Conhecido do grande público pelo seu percurso como actor, Paulo Patrício encontrou na fotografia uma extensão natural do olhar que já levava para o teatro, a televisão e o cinema: a atenção às pessoas, aos espaços e aos pequenos gestos. Natural de Santarém, vê a cidade como “um palco vivo” e trabalha sobretudo a preto e branco, procurando nas imagens uma dimensão mais intemporal, próxima da memória. Com a série ‘Ecos do Tempo e do Espaço’, distinguida com o 2.º Prémio no concurso nacional “Luz e Sombra”, reflecte sobre a marca que deixamos nos lugares e sobre a forma como o tempo transforma tudo, sem apagar completamente as histórias.

É conhecido sobretudo pelo seu percurso como actor, mas tem vindo a afirmar também uma relação muito consistente com a fotografia. Como nasceu essa necessidade de olhar o mundo através da câmara?

A fotografia surgiu de forma muito natural. Como actor, sempre me interessou observar pessoas, espaços e pequenos gestos que muitas vezes passam despercebidos. A câmara tornou-se uma extensão desse olhar. Enquanto o teatro a televisão e o cinema trabalham a narrativa através da presença e do movimento, a fotografia permite-me parar o tempo e escutar o silêncio das imagens.

Na série ‘Ecos do Tempo e do Espaço’, premiada no concurso “Luz e Sombra”, há uma tensão muito forte entre a permanência dos lugares e a passagem efémera das pessoas. Que ideia procurou trabalhar nestas imagens?

Interessa-me essa relação entre aquilo que permanece e aquilo que desaparece. Os edifícios, as ruas e as paisagens guardam memórias de quem os habitou ou atravessou, mesmo quando essas pessoas já não estão presentes. Nesta série procurei reflectir sobre a marca que deixamos nos lugares e sobre a forma como o tempo transforma tudo, mas raramente apaga completamente as suas histórias.

O preto e branco parece ocupar um lugar central no seu trabalho fotográfico. O que lhe permite retirar a cor da imagem? É uma opção estética, emocional ou narrativa?

É um pouco das três coisas. O preto e branco ajuda-me a eliminar distracções e a concentrar a atenção na luz, na forma, na textura e na emoção. Não vejo a ausência de cor como uma limitação, mas como uma linguagem própria. Muitas vezes aproxima a imagem de uma dimensão mais intemporal e mais próxima da memória.

A arquitectura urbana, o corpo e o tempo surgem como elementos recorrentes no seu olhar. A cidade é, para si, uma espécie de palco?

Sem dúvida. A cidade é um palco vivo onde diariamente se cruzam histórias, encontros e despedidas. Talvez a minha formação como actor influencie essa percepção. Gosto de observar a forma como as pessoas ocupam o espaço e como o espaço, por sua vez, condiciona os seus movimentos. Há sempre uma dramaturgia silenciosa a acontecer nas ruas.

Sendo natural de Santarém e tendo já exposto em cidades como Lamego, Santarém e Sabrosa, que relação mantém com a sua terra e de que forma essa origem influencia o seu percurso artístico?

A ligação às origens continua a ser muito importante. Santarém é um lugar de memórias, afectos e referências que me acompanham para onde quer que vá. Creio que a identidade de um artista é construída também a partir dos lugares que o formaram. A minha relação com a paisagem, com a luz e até com certas temáticas do meu trabalho tem certamente raízes nessa experiência de crescimento e pertença.

Um título para o livro da sua vida?

Entre Luzes e Sombras.

Viagem?

Uma viagem sem roteiro definido, com tempo para observar, descobrir e fotografar. Mas, se tivesse de escolher um destino, talvez Tóquio ou Nova Iorque.

Música?

Todas. A música, tal como a fotografia, depende muito do momento, do estado de espírito e da emoção que procuramos ou encontramos.

Uma imagem que nunca esqueceu?

O olhar do meu filho nos meus braços, a descobrir o mundo pela primeira vez no dia em que nasceu. É uma imagem que guardarei para sempre.

Quais os seus hobbies preferidos?

A fotografia e tudo o que esteja ligado ao mundo da aviação.

Se pudesse alterar um facto da História, qual escolheria?

Gostaria que a humanidade nunca tivesse chegado à descoberta da bomba atómica e a tudo o que daí resultou.

Se um dia tivesse de entrar num filme, que género preferiria?

Enquanto actor, o mais importante é representar e contar boas histórias. No entanto, sei que o público aprecia particularmente ver-me em registos de comédia. Por isso, e porque o público para mim conta muito, a comédia seria provavelmente a minha escolha.

O que mais aprecia nas pessoas?

A verdadeira amizade, a lealdade e a capacidade de estar presente nos momentos importantes.

O que mais detesta nelas?

A falsidade. É algo que, mais cedo ou mais tarde, acaba sempre por revelar-se.

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