“A Escola de Regentes Agrícolas era um modelo”

Grimoaldo Alhandra Duarte, autor de “Ao Rasgar da Ganga”

Grimoaldo Alhandra Duarte, 96 anos de idade, aluno da Escola de Regentes Agrícolas, diz-se um apaixonado pela sua cidade da qual conhece “todos os becos e ruas”. Decidiu passar para o papel as memórias que guarda da Escola que o acolheu. Daí nasceu “Ao Rasgar da Ganga”.

Porque dá o título “Ao rasgar da ganga” ao seu trabalho?
Era da praxe os alunos que acabavam o curso vestirem-se de ganga. Uma jaqueta ribatejana de ganga, os calções eram como os oficiais da tropa com botas altas, e era praxe quando um aluno acabava o último exame ou o fim do curso ver a sua roupa ser rasgada. Rasgavam a ganga e ficavam com uma recordação que era assinada por quem acabava o curso.

A recolha de informação que nos propõe recua até aos primórdios do século XX. É importante guardarmos essas memórias?
Recordo uma fotografia muito antiga, 1903 salvo erro, dos primeiros alunos formados na escola. A recolha de informação vai até ao último dia em que esta funcionou como de Regentes Agrícolas. Teve um princípio muito atribulado e foi preciso o irmão do Marquês de Sá da Bandeira escrever uma carta ao ministro onde lembrava que ele a tinha prometido constituir…

Que memórias guarda da antiga escola?
Aquela escola foi extraordinária em todos os capítulos. Formou técnicos extraordinários como Celestino Graça, Caetano Marques dos Santos, entre muitos outros, forcados e cavaleiros consagrados como D. José Ataíde, David Ribeiro Telles ou Gustavo Zenkl.
Entre os amadores tivemos indivíduos com grande categoria como Joaquim Pedro Torres, Joaquim Labareda Simões ou Fernando Palha. Mais tarde, a escola foi também um alfobre de jovens atletas através da Associação Académica de Santarém, iniciada em 1931, graças ao aparecimento de um professor de educação física extraordinário que foi o José Gameiro. A escola tornou-se um modelo. Primeiro no futebol, foram campeões nacionais naquele tempo da mocidade portuguesa. Depois, na ginástica, na mesa alemã, mas também no basquetebol, no voleibol e no rugby liderado pelo Eng. Féria. Todos foram gratas referências para Santarém.

E que Santarém era essa?
Era a Santarém da malta que se juntava no Largo do Seminário… Nem faz ideia… A malta jogava à bola em frente à Sé, e havia um polícia sempre danado para apanhar a bola à malta. Um dia, sem querer, deixámos a bola ir escadaria abaixo e ele levou-a. A malta ficou danada. Foram à Académica buscar outra bola e cobriram-na de estrume. Voltámos ao jogo com outra bola e escondemos essa. A dada altura alguém dá sinal: é agora. O que tinha a bola coberta de estrume mandou-a escadas abaixo. O polícia vai para a ir agarrar, a bola bate nele e suja-o todo! O que a gente correu dali para fora e a bater palmas…
Hoje a cidade está diferente. Chama-se ‘Jardim da Liberdade’ a uma coisa que é só pedra? “O jardim das pedras” seria bem mais apropriado. Tecnicamente é isso mesmo. Eu com a idade que tenho gostava de ver a minha cidade com outra pujança e por aqui me fico…

Quer destacar algumas das histórias retratadas no seu trabalho?
Não é mais do que demonstrar ao longo dos anos tudo aquilo que a escola fez, desde teatro, gincanas de automóvel, todos os anos havia festas que chegavam a durar oito dias e terminavam com um baile de gala, onde comparecia toda a sociedade de Santarém, de borla, paga pelos alunos, era uma coisa extraordinária. Tínhamos as récitas, tiro aos pombos, tiro aos pratos, tudo se fazia naquela escola.
Os antigos alunos transformaram-se em professores catedráticos, médicos, advogados, até um bispo-emérito de Benguela, D. Óscar Braga da Cruz, aluno até ao 7.º ano da escola.

Quais as grandes diferenças que vê entre a antiga Escola de Regentes Agrícolas e a actual Escola Agrícola?
Na Escola de Regentes, da parte da manhã estudava-se o português, o francês, a matemática, etc., quando se chegava ao 3.º ano já aparecia uma disciplina técnica, depois a partir do 4.º e do 5.º ainda mais. No 6.º e no 7.º eram completamente só técnicas. Mas tinha uma coisa extraordinária, desde o primeiro ano que quem entrava na escola tinha que fazer todos os trabalhos de campo. Apanhar as vides, azeitona, fazer vindimas com os mais velhos. Tinham que aprender a abrir uma cova para plantar uma árvore, ordenhar vacas, pastorear ovelhas, tudo. Aliás estão no livro algumas ilustrações disso mesmo. A grande maioria, tornou-se grandes técnicos, porque sabiam fazer.
Os alunos ali formados dirigiam-se para a lavoura, para as grandes casas agrícolas e tinham que saber para lá entrar. Eu com 23 anos fui para uma das maiores casas agrícolas deste país.

Pensa fazer novos estudos como este?
Olhe já fiz a ‘História da Académica de Santarém’, depois escrevi a minha própria história, o ‘Diário de um Charrua’, agora saiu este e já estou metido noutra… Ainda não tem nome definido, mas será, possivelmente, um “Roteiro da Cidade de Santarém”, sobre a Santarém do meu tempo.

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