhares de pessoas assistidas nos hospitais, enquanto os prejuízos eram estimados em 19,6 mil milhões de dólares. 

João Pitacas teve pouco mais de 24 horas para deixar Portugal e partir para esse cenário. O 2.º comandante sub-regional de Emergência e Protecção Civil do Médio Tejo integrou, como segundo comandante, a força portuguesa mobilizada através do Mecanismo Europeu de Protecção Civil. Durante 14 dias, trabalhou entre edifícios colapsados, calor intenso, serviços essenciais interrompidos e decisões em que cada hora podia separar a vida da morte. A missão respondeu a mais de 30 ocorrências, apoiou a comunidade luso-venezuelana e ficou marcada pelo salvamento de Hernán, um vigilante retirado ao oitavo dia debaixo dos escombros, após 76 horas de trabalho. Ao Correio do Ribatejo, João Pitacas recorda a partida, o primeiro contacto com a destruição, o peso de comandar quem entrava nas estruturas instáveis e as lições que trouxe para a Protecção Civil do Médio Tejo.

João Pitacas teve pouco mais de 24 horas para preparar a partida para a Venezuela. A indicação chegou depois de dois sismos terem atingido o país, deixando edifícios destruídos, serviços de socorro afectados e populações inteiras à espera de ajuda. Portugal mobilizou uma força conjunta para as operações de busca e salvamento e o 2.º comandante sub-regional de Emergência e Protecção Civil do Médio Tejo foi escolhido para assumir as funções de segundo comandante do contingente nacional.

Antes de recordar a partida, nesta conversa com o Correio do Ribatejo, João Pitacas faz questão de deixar uma palavra às populações atingidas. “Gosto sempre de deixar bem presente a solidariedade e as condolências para com o povo da Venezuela e, em especial, uma palavra para a comunidade luso-venezuelana, que é muito representativa naquela zona onde estivemos a trabalhar.”

A comunidade portuguesa e lusodescendente, sublinha, não perdeu apenas familiares e amigos. Muitas pessoas viram também desaparecer as casas, os negócios e a actividade económica em torno da qual tinham construído a vida.

Entre a confirmação da missão e a descolagem, houve cerca de um dia para reunir os operacionais, verificar equipamentos, actualizar documentação e assegurar que todos estavam em condições de partir. João Pitacas distingue, no entanto, a preparação do chamado aprontamento da força.

“A preparação está sempre feita a nível logístico, de aprovisionamento, de material e de apoio. O aprontamento da força só começa depois de ser validado que a missão vai avançar.”

Foi nesse período que se realizaram o aprontamento sanitário, a confirmação das vacinas e a verificação de toda a documentação necessária para entrar e trabalhar noutro país. A urgência não eliminava os procedimentos administrativos e de segurança.

“Há toda uma parte burocrática que tem de ser cumprida, independentemente de estarmos perante uma situação de emergência. Há procedimentos que não podem ser ultrapassados, porque vamos trabalhar para outro país.”

A rapidez da resposta só foi possível porque os meios e os operacionais estavam preparados antes de surgir a emergência. A formação, os exercícios nacionais e internacionais e a experiência acumulada permitiram reduzir ao mínimo o tempo entre a decisão política e a partida.

A escolha implicava também um reconhecimento da preparação adquirida no âmbito do Mecanismo Europeu de Protecção Civil. João Pitacas e o comandante da força tinham formação específica para missões internacionais e sabiam que, durante as semanas seguintes, representariam Portugal num dos cenários mais exigentes das respectivas carreiras.

“Entendemos sempre esta indicação como um reconhecimento e um voto de confiança da estrutura. É uma enorme responsabilidade representar Portugal fora do país numa situação tão delicada.”

Mesmo com a preparação técnica e operacional, a confirmação da partida desencadeou as perguntas inevitáveis. “Começamos logo a fazer vários cenários na cabeça: o que é que vamos encontrar, como é que vamos encontrar e o que é que podemos fazer.”

As respostas só surgiriam no terreno. A formação, os exercícios e as missões anteriores eram ferramentas indispensáveis, mas não eliminavam a imprevisibilidade. “Por muito preparados que estejamos, cada caso é um caso e cada cenário é um cenário. Depois há toda uma percepção no local que nenhum exercício consegue reproduzir.”

A força partiu com autonomia logística para assegurar alimentação, energia, alojamento, equipamentos e ferramentas de intervenção. Tudo teria de funcionar num território profundamente afectado, onde não existia a garantia de encontrar disponíveis os recursos mais básicos.

Quando entrou no avião, João Pitacas levava consigo o peso da função e a incerteza do que o esperava. Levava também a consciência de que, a partir daquele momento, a segurança dos operacionais e a capacidade de resposta da força portuguesa passavam a depender das decisões tomadas pelo comando.

Da pista do aeroporto para o centro da destruição

A viagem até à Venezuela prolongou-se por cerca de 17 horas, a bordo de aviões da Força Aérea Portuguesa. Quando a força chegou ao país, o aeroporto encontrava-se ainda operacional, apesar de estar inserido na própria zona afectada pelos sismos.

Para João Pitacas, essa circunstância foi determinante. “Encontrámos um aeroporto minimamente funcional e isso foi logo um passo muito importante, porque permitiu-nos entrar directamente na zona de impacto.”

A alternativa passaria por aterrar a cerca de cem quilómetros, com consequências imediatas na montagem da operação. Cada hora contava. A possibilidade de encontrar sobreviventes diminuía à medida que o tempo avançava.

“Estávamos sempre a trabalhar contra o relógio. A perspectiva de encontrar alguém com vida diminui de hora para hora e de dia para dia.”

À chegada, a força portuguesa contou com o apoio da Embaixada e do consulado de Portugal em Caracas, que já tinham iniciado contactos para assegurar transporte e apoio local. Era necessário deslocar os operacionais, mas também equipamentos pesados, material de busca e salvamento e todos os meios indispensáveis à autonomia da missão.

João Pitacas destaca o acompanhamento diplomático desde o primeiro momento. “Tivemos um suporte político, diplomático e de contactos locais excepcional. Quando chegámos, já tinham sido feitos contactos para garantir o transporte do aeroporto até à base de operações e também para as deslocações entre missões.”

Durante os primeiros minutos, o aeroporto ofereceu ainda uma aparência de normalidade. Mas essa percepção terminou à saída.

“Sentimos que estávamos a abandonar um local seguro.”

Nas ruas, a realidade era outra. Os serviços de socorro e assistência tinham sido também atingidos. Quartéis de bombeiros, unidades de saúde e hospitais enfrentavam limitações, enquanto a população se organizava com os meios disponíveis.

“Vimos a comunidade a reagir dentro da velocidade possível e com os recursos que tinha. Ficou bem patente aquela ideia de que, quando temos um problema, é o vizinho que nos socorre primeiro.”

Muitas pessoas permaneciam em espaços abertos, em pequenas tendas ou sob coberturas improvisadas. Mesmo os edifícios que não tinham ruído deixavam de ser encarados como locais seguros.

“As pessoas não se sentiam protegidas dentro das casas ou dos edifícios que ainda estavam de pé.”

À medida que a coluna portuguesa avançava em direcção ao local onde seria instalada a base de operações, a extensão da destruição tornou-se mais evidente. A zona atingida tinha uma forte componente turística, com hotéis, resorts e edifícios construídos em altura.

“Podemos fazer uma analogia com o Algarve. Era uma zona muito turística, com hotéis e empreendimentos em altura, muito padronizados.”

Grande parte dessas construções tinha colapsado. Não estavam apenas inclinadas ou parcialmente danificadas. Tinham cedido verticalmente, com os pisos sobrepostos uns aos outros.

“Quando digo que estavam no chão, não estavam tombados. Tinham caído naquele efeito panqueca”, descreve.

A força portuguesa chegou num sábado, instalou a base de operações em La Guaira e iniciou de imediato a organização dos meios. Não houve tempo para uma adaptação gradual ao cenário.

“Rapidamente percebemos que tínhamos de estabelecer a base e começar a trabalhar.”

Na madrugada de sábado para domingo, a primeira equipa portuguesa já se encontrava no terreno, nos locais indicados pelas estruturas venezuelanas de comando e coordenação. A partir desse momento, a missão deixou de ser preparação, planeamento ou projecção. Passou a ser intervenção directa entre edifícios colapsados, populações desalojadas e serviços essenciais interrompidos.

 

Oito horas de cada vez, entre calor, humidade e escombros

As condições de trabalho agravavam a exigência técnica da operação. As temperaturas rondavam os 34 graus e a humidade era muito elevada. Muitos dos trabalhos decorriam em pisos subterrâneos, espaços confinados e zonas sem circulação de ar ou luz natural.

“Todos estes factores eram desfavoráveis à operação”, resume João Pitacas.

A força foi dividida em duas equipas mistas, com elementos da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil, do INEM, do Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa e da Guarda Nacional Republicana. Não havia grupos separados por entidade. Cada equipa reunia diferentes competências e valências técnicas.

“Não havia uma equipa da entidade A ou da entidade B. Eram equipas mistas, em termos de entidades e também de competências.”

O trabalho foi organizado em turnos de oito horas. A proximidade entre a base de operações e os locais de intervenção permitia substituir os operacionais sem interromper os trabalhos.

“Estávamos a quatro ou cinco quilómetros dos locais onde íamos trabalhar. Isso permitia fazer rapidamente a rendição das equipas, sem impacto na operação.”

Quando um turno terminava, os operacionais regressavam à base. Tomavam banho, alimentavam-se, descansavam durante seis ou sete horas e voltavam ao terreno. A gestão do esforço era uma condição de segurança.

“Uma hora de trabalho em condições normais não é igual a uma hora de trabalho naquele cenário.”

O desgaste não resultava apenas do calor e da humidade. Os operacionais entravam em estruturas instáveis, trabalhavam sob toneladas de betão e permaneciam durante horas em espaços apertados, muitas vezes abaixo do nível do solo.

“Não é um ambiente natural. O ser humano não trabalha normalmente no subsolo, sem circulação de ar e sem iluminação natural.”

As oito horas de cada turno eram, por isso, particularmente pesadas. A componente física juntava-se à pressão de procurar vítimas num cenário onde cada decisão podia ter consequências para quem estava soterrado e para quem trabalhava no resgate.

“Os nossos operacionais são pessoas como todas as outras. Têm experiência técnica e operacional, mas estas missões trazem sempre uma grande carga emocional e uma grande pressão para atingirmos rapidamente o objectivo, que é salvar alguém.”

A possibilidade de manter contacto com as famílias ajudou a reduzir essa pressão. Ao fim de cada turno, os elementos da força conseguiam falar com os filhos, os companheiros e os familiares em Portugal.

“Quando os operacionais conseguem tomar banho, comer uma refeição e falar com a família, metade do problema está resolvido.”

Para o comando, esse contacto representava também um factor de estabilidade. João Pitacas recorda que, há duas décadas, manter esta ligação regular durante uma missão internacional seria muito mais difícil.

“Hoje, com relativa facilidade, qualquer operacional consegue contactar a família. Isso dá-nos conforto, porque as pessoas continuam a acompanhar o que se passa em casa.”

A força integrava ainda um psicólogo do INEM, presente nos momentos de trabalho, descanso, alimentação e convívio. A sua função não se limitava a responder a pedidos formais de ajuda.

“Era um operacional sempre presente, treinado para ver, ouvir e reconhecer sinais.”

João Pitacas considera hoje essa presença indispensável em missões desta natureza. Nem sempre quem enfrenta uma situação de grande pressão reconhece ou verbaliza a necessidade de apoio. Cabe também ao psicólogo perceber alterações de comportamento e intervir antes de o desgaste comprometer o operacional ou a equipa.

“Muitas vezes, a intervenção não é solicitada voluntariamente. Ter ali um psicólogo foi também uma ferramenta de gestão das pessoas e da componente comportamental.”

Ao comando cabia, assim, garantir que a força continuava capaz de trabalhar. A prioridade não era apenas chegar às vítimas. Era assegurar que os homens e mulheres enviados para as procurar podiam entrar nos escombros e regressar em segurança.

Uma vida sinalizada no piso menos dois

O pedido chegou através de moradores. Uma das equipas portuguesas deslocava-se entre missões quando foi abordada por pessoas que garantiam existir alguém com vida debaixo dos escombros de um centro comercial.

Não era uma informação inédita naquele cenário. Ao longo dos dias, muitas equipas receberam indicações semelhantes, quase sempre ditadas pelo desespero de familiares e vizinhos. Nem todas se confirmavam.

“Infelizmente, em muitas ocasiões, essa informação não era verdadeira. As pessoas, naquela ânsia, pediam a qualquer equipa que passasse para ir verificar.” Desta vez, a equipa decidiu entrar.

A vítima encontrava-se no piso menos dois do estacionamento. Sobre a estrutura tinham colapsado oito pisos de um edifício contíguo.

“Logo aí se percebe a complexidade do cenário. Estávamos a trabalhar no piso menos dois, com oito pisos desmoronados em cima.”

Cada uma das duas equipas portuguesas tinha três cães da Guarda Nacional Republicana. Os animais entraram no local e marcaram imediatamente a presença de uma pessoa viva.

“Os cães que levámos têm uma particularidade: só marcam pessoas vivas. Não marcam mortos.”

Num cenário onde havia já muitos cadáveres soterrados, essa capacidade era decisiva. Cães treinados para localizar vivos e mortos podiam perder assertividade à medida que o cheiro se tornava mais intenso e generalizado.

“Estes cães davam-nos uma segurança muito grande. Sabíamos que não estávamos a seguir uma pista sem fundamento.”

A marcação foi depois confirmada através de equipamento sonar. Havia, de facto, alguém vivo debaixo dos escombros.

A equipa comunicou o sinal ao comando português. Na plataforma internacional de coordenação, porém, o local surgia já como avaliado por outras equipas. O registo era claro: vítima viva, mas resgate inviável.

“Já lá tinham estado, se não quatro equipas, perto disso. Confirmavam uma vítima viva, mas diziam que era impossível retirá-la.”

Os operacionais portugueses fizeram a sua própria avaliação.

“Os nossos operacionais são portugueses. Também são um bocado teimosos, no bom sentido.”

A decisão não foi tomada por impulso. O comando reuniu os responsáveis das entidades que integravam a força, avaliou a estabilidade da estrutura, os meios disponíveis e o risco para os operacionais.

“Tomámos consciência do risco. Há sempre um risco inerente a uma operação destas. Mas também não ficaríamos bem connosco se abandonássemos um local onde sabíamos que alguém ia morrer.”

A vítima ainda não tinha rosto, nome ou história para os portugueses. Mesmo assim, formou-se desde o início uma ligação.

“Houve logo ali um grande afecto por uma pessoa que não conhecíamos. Pensámos: já aqui estiveram quatro equipas e estão a declarar a morte desta pessoa. Isto não pode ser.”

Os trabalhos começaram.

A remoção dos escombros foi feita quase exclusivamente à força de braços e com ferramentas manuais. Era necessário retirar entulho, cortar elementos estruturais e abrir caminho entre vigas, pilares e lajes, sem provocar novos movimentos na estrutura.

“Era tudo feito de forma braçal. Estávamos a falar de entulho, mas também de partes estruturantes do edifício.”

Quando a presença portuguesa foi registada na plataforma, algumas das equipas internacionais que já tinham passado pelo local regressaram.

“Perguntaram-nos: vocês vão trabalhar aqui? Respondemos: não vamos, já estamos a trabalhar.”

Ao princípio, a decisão causou surpresa. Depois, as outras equipas juntaram-se à operação.

O que começou com 18 operacionais cresceu rapidamente. Foram chegando homens, viaturas, ferramentas e equipamentos de vários países. A rua foi cortada e a entrada do centro comercial transformou-se numa base avançada de resgate.

“Chegámos a ter cem operacionais a trabalhar por turno.”

A cooperação tornou possível manter a operação durante 76 horas. As equipas revezavam-se nos trabalhos, partilhavam equipamentos e adaptavam a estratégia à progressão dentro da estrutura.

“Se fosse apenas a nossa equipa, demoraria muito mais. Nem sequer tínhamos todo o equipamento necessário, porque também havia limitações no que podíamos transportar.”

Cerca de um dia e meio depois do início dos trabalhos, os portugueses conseguiram estabelecer contacto verbal com a vítima. Ainda não havia contacto visual nem físico.

Quando um dos socorristas lhe disse que a equipa era portuguesa, o homem respondeu com uma referência a Cristiano Ronaldo.

“Percebemos logo que a vítima era viável. Estava lúcida e ainda tinha capacidade para responder em tom de brincadeira.”

Para os operacionais que trabalhavam no interior do estacionamento, aquela frase confirmou que o esforço tinha sentido.

“Foi uma carga motivadora. Perceberam que estavam a fazer o trabalho certo.”

O homem chamava-se Hernán. Era vigilante do centro comercial e tinha ficado preso dentro de uma pequena cabine junto a um pilar estrutural. O espaço que resistira ao colapso era pouco maior do que a cadeira onde se encontrava sentado.

“Teve sorte no meio do azar. Estava no sítio certo à hora errada.”

A operação, porém, ainda estava longe do fim.

A decisão mais difícil

O avanço até Hernán não foi contínuo. A dada altura, a estrutura deixou de oferecer condições para prosseguir pela via inicialmente escolhida. O risco aumentava não apenas para a vítima, mas também para os operacionais que trabalhavam no interior do estacionamento.

Foi necessário parar e reavaliar toda a estratégia.

“Houve um momento em que ficou comprometida a segurança da equipa e da própria vítima. Tivemos de reconhecer que não podíamos continuar naquela direcção.”

Para João Pitacas, esta foi a decisão mais difícil de toda a operação.

“Foi mais difícil tomar esta decisão do que decidir começar a trabalhar naquele sítio.”

Prosseguir podia significar perder Hernán e colocar em risco os elementos envolvidos no resgate. A vontade de chegar à vítima não podia sobrepor-se à avaliação técnica.

“Era impossível assumirmos que podíamos continuar naquela direcção. Corríamos o risco de perder a vítima e perder a equipa, e isso era o que ninguém queria.”

A mudança obrigou a recuar e a abrir um novo acesso. O reajustamento acrescentou cerca de 24 horas aos trabalhos.

Numa operação em que cada hora diminuía a possibilidade de sobrevivência, o atraso pesava sobre todos. Mas não havia alternativa.

“Foi preciso fazer um caminho diferente para chegar fisicamente ao Hernán.”

A progressão continuou entre elementos estruturais, escombros e passagens de reduzidas dimensões. Só mais tarde foi possível estabelecer o primeiro contacto físico com a vítima, ainda através de uma abertura muito limitada.

A partir desse momento, as equipas médicas do INEM e de outros contingentes internacionais conseguiram avaliar o estado de Hernán. Foram-lhe administrados líquidos, alimentação e medicação para evitar a degradação da sua condição clínica.

“Conseguimos começar a aportar comida, bebida e medicação para repor alguns níveis e garantir que, a partir daquele momento, o estado de saúde estabilizava.”

Hernán permanecia consciente. Não estava esmagado nem tinha qualquer membro encarcerado, mas continuava preso num espaço exíguo, cercado por toneladas de destroços.

“Ele já tinha dito que não tinha nenhuma parte do corpo comprometida. A partir daí, foi gerir a emoção e a tensão até ao fim.”

A operação avançou lentamente, sem margem para movimentos bruscos.

“Era pedra a pedra, balde a balde, pá a pá.”

O homem tinha sobrevivido dentro da cabine onde exercia funções de vigilante. A proximidade de um pilar estrutural criou uma pequena bolsa que resistiu ao colapso.

“O espaço era pouco maior do que a cadeira onde ele estava sentado.”

O sismo ocorrera numa quarta-feira. Hernán foi retirado na quinta-feira seguinte, ao oitavo dia debaixo dos escombros e depois de 76 horas de trabalhos conduzidos a partir da chegada da equipa portuguesa ao local.

A saída foi acompanhada por uma descarga de emoção entre os operacionais, mas o momento durou pouco.

“Rapidamente foi atribuída uma nova missão à equipa. O Hernán estava cá fora, já não havia mais vítimas com vida naquele local e havia outras pessoas a precisar de ajuda.”

Para João Pitacas, o resgate tornou-se “a missão dentro da missão”. Foi o episódio com maior projecção pública, mas esteve longe de representar todo o trabalho desenvolvido pelos portugueses na Venezuela.

Muito para além de Hernán

O resgate de Hernán concentrou as atenções, mas a força portuguesa respondeu a mais de 30 ocorrências durante os 14 dias de missão. Parte desse trabalho ficou longe das câmaras e não chegou ao conhecimento público com a mesma intensidade.

“Houve muito trabalho que ficou documentado, mas que não foi dado a conhecer”, sublinha João Pitacas.

A presença portuguesa na região foi também acompanhada de perto pela Embaixada e pelo consulado, que mantinham contacto directo com a comunidade luso-venezuelana. Muitas das solicitações chegavam através desses canais.

“A Embaixada estava muito próxima de nós, com o próprio embaixador no terreno. Ia muitas vezes connosco e falava directamente com a comunidade portuguesa.”

Alguns pedidos estavam ligados à procura de familiares desaparecidos. Outros prendiam-se com repatriamentos, apoio local ou identificação de pessoas que podiam estar sob os escombros.

As equipas cinotécnicas da Guarda Nacional Republicana tornaram-se particularmente solicitadas. Como os cães estavam treinados para assinalar apenas pessoas vivas, eram chamados a confirmar sinais detectados por outros meios ou por outras equipas.

“Com o passar do tempo e com a presença de muitos cadáveres debaixo dos escombros, os nossos cães eram chamados para validar marcações que já não tinham grande fiabilidade.”

A força portuguesa apoiou ainda outros contingentes com equipamentos, meios humanos e aconselhamento técnico.

“As equipas têm sempre limitações. Umas de material, outras de pessoal, outras de um equipamento específico. Também fizemos esse apoio.”

Dois engenheiros civis integravam o contingente e participaram na avaliação de edifícios afectados. O trabalho incidiu sobre hospitais, escolas, unidades de saúde e outras estruturas que podiam vir a ser reutilizadas.

“Fizeram a validação de muitos edifícios que ainda não tinham sido tecnicamente avaliados.”

A prioridade era perceber se esses espaços podiam retomar actividade ou servir de apoio a outras respostas. Num território onde os próprios serviços locais tinham sido atingidos, essa avaliação era essencial.

A base portuguesa foi instalada num centro luso-venezuelano, uma instituição de convívio e apoio à comunidade portuguesa. A partir daí, começaram também a chegar pessoas que precisavam de assistência médica.

“Algumas eram vítimas directas do sismo. Outras não tinham sido atingidas fisicamente, mas ficaram privadas dos cuidados de que necessitavam.”

“São coisas que nós damos por adquiridas, porque fazem parte da nossa rotina. Ali, se essas necessidades não fossem resolvidas, essas pessoas acabariam por se tornar vítimas do sismo de forma indirecta”, assinala.

A missão passou, por isso, muito para além das operações de busca e salvamento. Incluiu apoio médico, avaliação estrutural, assistência à população e articulação com as autoridades diplomáticas portuguesas.

Nada desse esforço devolvia a realidade anterior ao sismo. Mas cada intervenção podia reduzir o impacto sobre quem tinha perdido familiares, casa, rendimento ou acesso aos cuidados mais básicos.

“Não fica tudo igual. Mas tudo o que pudermos fazer para agilizar esses processos também faz parte da missão.”

Uma vida ligada aos bombeiros

A missão na Venezuela não começou com o telefonema que confirmou a partida. Para João Pitacas, começou muitos anos antes, quando entrou para os Bombeiros Voluntários do Entroncamento, aos 14 anos, seguindo uma ligação familiar ao voluntariado e ao socorro.

“Já era uma questão familiar.”

Era 1997 e o contexto era diferente. Os jovens que entravam para os corpos de bombeiros começavam, desde cedo, a acompanhar a actividade operacional. Hoje, lembra, a lei e a própria evolução do sistema já não permitem o mesmo percurso.

“Quando entrei, com 14 anos, podíamos começar logo a integrar equipas em contexto operacional. Hoje isso já não é possível.”

João Pitacas evita estabelecer comparações simplistas entre épocas. Sublinha apenas que a sociedade, as prioridades e a forma como os jovens crescem também mudaram.

“Uma criança com 14 anos hoje não é igual a um adolescente com 14 anos há 30 anos. A cultura, a sociedade e as prioridades são diferentes.”

Foram 25 anos no quartel do Entroncamento, marcados por centenas de ocorrências. Incêndios, desencarceramentos, acidentes, operações de socorro e incêndios urbanos construíram a experiência que mais tarde levaria para a estrutura da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil.

“Fiz centenas, milhares de missões. Levava comigo uma mochila cheia de experiências.”

Nenhuma dessas ocorrências, admite, era comparável à dimensão do que encontrou na Venezuela. Ainda assim, todas lhe deram ferramentas para interpretar cenários, avaliar riscos e trabalhar sob pressão.

“Todas ajudaram, mas nenhuma era cem por cento igual a esta.”

O mesmo se aplicava aos restantes elementos do contingente. João Pitacas sublinha que os operacionais escolhidos para uma missão internacional desta natureza transportavam percursos longos de formação, exercícios e intervenção no terreno.

“Quem integra uma força destas tem uma vida, ou grande parte da vida, dedicada a esta área.”

A experiência na Venezuela deixou marcas em todos. Algumas positivas, outras mais difíceis de processar. Mas João Pitacas acredita que nenhum dos operacionais hesitaria em regressar a uma missão semelhante.

“Não tenho dúvidas de que todos se apresentariam outra vez.”

O exercício actual de funções na Protecção Civil não quebrou a ligação aos bombeiros. Pelo contrário, o contacto permanece diário, tanto ao nível operacional como institucional.

“Nunca nos desligamos dos bombeiros por estarmos nestas funções.”

Para João Pitacas, os corpos de bombeiros continuam a ser o agente de protecção civil com maior presença e pressão operacional no território nacional.

“São o agente com mais pressão no nosso país e com uma abrangência total do território.”

Foi nesse percurso, iniciado no Entroncamento ainda na adolescência, que adquiriu parte das ferramentas que lhe permitiram assumir o comando no estrangeiro.

“Sem os bombeiros, não teria a experiência necessária para integrar esta missão.”

O que a Venezuela pode ensinar à região

A missão terminou na Venezuela, mas parte do que foi aprendido regressou com os operacionais. João Pitacas considera que cada intervenção desta natureza acrescenta informação, experiência e capacidade de resposta, sobretudo porque há sempre diferenças entre aquilo que é treinado em exercício e o que acontece numa situação real.

“Há situações que são testadas em contexto de exercício e que, depois, numa ocorrência real, têm de ser reajustadas ou redefinidas.”

No final de cada missão, é elaborado um relatório com as principais conclusões e as oportunidades de melhoria. João Pitacas prefere esta expressão à identificação de falhas.

“Não gosto de falar em pontos negativos. Numa missão destas, o negativo é perder alguém. Tudo o resto são aprendizagens e oportunidades de melhoria.”

Esses ensinamentos são depois vertidos na instrução, no treino e na articulação entre entidades. No caso do Médio Tejo, a experiência reforçou uma convicção que João Pitacas já tinha.

“Cada vez tenho mais a certeza de que um dia de prevenção, um dia de antecipação, é um dia ganho.”

A prevenção passa pela sensibilização da população, pela formação dos operacionais e pela preparação dos serviços. Passa também pelo investimento em equipamentos capazes de assegurar uma resposta mínima quando falham as infra-estruturas habituais.

João Pitacas aponta como exemplo a aquisição de tendas modulares pela Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo e pelos municípios. Estas estruturas podem ser agregadas e criar uma área de apoio à população com capacidade para cerca de 120 pessoas, incluindo sanitários, cozinha, alojamento e espaços para refeições.

“Há um despertar de consciência entre os decisores políticos do Médio Tejo para esta temática.”

Refere ainda o investimento em veículos, geradores e equipamentos especializados, entre os quais um módulo de busca e salvamento em estruturas colapsadas.

“Alguns destes meios estão directamente ligados a necessidades que encontrámos na Venezuela.”

Para João Pitacas, a região está hoje mais preparada do que estava há um ano. Mas esse trabalho nunca pode ser considerado concluído.

“Estamos mais bem preparados do que ontem, mas este é um caminho que nunca acaba.”

Os riscos mudam, tal como mudam as populações, os territórios e os hábitos. A experiência venezuelana mostrou, por exemplo, a vulnerabilidade acrescida de uma zona turística, onde muitas pessoas se encontravam fora do seu ambiente habitual.

“Quem está de férias está num contexto de relaxamento e descomprometimento. Não conhece o edifício, não conhece o território, não conhece os apoios imediatos.”

Numa emergência, essa distância em relação ao espaço e às rotinas pode agravar o risco. A preparação da população torna-se, por isso, tão importante como os meios de socorro.

“A informação, a sensibilização e a formação, em conjunto com a capacidade de resposta, podem fazer a diferença.”

Para João Pitacas, a principal aprendizagem não está apenas na tecnologia, nos equipamentos ou nos procedimentos. Está na capacidade de antecipar o que pode falhar e preparar respostas antes de a emergência acontecer.

“Claro que sim. A resposta é fácil”

A missão terminou com o regresso da força portuguesa, mas não com o fim das marcas deixadas por duas semanas de trabalho num cenário de destruição.

João Pitacas fala da experiência sem dramatização. Reconhece o peso emocional, o desgaste e as decisões difíceis, mas sublinha sobretudo aquilo que a missão acrescentou em termos de preparação, capacidade e sentido de responsabilidade.

“Por muito difícil que tenha sido, é muito honroso regressar com o sentimento de missão cumprida, com mais ensinamentos, mais experiência e mais capacidades.”

A resposta chega sem hesitação quando lhe é perguntado se voltaria a partir no dia seguinte para uma operação semelhante.

“Claro que sim. A resposta é fácil.”

É a mesma disponibilidade que, quase três décadas antes, o levou a entrar para os Bombeiros Voluntários do Entroncamento. Mudaram as funções, aumentaram as responsabilidades e alargou-se a escala das missões, mas o princípio permanece o mesmo: estar preparado para partir quando alguém precisa de ajuda.

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