Há mais de duas décadas que a FARPA – Associação de Familiares e Amigos do Doente Psicótico – desenvolve em Santarém um trabalho discreto mas estruturante no apoio a pessoas com doença mental grave. Fundada em 1998 por profissionais do Hospital de Santarém e familiares de utentes, a associação mantém desde 2005 o único Fórum Sócio-ocupacional do distrito, dando resposta a este tipo de patologias. Em entrevista ao Correio do Ribatejo, o director técnico, Henrique Lopes, faz o balanço do caminho percorrido, denuncia as falhas de resposta pública na área da saúde mental e apresenta o novo projecto AIC – Acelerador de Integração Comunitária, que utilizará realidade virtual para capacitar pessoas estabilizadas para a reintegração social e laboral. Com parcerias alargadas, uma nova carrinha para chegar às freguesias e uma visão clara para o futuro, a FARPA quer continuar a crescer, romper o estigma e garantir dignidade a quem tantas vezes é esquecido.

A FARPA é uma associação com um papel fundamental na região, prestando apoio a pessoas com uma patologia muito específica e para a qual escasseiam respostas estruturadas. Que necessidades clínicas, sociais e familiares procura a associação responder actualmente e que mudanças tem observado no perfil dos utentes ao longo dos anos?

A FARPA é a Associação de Familiares e Amigos do Doente Psicótico. Foi fundada em 1998 no seio do Departamento de Psiquiatria do Hospital de Santarém, por profissionais da área e por familiares de pessoas com doença mental grave. O nosso principal objectivo é a reabilitação e reintegração de pessoas com experiência em doença mental, um desígnio que, hoje, se enquadra nas orientações actuais da intervenção comunitária em saúde mental.

Durante muitos anos, a FARPA foi a única resposta existente em todo o distrito de Santarém, um território com cerca de 440 mil habitantes, segundo os últimos Censos. O nosso Fórum Sócio-Ocupacional, criado em 2005, acolhia apenas dez utentes. Este dado é revelador de um défice estrutural profundo: num universo populacional tão vasto, só existia uma resposta activa para dez pessoas.

Actualmente, surgiram outras instituições no território, como a Associação de Saúde Mental do Médio Tejo e o projecto ReInserir, ligado ao Hospital Distrital de Santarém. Mas a verdade é que a FARPA continua a ser a única com um Fórum Sócio-ocupacional em funcionamento regular e com trabalho continuado. O que temos procurado, ao longo dos anos, é alargar a resposta e aumentar a capacidade de acolhimento, porque as necessidades são gritantes.

Encontramos frequentemente famílias envelhecidas, preocupadas com o futuro dos seus filhos, muitas vezes sem retaguarda, sem saberem o que acontecerá quando deixarem de poder cuidar deles. Em todo o distrito não existe uma única residência de apoio para doentes mentais crónicos, e é nesse sentido que temos vindo a trabalhar: não apenas acolher mais utentes no fórum, mas também garantir respostas futuras em caso de perda do suporte familiar.

A associação conta já com mais de duas décadas de actividade. Que balanço é possível fazer deste percurso e de que forma a FARPA tem conseguido marcar a diferença na vida dos utentes e das suas famílias?

O balanço é bastante positivo. Ao longo destes mais de 20 anos, passaram pelo nosso Fórum Sócio-Ocupacional cerca de 58 utentes. Há uma certa rotatividade, com pessoas que permanecem por períodos diferentes, e nem todas seguem o mesmo percurso. Nem sempre conseguimos a reintegração plena, mas temos vários casos de sucesso em que foi possível reabilitar capacidades, promover autonomia e, em alguns casos, favorecer a reinserção em contexto laboral ou social.

O mais importante é perceber que, para muitas famílias, fazemos efectivamente a diferença. Sentimo-lo através do reconhecimento que nos é transmitido. O nosso trabalho é muitas vezes o único suporte que estas pessoas têm, e isso dá-nos sentido de missão. Estamos a falar de pessoas estigmatizadas, frequentemente isoladas e sem estruturas de apoio, que quando chegam ao Fórum encontram um espaço de dignidade, de escuta e de construção.

E de que forma se articula o trabalho do Fórum com as famílias e com a comunidade?

A FARPA sempre fez questão de estabelecer parcerias sólidas com instituições da comunidade, o que tem sido fundamental. No início, funcionávamos em instalações cedidas na Quinta do Monte Abade, sem custos de renda, pelas quais estamos muito gratos. Mas mesmo aí, fora do centro da cidade, procurámos sempre abrir a instituição ao exterior.

Tínhamos (e mantemos) actividades regulares com parceiros como a Viver Santarém (natação), o Conservatório de Música (aulas de música), O ISLA de Santarém (informática), a Academia 100% (Ginásio) e, em tempos, com o Banco Alimentar, o Canil Municipal, entre muitos outros.

O objectivo é que os nossos utentes participem em actividades quotidianas na comunidade, sejam vistos, se relacionem, quebrem o isolamento e desenvolvam competências sociais e pessoais. Isto não apenas os dignifica, como contribui para a sua reabilitação e para a desconstrução de preconceitos que ainda existem na sociedade.

A mudança para as novas instalações foi um marco importante na história da associação. Que significado teve essa transição para a vossa dinâmica interna e para a ligação com a comunidade?

Foi um passo determinante na vida da instituição. Em primeiro lugar, temos de agradecer ao município de Santarém, na pessoa do anterior presidente, Dr. Ricardo Gonçalves, que foi incansável na concretização desta mudança. As actuais instalações foram cedidas pela autarquia e representam um salto qualitativo enorme, tanto para os utentes como para os profissionais da equipa.

Durante 17 anos funcionámos num espaço deslocalizado, com condições muito limitadas. Embora sempre gratos à proprietária da Quinta do Monte Abade, a verdade é que não havia ‘dignidade’ estrutural nem visibilidade. Hoje, com a mudança para o centro da cidade, tudo mudou.

Estamos mais acessíveis, mais visíveis, mais próximos dos serviços e dos nossos parceiros. A localização contribui para combater o estigma, permitindo que a sociedade veja e reconheça o nosso trabalho, e que os utentes se sintam integrados no quotidiano da cidade. Além disso, as novas condições permitem reforçar a rede de parcerias e alargar o leque de actividades, como as aulas de ténis, cedidas pelo Clube de Ténis de Santarém.

Estar no coração da cidade é, para nós, uma afirmação simbólica e prática: a saúde mental não pode continuar escondida.

Têm em marcha um novo projecto que procura dar continuidade e reforçar a vossa acção. Em que consiste o IIES AIC e qual a sua importância no contexto da intervenção comunitária em saúde mental?

O AIC – Acelerador de Integração Comunitária – nasce como continuação do projecto anterior, “Inclusivamente”, no qual trabalhámos em oito concelhos do distrito. No entanto, sentimos que, apesar de válido, esse projecto tinha limitações operacionais, porque não conseguíamos estar no terreno com a intensidade desejada.

Decidimos então concentrar esforços no concelho de Santarém, sobretudo nas freguesias da zona norte, onde há maiores carências e menos respostas. O objectivo do AIC é intervir directamente junto de pessoas com doença mental grave, mas clinicamente estáveis, promovendo a sua integração comunitária e, sempre que possível, a reintegração laboral.

A inovação central está no uso da realidade virtual como ferramenta terapêutica. Criámos cenários simulados do quotidiano – estar atrás de um balcão, servir um café, lidar com uma situação de tensão – que permitem aos utentes desenvolver competências relacionais, gerir a ansiedade e preparar-se para contextos reais de trabalho ou voluntariado.

Fizemos uma pesquisa exaustiva e, tanto quanto sabemos, este é o primeiro projecto em Portugal a aplicar realidade virtual no campo da saúde mental comunitária. Já existem estudos académicos, como os da Universidade de Barcelona, que demonstram a eficácia desta abordagem, mas aqui estamos a dar um passo pioneiro no terreno, com uma equipa altamente especializada e multidisciplinar.

Que equipa está envolvida no projecto AIC e de que forma é operacionalizado no terreno? Como garantem a sustentabilidade de uma iniciativa com esta complexidade?

O projecto conta com uma equipa multidisciplinar altamente especializada, composta por uma técnica superior de animação sociocultural, um assistente social, duas psicólogas e uma educadora social. Cada elemento traz uma abordagem complementar, o que permite uma intervenção integrada e centrada na pessoa, desde o acompanhamento psicossocial até à capacitação prática para a reintegração comunitária.

As sessões são maioritariamente grupais, mas há flexibilidade para realizar acompanhamento individual, sempre que necessário. O projecto prevê um espaço físico em cada freguesia para desenvolver estas acções, com o apoio das juntas e dos parceiros locais.

A realidade virtual é introduzida com o apoio de uma empresa parceira, que cede os equipamentos, nomeadamente os óculos e software necessários, conforme previsto no orçamento do projecto.

Para garantir a mobilidade entre freguesias e optimizar os recursos, a FARPA adquiriu recentemente uma carrinha nova, que servirá tanto os utentes do Fórum como o funcionamento do AIC. Esta aquisição foi um esforço considerável, mas necessário para transportar grupos entre freguesias e potenciar o convívio intercomunitário, mesmo nos casos em que existam poucos utentes por localidade.

Importa também sublinhar que este projecto só é viável graças aos nossos investidores sociais e parceiros estratégicos. Entre os primeiros, contamos com o apoio fundamental do Município de Santarém, Viver Santarém, Águas de Santarém, W Shopping, ERA de Santarém, Caixa de Crédito Agrícola de Alcobaça e Ribatubos. Estes apoios não são apenas simbólicos: são exigência formal da candidatura e garantem a base financeira do projecto.

A nível de parcerias operacionais, trabalhamos com instituições como a ULS da Lezíria do Tejo, o ISLA de Santarém, a NERSANT, o Município, o IEFP e praticamente todas as juntas de freguesia do concelho. Com uma excepção, que fazemos questão de referir com transparência: o executivo da Junta de Alcanhões optou por não colaborar. Ainda assim, a FARPA continuará presente naquela freguesia, tendo já em curso uma parceria alternativa com os escuteiros locais para garantir um ponto de intervenção.

A nossa filosofia é clara: a dignidade humana não depende de autorizações locais.

Na vossa experiência, quais são hoje as maiores barreiras à realização psicossocial de uma pessoa com doença mental? O estigma ainda persiste? Ou são a precariedade económica, a ausência de respostas estruturadas e o isolamento os factores mais decisivos?

O estigma ainda existe, mas acredito que tem vindo a esbater-se nos últimos anos, sobretudo após a pandemia. O Covid-19 trouxe muitas coisas negativas, mas também tornou visível a importância da saúde mental. Hoje há uma maior abertura para falar sobre o tema, e isso reflecte-se num maior envolvimento da sociedade civil e de empresas com responsabilidade social, que têm demonstrado vontade em apoiar iniciativas nesta área.

Ainda assim, as principais barreiras continuam a ser estruturais: a falta de respostas especializadas e a precariedade económica, tanto das instituições como das famílias. A sustentabilidade financeira é um desafio constante. Sem projectos financiados, a nossa capacidade de intervenção seria muito limitada. Os apoios públicos não são suficientes e é graças aos projectos que conseguimos crescer, inovar e chegar a mais pessoas.

Que visão tem a FARPA para os próximos anos? Quais são as prioridades e projectos em desenvolvimento?

A nossa ambição é clara: crescer com qualidade, inovação e sustentabilidade. Temos já um terreno cedido pelo município, junto à Escola Superior de Enfermagem, onde pretendemos construir um novo espaço – ou um fórum com maior capacidade ou uma estrutura de alojamento temporário ou de residência autónoma para pessoas com doença mental grave. Essa é uma necessidade urgente na região.

Além disso, queremos criar um serviço de apoio domiciliário em saúde mental, tanto para o concelho como, futuramente, para o distrito. Tudo isto está a ser planeado a médio e longo prazo, pois depende de financiamento, candidaturas e regulamentações.

A curto prazo, o nosso objectivo é aumentar a capacidade do actual Fórum Sócio-Ocupacional, passando de 10 para 15 utentes, e atingir as metas do projecto AIC, consolidando a nossa presença nas freguesias. Também tencionamos continuar a concorrer a novos projectos, que nos garantam os recursos necessários para concretizar esta visão.

Queremos estar mais presentes, mais visíveis e continuar a romper com a invisibilidade e o estigma. A recente modernização do nosso logótipo é também um sinal dessa transformação. Estamos a construir uma FARPA mais forte, mais inovadora e com os olhos postos no futuro.

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