Ao final da tarde de ontem, 23 de agosto, na zona de Tyer, a norte de Moscovo, um Embraer Legacy despenhou-se. No aparelho viajavam Yevgeny Prigozhin e Dmitri Utchkin, que morreram. De uma penada, o Grupo Wagner perdeu a sua icónica liderança. Face ao ocorrido, algumas questões desde já se podem levantar.

Em primeiro lugar, Prigozhin tinha-se tornado, nos últimos meses, uma voz extremamente incómoda para o Kremlin. As entrevistas que deu, logo após a vitória de Bakhmut, deu a conhecer uma pessoa extremamente arrogante, um verdadeiro deus para os seus soldados, um homem com um poder e uma ambição desmedidos, sem papas na língua e com a presidência da Rússia no horizonte. Mesmo que fosse só por isto, Prigozhin já seria uma ameaça real para o Kremlin.

Em segundo lugar, o Wagner Group nos últimos 3 anos tornou-se muito mais que um mero bando de mercenários. Treino militar, segurança pessoal, consultoria estratégica, intelligence, desinformação, política, venda de armas e equipamentos militares, exploração e comércio de recursos naturais, recrutamento e gestão de soldados altamente preparados, o Grupo Wagner tornou-se uma multinacional da guerra e do terror, um poder global que a Rússia a pouco e pouco foi deixando de controlar.

A morte de Prigozhin e de Utchkin traz consigo o problema da sucessão. Sendo real a devoção dos soldados da Wagner aos seus líderes, a eventual lealdade a uma nova liderança poderá ser uma incógnita. Por outro lado, sabe-se que, recentemente, os russos tinham já criado duas novas empresas: uma PMC (private military company) e uma empresa de segurança pessoal. Isto significa que a transição de liderança do Grupo Wagner de há muito que vem a ser preparada, até porque na Rússia não faltam ex-operacionais GRU e Spetnaz disponíveis. Provavelmente, as entrevistas de Prigozhin após a vitória de Bakhmut já eram um efeito desta situação.

Por fim, não é dispiciendo o timing desta ocorrência, durante o BRICS Summit de Joanesburgo. Inevitavelmente, vem à memória a morte do general iraniano Qasem Suleimani em 2020 em Bagdad e a forma como esse assassinato, à altura, serviu de aviso a todos os países que ousassem afrontar os EUA.

José Alberto Pereira

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