Francisco Noras é videógrafo, realizador e editor vídeo em todas as áreas do audiovisual. Recentemente, viu a sua micro-curta ‘Por Um Punhado de Trocos’, onde expõe” a desumanização da sociedade de consumo imediato” ser admitida para o Festival de Praga.

Nascido em Santarém a 13 de Junho de 1991, licenciou-se em Ciências da Comunicação – Cinema e Televisão, pela Nova de Lisboa, em 2012. No ano seguinte, formou-se em Realização, na Restart. Em 2015, finalizou o mestrado em Ciências da Comunicação – Cinema e Televisão, pela mesma faculdade, com a tese “Humor e Ficção na Produção de Conteúdos Audiovisuais”. É fundador, argumentista, operador de câmara, editor e realizador do canal de youtube O Grande Bazar, bem como editor do projecto Estacionamento Reservado. É também pontualmente freelancer nas empresas LF Eventos e Torga Emotions & Films. Assina os seus projectos como Chico Noras.

Sempre ambicionou trabalhar no mundo do cinema? Qual foi o momento em que percebeu que era isto que gostava de fazer, que queria ser realizador?

Desde miúdo que o cinema é a minha paixão. O clique deu-se quando as parecenças físicas e intelectuais com o astro Chuck Norris passaram a ser inegáveis e logo percebi que estava destinado à sétima arte.

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Como nasceu a micro-curta ‘Por Um Punhado de Trocos’?

Nasceu, em primeiro lugar, da ânsia por uma boa promoção. Depois, da necessidade de expor a desumanização da sociedade de consumo imediato, que tão alegremente aceitamos de bom grado, e onde uma liquidificadora smeg cor verde água, com 80% de desconto, vale bem uma vida ou duas.

Foi uma curta inteiramente planeada ou foi adaptando à medida que ia filmando?

Foi uma ideia bem planeada. No cinema independente e de baixo orçamento, não nos podemos dar ao luxo de navegar à vista, mas claro que o improviso é mais que bem-vindo, pois abre espaço à criatividade.

Como vê a admissão do filme para o Festival de Praga?

Foi uma agradável surpresa. Só agora iniciámos o período de submissão a festivais e começámos logo bem.  A internacionalização da nossa arte é essencial para solidificar uma indústria e para mostrar que temos uma cultura única e resiliente.

Em que é que baseia os seus filmes? Apenas em personagens abstractas, ou têm também um pouco de si, das suas experiências?

O objectivo do meu trabalho é a sátira da condição humana, acompanhada de uma gargalhada agridoce. O que vemos em “Por um punhado de Trocos” é uma caricatura da ganância e da desumanização que nos é tão latente. Proponho uma abordagem humorística das nossas falhas. Levá-las ao absurdo para podermos rir de nós próprios. Rir para não chorar, como diria o outro.

Com que realizadores, actores, gostaria de trabalhar?

Acima de tudo quero trabalhar com talento português, em especial o talento que encontramos na nossa terra. Vejo em Santarém o potencial perdido de uma “Meca” das artes, longe da azáfama da grande metrópole, onde a reflexão criativa tem as melhores condições. É claro que, para isso, deve existir convergência e sentido estratégico para tornar Santarém na capital da cultura em Portugal. Sei que é um sonho longínquo, mas acredito veemente que podemos reerguer a nossa cidade nesse sentido. A terra de Mário Viegas e de Bernardo Santareno deve cumprir o seu ideal.

Como caracteriza o ensino de cinema em Portugal? É completo ou, como o ensino em quase todas as áreas, necessita de grande trabalho autodidáctico?

Existe um grande desfasamento entre o ensino e o mercado de trabalho, mas isso não é novidade. Temos uma indústria praticamente inexistente, circunscrita ao nicho de cinema de autor, que é perpetuado pelo circuito de concursos do ICA. A abertura para o paradigma dos serviços de streaming e da iniciativa de produção privada permitirá, de certa maneira, a ampliação do cinema português, incluindo outros géneros para além do autoral, em específico a comédia.

Quais são as suas principais influências?

Não querendo soar clichê, Stanley Kubrick é a minha grande influência. Não que o tipo de cinema que pretendo fazer se assemelhe de todo com a grandiosidade da sua filmografia, mas porque a sua audácia em produzir obras de arte de reflexão existencial me provoca uma imensa vontade de criar. No tocante ao estilo, o humor britânico é, para mim, uma grande influência, tendo Edgar Wright, como exemplo.

Um título para o livro da sua vida?

“Em construção”.

Viagem?

Japão, terra de tão estranhos e fascinantes costumes, para aonde já tive o privilégio de viajar, mas não me cansaria de repetir.

Música?

Chico Buarque é e será o meu grande ídolo musical.

Quais os seus hobbies preferidos?

Obviamente, sou um viciado em cinema e ficção audiovisual. Fora isso, sonhar aparenta ser um hobby do qual não me consigo despegar.

Se pudesse alterar um facto da história qual escolheria?

Por mais que repudie todas as atrocidades que a nossa história tem para contar, creio que alterá-la é um jogo bem perigoso. Acredito que os nossos erros existem para garantir a nossa aprendizagem.

O que mais aprecia nas pessoas?

O altruísmo é algo que sempre me fascinou ver nos outros, na esperança de o fomentar em mim próprio.

O que mais detesta nelas?

O inverso: a injustiça.

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