A Feira Nacional de Agricultura / Feira do Ribatejo regressa ao CNEMA, em Santarém, até 14 de Junho, com os pequenos frutos como tema central, naves cheias e expositores recusados por falta de espaço. Para Luís Mira, administrador do CNEMA e secretário-geral da CAP, este sinal mostra a vitalidade do certame e a capacidade de resistência da agricultura portuguesa, mas não esconde os problemas que o sector enfrenta.

Nesta entrevista ao Correio do Ribatejo, Luís Mira fala da raiz ribatejana da feira, da sua dimensão nacional, da ligação à FERSANT e da importância de juntar toda a fileira no mesmo espaço. Mas alarga o olhar ao estado da agricultura portuguesa, criticando a resposta do Governo ao aumento dos combustíveis e fertilizantes, os apoios insuficientes aos prejuízos causados pelas tempestades, a lentidão da Política Agrícola Comum, a falta de execução dos planos para a água e os bloqueios que dificultam a renovação geracional.

“A agricultura portuguesa está forte e pujante”, afirma, mas avisa que os agricultores estão a produzir num contexto de custos elevados, concorrência desigual e falta de respostas públicas. Sobre a guerra no Irão, é claro: “A natureza não espera nem pela guerra, nem pelas decisões do Governo.” E, olhando para a próxima década, não tem dúvidas de que o futuro passará por uma agricultura “mais tecnológica, mais evoluída e mais exportadora”, desde que o país execute aquilo que promete.

 

A FNA 26 apresenta-se com as naves cheias e, como referiu na conferência de imprensa de apresentação, houve mesmo expositores recusados por falta de espaço. Este sinal de vitalidade da feira corresponde, na sua leitura, a uma agricultura portuguesa forte e pujante, ou a um sector que, apesar dessa dinâmica, continua muito pressionado?

A agricultura portuguesa está forte e pujante, apesar dos problemas que tem enfrentado nos últimos tempos. Não falamos apenas das tempestades, que causaram prejuízos significativos, mas também do agravamento dos factores de produção, como o gasóleo e os fertilizantes, que são muito complicados para as explorações.

Às vezes, quando há mais dificuldades, é que as empresas sentem maior necessidade de estar presentes, de procurar soluções, de fazer contactos e de encontrar formas de equilibrar essas dificuldades. Não sei se foi exactamente isso que aconteceu este ano, mas o que é facto é que as naves estão cheias. Não há mais espaço disponível no interior e tivemos mesmo de recusar algumas solicitações de expositores. No exterior, ainda temos espaço, naturalmente, porque a área é muito grande, mas dentro das naves já não era possível acolher mais pedidos.

Essa realidade começa também a colocar no horizonte a possibilidade de expansão. Não faz sentido que, quando existe procura, e quando essa procura justifica a presença de mais expositores, o CNEMA não consiga dar resposta. O recinto foi pensado para poder ter mais naves, mas essa necessidade ainda nunca se tinha colocado de forma tão evidente. Vamos continuar a explorar ao máximo a capacidade existente, tentando também levar mais produtores para a rua, porque qualquer investimento desta natureza tem custos elevados. Mas, sim, essa hipótese começa a ter de ser equacionada.

 

A Feira Nacional de Agricultura continua a ser a grande montra do sector, mas é também a Feira do Ribatejo. Que equilíbrio deve existir entre a dimensão nacional do certame e a sua raiz ribatejana, feita de agricultura, pecuária, campinos, toiros, cavalos, gastronomia e identidade territorial?

A primeira dimensão da feira é a Feira do Ribatejo, porque ela se realiza no Ribatejo e tem exactamente essas características: os campinos, o cavalo, o toiro, a pecuária, a gastronomia, toda esta envolvente da agricultura ribatejana. Essa é a sua génese.

Depois, a feira é nacional porque ganhou essa dimensão há muitas décadas. Tem expositores de todo o país e há gerações de agricultores e famílias que mantêm a tradição de vir a Santarém, em particular no dia 10 de Junho. Essa ligação prolongou-se no tempo e deu à feira uma projecção que ultrapassa claramente a região.

Esta compatibilização também tem uma explicação histórica. Santarém e o Ribatejo foram, durante muito tempo, uma das zonas com maior capacidade de produção agrícola do país. As coisas alteraram-se, naturalmente. Hoje, por exemplo, o Alqueva tem uma capacidade produtiva muito significativa e foi uma das grandes evoluções da agricultura portuguesa. Mas o Ribatejo continua a ser o Ribatejo. Estão aqui alguns dos terrenos com maior capacidade produtiva do país, e continua a existir uma agricultura pujante, com grande capacidade nos cereais, nas hortícolas, no vinho e nos cavalos.

O cavalo é, aliás, um dos grandes centros de interesse desta feira, através das inúmeras actividades que realizamos. Mas, de uma forma ou de outra, todos os sectores estão aqui representados.

Este ano, por exemplo, o tema da feira são os pequenos frutos. Também existem no Ribatejo, mas não só. Há outras zonas do país com maior apetência e capacidade produtiva para esta fileira. É precisamente aí que está o equilíbrio: mostramos aquilo que se faz no Ribatejo, valorizamos a cultura e as tradições ribatejanas, apoiamos, investimos e acarinhamos essa raiz, mas sem perder a dimensão nacional do certame. Nunca negamos a nossa raiz ribatejana, mas isso não nos impede de afirmar a Feira Nacional de Agricultura como uma feira de todo o país.

 

A FERSANT decorre em paralelo com a FNA. Num tempo em que tanto se fala de competitividade, inovação e escala, a feira empresarial continua a ser complementar da agricultura ou deveria ser pensada de forma ainda mais integrada com o agro-alimentar, a indústria, a logística e a exportação? Este formato continua a fazer sentido?

Faz sentido precisamente por causa da escala do país. As pessoas que vêm do estrangeiro, nomeadamente espanhóis e italianos, ficam muitas vezes surpreendidas com a capacidade que temos de concentrar, numa só feira, praticamente toda a cadeia. Conseguimos ter pecuária, equipamentos, maquinaria, campos de cultivo, empresas de serviços, produto acabado, seminários e debates. Isso é uma característica muito própria desta feira.

Se fizéssemos uma feira apenas com uma dessas componentes, provavelmente não teria a mesma força. Já houve experiências nesse sentido, por exemplo na área alimentar, mas não ganharam a mesma capacidade. Portugal é um país pequeno e, por isso, a escala que encontrámos foi juntar quase todas as partes da cadeia.

É também muito interessante ver a presença das grandes insígnias da distribuição, que estão cada vez mais activas e com maior interesse na feira. Isso demonstra a preocupação de termos aqui a fileira representada e de mostrarmos a ligação que tem de existir entre os vários elos da cadeia. Muitas vezes há interesses diferentes, por vezes até opostos, mas o trabalho tem de ser conjunto.

A agricultura não termina na produção. Precisa da indústria, da transformação, da logística, dos serviços, da distribuição e do contacto com o consumidor. A FNA, com a FERSANT e com todas estas componentes, permite mostrar esse percurso de forma integrada. Essa é uma das razões pelas quais o modelo continua a ser relevante.

 

Este ano, os pequenos frutos são o tema central da feira. Falamos de uma fileira com valor económico, vocação exportadora e ligação a novos hábitos de consumo. Que lições é que este sector dá à agricultura portuguesa em matéria de especialização, tecnologia, organização e acesso aos mercados?

É um exemplo de sucesso em Portugal. A fileira das frutas, hortícolas e flores fechou o ano de 2025 com mais de 2.600 milhões de euros de exportação. Há pouco mais de uma década estava nos 700 milhões. Isto demonstra bem a enorme capacidade de crescimento que esta área teve e continua a ter em matéria de exportação.

É verdade que algumas regiões do país têm condições óptimas para o desenvolvimento dos pequenos frutos, mas também é verdade que, durante muito tempo, não lhes foram dadas condições favoráveis nem prioridades. Em alguns casos, foram até empresas estrangeiras que perceberam antes dos portugueses o potencial existente e mostraram o caminho.

E isso também é importante reconhecer. Às vezes há a ideia de que as empresas estrangeiras não são bons parceiros, mas podem sê-lo quando nos ajudam a ver um caminho que nós não estávamos a conseguir identificar ou que ainda não conhecíamos. Com elas também aprendemos.

O sector das frutas e hortícolas tem demonstrado que Portugal ainda tem uma grande capacidade de crescimento nesta matéria e uma grande capacidade produtiva por aproveitar. Os pequenos frutos são um bom exemplo disso: exigem técnica, organização, conhecimento dos mercados e capacidade de trabalhar para a exportação, mas mostram que é possível produzir com valor acrescentado e competir lá fora.

A escolha deste tema para a feira tem também esse objectivo: mostrar aos agricultores e aos consumidores que há sectores emergentes, com procura, com rendimento e com capacidade para projectar a agricultura portuguesa. Não se trata apenas de apresentar um produto que entrou nos hábitos alimentares dos portugueses; trata-se de evidenciar uma fileira que ajuda a perceber o futuro da agricultura nacional.

 

Tem dito repetidamente que, durante uma semana, a FNA é a capital da agricultura nacional. A questão é saber se essa capital tem peso político real. Os governos ouvem o que o sector lhes diz em Santarém, ou a feira continua a ser mais visitada para a fotografia institucional do que para mudar políticas?

Relativamente ao peso político da agricultura, acho que, para sermos objectivos, ele se verifica logo no titular da pasta. Quando o ministro da Agricultura é, hierarquicamente, dos últimos membros do Governo, não precisamos de fazer uma grande dissertação à volta da questão do peso político do sector.

Se os governos ouvem as reivindicações da agricultura? Neste momento, acho que não ouvem. Mas isso tem a ver com os governos e com os governantes. Se calhar, só com recurso a outros métodos que conhecemos bem, e falo claramente de manifestações, é que se consegue que o Governo perceba que a sua actuação não está a proporcionar aos agricultores portugueses condições para serem competitivos.

Não tenho nenhum gosto especial em fazer manifestações. Mas, quando é preciso, fazemos. E não temos problema nenhum em fazê-lo. Se o Governo não mudar de atitude, não vejo outra solução, porque a situação é, neste momento, de abandono da agricultura. É a melhor palavra que encontro para traduzir aquilo que tem sido a actuação do Governo em matérias como os fertilizantes e os combustíveis.

A feira é, naturalmente, um palco importante. Estão cá agricultores, associações, empresas, decisores políticos e membros do Governo. Mas o essencial não é a presença institucional. O essencial é saber se aquilo que o sector transmite tem depois consequência nas decisões. E, neste momento, a sensação que existe é que os agricultores não estão a ser ouvidos naquilo que é mais urgente: custos de produção, competitividade, resposta às crises e condições para continuar a produzir.

 

A CAP, e o próprio Luís Mira em diversas intervenções, têm alertado para o impacto da guerra no Irão nos combustíveis, nos fertilizantes e nos factores de produção mais importantes para a agricultura. Se o conflito se prolongar, que consequências antevê para os agricultores portugueses e para o preço final dos alimentos?

Há duas coisas que é preciso perceber. A primeira é que o impacto não depende apenas de o conflito se prolongar. O impacto já existe. As culturas de Primavera/Verão, em grande parte, já foram lançadas à terra e a natureza não espera nem pela guerra no Irão, nem pelas decisões do Governo.

Há culturas ligadas à indústria com contratos realizados antes de a guerra ter começado, contratos que não previam este aumento dos custos. Agora, os agricultores têm de cumprir esses contratos com custos muito mais elevados. É isto que o Governo não quer compreender. Está a assistir à situação, talvez à espera que o conflito acabe rapidamente, para não ter de fazer nenhuma concessão. Mas essa é uma má decisão, uma má postura e revela falta de visão sobre a dimensão do problema que os agricultores portugueses enfrentam nesta altura.

Temos também de olhar para aquilo que se passa em Espanha. Os agricultores espanhóis beneficiaram de apoios de cerca de 500 milhões de euros e têm combustível a cerca de metade do preço que temos em Portugal. Como é que um agricultor português pode competir nestas condições? Não pode.

Há ainda a comparação com o que aconteceu durante a guerra na Ucrânia. O Governo anterior, do Partido Socialista, disponibilizou 180 milhões de euros para fazer face ao aumento dos custos. Nessa altura, houve o entendimento de que isso tinha de ser feito porque a agricultura não é um sector como os outros. As pessoas precisam de comer todos os dias. Agora, esse entendimento não existe.

Não vale a pena estar com muitos argumentos sobre se há dinheiro ou não há dinheiro. Quando é preciso e quando se quer, há sempre dinheiro. Quando não se quer, nunca há dinheiro. O problema é esse.

 

Que medidas concretas seriam necessárias, no imediato, para apoiar os agricultores perante este agravamento dos custos de produção?

As medidas concretas são aquelas que temos vindo a defender. Quando o gasóleo sobe, o Governo arrecada mais dinheiro em impostos. Portanto, se há um agravamento tão grande do custo do gasóleo agrícola, tem de haver uma resposta fiscal. Caso contrário, como é que é possível competir com um agricultor espanhol que tem o combustível a cerca de metade do preço? Não é possível.

Um tractor gasta 50 ou 60 litros por hora. Em muitas culturas, cerca de 70 por cento do custo energético está associado ao gasóleo. A isto juntam-se os fertilizantes, que são outro dos factores com maior peso numa conta de cultura. Se estes dois factores disparam, é evidente que a produção fica esmagada.

A competitividade não se faz perdendo dinheiro. Se os agricultores portugueses têm custos muito superiores aos dos espanhóis, não conseguem competir. É uma questão objectiva.

Quanto ao preço final dos produtos, obviamente que os preços terão de subir. Não sobem logo na proporção em que deviam subir porque há culturas em que o custo foi feito agora e a colheita só acontece em Agosto. Antes disso, não é possível repercutir o aumento dos custos no preço do produto.

Mas há preços que já subiram devido ao aumento dos custos de transporte, de manuseamento, de conservação, de energia e de funcionamento das câmaras frigoríficas. A ureia subiu 50 por cento. Como é que é possível manter o preço do produto? Não é. No fim, se nada for feito, será o consumidor a pagar esse custo.

 

Além da guerra no Irão e do aumento dos custos de produção, o sector foi também atingido por tempestades que causaram prejuízos significativos. A CAP falou numa situação de catástrofe e pediu apoios a fundo perdido. A resposta pública chegou a tempo e com a escala necessária?

Aquilo que vemos é que há muitos anúncios, muitos milhões anunciados, mas aquilo que até hoje se sabe que foi efectivamente pago são cerca de 3,3 milhões de euros, através de uma medida de apoio até 10 mil euros por beneficiário, que nem sequer é exclusiva do sector agrícola.

Depois, segundo a informação que o próprio Ministro da Agricultura deu numa entrevista, existe um mecanismo de reposição do potencial produtivo. O problema é que esse mecanismo não está adaptado a estas circunstâncias. Tem regras que fazem com que muitas pessoas não consigam aceder ao apoio. Havia uma verba de 40 milhões de euros disponível e houve candidaturas no valor de 27 milhões. Agora abriu uma nova candidatura, que fecha no final de Maio, mas os pormenores dessa candidatura só foram conhecidos no dia 20 de Maio. Assim é muito difícil.

Depois, daqui a um mês, provavelmente, vamos ouvir o Ministro dizer, talvez aqui na feira, que afinal não houve candidaturas suficientes. Mas as coisas não podem funcionar assim. É impossível.

Fala-se muito e discursa-se muito bem quando as situações acontecem, mas a concretização é muito reduzida. Há um funcionamento deficiente destes mecanismos. As CCDR fizeram o levantamento dos prejuízos e apontavam para mais de 500 milhões de euros. Se, perante essa dimensão, aquilo que foi pago até agora são estes valores reduzidos, então fica evidente que a resposta não teve a escala necessária.

O problema não é apenas anunciar apoios. O problema é garantir que chegam ao terreno, que são simples, que respondem às perdas reais e que chegam a tempo de permitir que as explorações se recomponham. Muitos agricultores não podem esperar meses por decisões, candidaturas, regras e pagamentos. Quando se perde produção, estruturas, equipamentos ou capacidade produtiva, a resposta tem de ser rápida e adequada à dimensão dos prejuízos.

 

A Política Agrícola Comum continua a ser decisiva para a agricultura portuguesa e europeia, mas é frequentemente acusada de ser burocrática, lenta e desajustada da realidade das explorações. O problema está na política europeia, na forma como Portugal a executa, ou em ambas?

Está em ambas. A política europeia não é fácil, é burocrática, mas continua a proporcionar uma compensação significativa à agricultura portuguesa. Não podemos ignorar isso. O problema é que, cá dentro, muitas vezes complicamos ainda mais aquilo que já é complexo.

Neste momento há uma falta de agilidade muito grande nos serviços, sobretudo nos projectos de investimento. Há muitos intervenientes nos processos de decisão, as coisas arrastam-se, demoram demasiado tempo e perdem eficácia. Era desejável que tudo isto fosse mais célere, como já foi no passado. Não estamos a pedir uma coisa que nunca tenha existido. Já tivemos períodos em que estes processos funcionavam melhor.

Mas reconhecemos também que, com menos meios humanos e com limitações nos meios técnicos, é impossível responder bem. Nos últimos 30 anos tem havido uma diminuição abrupta do número de pessoas afectas ao Ministério da Agricultura. Quando isso acontece, é porque os governos não têm verdadeiro interesse pelo sector. O número global de funcionários públicos aumentou, mas nunca houve tão poucos no Ministério da Agricultura. Isso diz muito sobre a forma como o Estado encara a actividade agrícola.

A agricultura é uma actividade primária, de suporte, e precisa de condições para poder funcionar. Não se trata apenas de apoios. Trata-se de criar condições para exercer a actividade. O turismo não tem este conjunto de exigências, a indústria não tem, o comércio também não. A agricultura está sujeita a regras comunitárias que não existem para nenhuma outra actividade e precisa de meios para as cumprir.

Se o Governo não proporciona esses meios, o problema agrava-se. E não falo apenas deste Governo. É uma tendência que vem de há décadas. Houve momentos melhores, em que os processos eram mais céleres, mas, se olharmos para a tendência geral, ela tem sido sempre a mesma: piorar.

 

Quando falamos de agricultura, falamos inevitavelmente de água, regadio e armazenamento. Portugal está a fazer o investimento necessário para garantir produção agrícola num contexto de alterações climáticas, ou continuamos presos a bloqueios ideológicos, administrativos e políticos?

Continuamos presos a bloqueios e a uma enorme falta de execução. Um caso concreto é a barragem do Pisão, que já foi suspensa duas vezes. Em Portugal, infelizmente, há esta tendência para atrasar tudo. Quando vemos processos que se arrastam anos e anos sem decisão, isso transmite uma mensagem à sociedade: a ideia de que é sempre possível adiar, criar incidentes, prolongar procedimentos e impedir que as coisas avancem.

Isso nota-se também na água. Mas não é apenas uma questão de bloqueios. É também uma questão de pouca vontade de executar. Este Governo apresentou uma estratégia para a água, que a CAP apoiou e elogiou. Mas isso foi em Março de 2025. Só em Maio de 2026 foi anunciado o presidente da estrutura que iria coordenar essa matéria. Demorou um ano e dois meses apenas para nomear o responsável.

Se demorarmos outro ano e dois meses para ter a estrutura a funcionar, quantos anos serão necessários para executar as obras? A previsão inicial apontava para cinco mil milhões de euros nos primeiros cinco anos. Mas, se ficarmos sucessivamente na fase dos anúncios, nada acontece.

Esta é uma característica, infelizmente, da política portuguesa: anuncia-se com pompa e circunstância e executa-se pouco ou nada. O problema não é a falta de planos. Planos há muitos. O problema é a falta de execução e de vontade.

A agricultura precisa de água, de armazenamento, de regadio, de previsibilidade e de infra-estruturas. Num contexto de alterações climáticas, isso é ainda mais evidente. Podemos discutir modelos, impactos, prioridades e soluções, mas não podemos continuar eternamente parados. Sem água não há produção agrícola competitiva, não há segurança alimentar e não há capacidade para aproveitar o potencial que o país ainda tem.

 

A renovação geracional é uma preocupação recorrente no sector e também na CAP. Como é que se convence um jovem a ser agricultor num país onde a agricultura é essencial, mas muitas vezes tratada como periférica, burocratizada e pouco valorizada socialmente?

Eu dou sempre este exemplo: não há nenhuma medida de incentivo para um jovem jogador de futebol. As famílias fazem esforço, os miúdos querem jogar, os pais levam-nos aos treinos. Porquê? Porque existe o sonho de que o filho possa vir a ser um grande jogador. Não digo sequer um Cristiano Ronaldo, mas alguém que, com trabalho, dedicação e esforço, consiga atingir um patamar de rendimento elevado e uma vida que muitos jovens ambicionam.

Na agricultura acontece o contrário. Quando há notícias sobre agricultura, muitas vezes são sobre fogos, secas, tempestades, dificuldades, prejuízos, uma vida dura e de muito trabalho. A agricultura tem também um lado encantador, naturalmente, mas a parte objectiva — financeira, de rendimento, de qualidade de vida — pesa muito na decisão de um jovem.

A primeira dificuldade é logo o acesso à terra. A terra não se constrói. Ou há uma herança, uma cedência da família ou de alguém próximo, ou então um jovem pode querer ser agricultor, mas não tem onde se instalar. Comprar terra tem custos elevadíssimos. As melhores terras estão ocupadas e, quando aparece uma oportunidade, há logo vários interessados. As terras sem aptidão agrícola existem, mas precisamente porque não têm grande valor produtivo.

Enquanto não houver a percepção de que na agricultura é possível ter um rendimento acima da média, será difícil atrair jovens. As estatísticas europeias mostram que o rendimento agrícola está muito abaixo da média das outras actividades. Um jovem, quando escolhe um caminho de vida, olha para aquilo que esse caminho lhe pode proporcionar. E se concluir que não terá rendimento suficiente, estabilidade, acesso a serviços ou condições para construir uma vida, dificilmente optará pela agricultura.

Depois há ainda a questão do território. Como é que se convence um jovem casal a ir para o interior se não há escolas, hospitais, serviços, habitação ou condições de vida atractivas? A renovação geracional não se resolve apenas com um apoio à instalação. Resolve-se com rendimento, acesso à terra, condições de vida e valorização social da actividade.

É preciso que a actividade agrícola tenha rendimento e proporcione uma vida digna e atractiva a quem é agricultor. Sem isso, é muito difícil inverter a tendência. Pode haver vocação, pode haver paixão, pode haver ligação familiar à terra, mas, no fim, as pessoas precisam de viver. E os jovens não são diferentes dos outros: querem uma actividade que lhes permita ter futuro.

 

Olhando para a próxima década, que agricultura terá Portugal: uma agricultura mais tecnológica, exportadora e competitiva, ou um sector mais pequeno, envelhecido e dependente de apoios públicos? E que escolhas têm de ser feitas já para evitar o pior cenário?

Será, seguramente, uma agricultura mais tecnológica, mais evoluída e mais exportadora. Não tenho dúvida nenhuma, porque quem não seguir esse caminho não vai conseguir continuar na actividade. A agricultura portuguesa tem demonstrado uma enorme capacidade de resiliência e também uma capacidade crescente de incorporar tecnologia.

Hoje há sectores onde a tecnologia já mudou completamente a forma de trabalhar. No sector leiteiro, por exemplo, antigamente era preciso estar às cinco da manhã para ordenhar as vacas. Hoje existem robôs que fazem esse trabalho. Isso torna a actividade menos dependente do esforço físico e permite organizar melhor o trabalho. O mesmo acontece noutras áreas do campo, onde a tecnologia ajuda a reduzir a dependência de mão-de-obra, aumenta a eficiência e permite responder melhor às exigências dos consumidores e da legislação comunitária.

Também é preciso dizer que há sectores agrícolas onde hoje se ganha dinheiro. O problema do rendimento agrícola tem muitas vezes mais a ver com a dimensão da propriedade e com a estrutura das explorações do que propriamente com a actividade agrícola em si. Há sectores com bons rendimentos e há outros que atravessam dificuldades, como acontece em qualquer actividade económica.

O caminho passa por uma agricultura cada vez mais tecnológica, menos imprevisível e mais preparada para as alterações climáticas. Se falta chuva, é preciso ter capacidade de regar. Se há excesso de chuva, é preciso ter infra-estruturas que permitam responder. Existem explorações que já estão preparadas, tecnologicamente e do ponto de vista das suas infra-estruturas, para estes desafios. Outras terão de fazer esse caminho.

Há três ou quatro grandes escolhas que têm de ser feitas. A primeira é a água. A disponibilidade de água e a execução do plano previsto são fundamentais, porque estamos a falar de infra-estruturas que servem o país. A segunda é a Política Agrícola Comum, onde é preciso estabilidade e previsibilidade, para que os agricultores saibam com o que podem contar. A terceira é a mão-de-obra, incluindo a imigração, onde Portugal tem de criar boas condições de trabalho e de vida para quem vem trabalhar no sector. A quarta é o funcionamento do Estado, que tem de ser mais eficaz, mais rápido e mais próximo da realidade das explorações.

Não podemos esquecer também a floresta. Foi apresentado um grande plano para as florestas, mas, mais uma vez, o essencial é executá-lo. O país não precisa de mais planos. Precisa de executar aquilo que planeou.

Esse é o grande desafio. Os agricultores respondem aos problemas, mesmo em anos muito difíceis. As tempestades foram terríveis e houve produtores que perderam tudo, alguns sem condições para continuar. Nesses casos, o Estado não cumpriu a sua função como devia. Mas também há muitos agricultores que já reergueram as explorações e continuam a avançar. É uma actividade feita de ciclos, de risco e de resiliência.

O que custa aceitar é que o Estado seja tão exigente quando é para cobrar e tão lento quando é chamado a responder. Se um agricultor se atrasa um dia no pagamento de um imposto, é imediatamente penalizado. Mas o Estado não trata os agricultores, nem os cidadãos em geral, com a mesma exigência que lhes impõe. A agricultura portuguesa terá futuro, mas precisa de água, rendimento, tecnologia, estabilidade, mão-de-obra e, acima de tudo, de um Estado que execute aquilo que promete.

Filipe Mendes

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