Existem sempre boas notícias no que toca à salvaguarda do Património Histórico-Artístico nacional. Apesar de tudo, desde a falta de recursos às debilidades de meios técnicos de intervenção, há sinais positivos que mostram a vitalidade do sector patrimonial e a importância que as comunidades em geral atribuem a tal investimento. Esqueçamos pois, por momentos, a revigorada onda pandémica e os canais da corrupção instalada; se contra a primeira vemos ainda um SNS que funciona com êxito, já quanto à segunda atemoriza-nos esse polvo mafioso e tentacular contra o qual as leis da Democracia se mostram insuficientes…

Por isso mesmo — porque as boas práticas ainda não foram de todo esquecidas em Portugal — lembro que estão a decorrer as obras de requalificação da igreja de Santa Iria, na Ribeira de Santarém, uma iniciativa conjunta do Município e da Diocese. A notícia merece elogio: o abandono desta igreja, tradicionalmente considerada coeva da Reconquista cristã (erguida à volta de 1160, passa em 1280 para a posse da Colegiada de Santa Maria de Alcáçova), era algo de insuportável para moradores e visitantes. Urgia fazerem-se obras de consolidação e restauro para estancar a ruína, obras essas que finalmente começaram, e decorrem há meses, a cargo do Município.

Escultura quinhentista de santo Apóstolo (?), enterrada no pavimento da igreja
por uma ordem censória que, no século XVII, mandou retirar as imagens antigas que, alegadamente, se afastavam dos cânones impostos pelo Concílio de Trento

A igreja, sede paroquial da Ribeira de Santarém, pouco tem já das suas primícias medievais. Foi consagrada ao culto da mártir de Nabância, cujo padrão-memorial se ergue junto ao Tejo, com a imagem de Santa Iria a proteger os povos ribeirinhos as cíclicas cheias. Preserva as três naves da reforma quinhentista e o arco triunfal, este com seus ‘tondi’ renascentistas (São Pedro e São Paulo), agora bem visíveis e, por sinal, muito interessantes como peças de escultura do tempo de D. João III. Do recheio decorativo, devidamente resguardado no Museu Diocesano, fazem parte a célebre imagem do Cristo de Mont’Iraz (século XIV), os óptimos azulejos polícromos seiscentistas, e algumas imagens e altares de talha barroca (houve uma grande reforma pedrina, a seguir a 1688, data inscrita no portal). O tecto do zimbório, que resistiu ao terramoto de 1755, tem bons frescos de «arquitectura perspéctica» por Inácio Xavier (c. 1725), um pintor santareno educado em Roma. Na sacristia, os azulejos azuis e brancos são já quinto-joaninos e lembram os da Capela Dourada de Santarém (1717), algo que merece ser melhor indagado.

Azulejos polícromos, com o Baptismo de Cristo, na capela baptismal da Igreja
de Santa Iria da Ribeira. Meados do séc. XVII

Entre as novidades da campanha de requalificação do templo que me permito divulgar conta-se o achado de uma imagem de Apóstolo em madeira, do final do século XVI (ou já do XVII), que fora enterrada por imposição e escrúpulo de algum visitador tridentino. Quando, por razões de ‘decorum’, as velhas imagens deixavam de servir o culto, esse era muitas vezes o seu destino; neste caso, porém, no próprio corpo da igreja e não atrás da ousia, como era mais comum… Dado o estado ruinoso da peça, merece ser beneficiada e exposta como testemunho das práticas iconoclásticas que decorreram, com a Contra-Reforma, no campo da arte sacra.

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Temos pois, em suma, um bom exemplo de como a salvaguarda do Património cultural (neste caso religioso) continua a merecer a atenção de várias tutelas. Se tantas vezes nos revoltamos justamente contra a incúria, o abandono e até os crimes que ficam impunes neste campo — a anta eborense destruída por um campo de amiais, a capela seiscentista de Elvas arrasada por um empreendimento hoteleiro, os furtos de obras de arte, os maus restauros, etc etc ! — força maior terá, portanto, a referências às boas práticas de salvaguarda que decorrem no país, por força das sensibilidades, públicas ou privadas, que tomam a ombros esse imperioso dever cívico.

Vítor Serrão – Historiador de Arte

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