Joana Brandão, natural de Santarém e autora do livro infantil “A Avó está aqui”, transforma a experiência recente da perda da mãe e da avó paterna num objecto de afectos pensado para crianças que enfrentam o luto pela primeira vez. Psicóloga de formação e mãe de dois filhos, a autora construiu um álbum participativo com 18 recordações que convidam cada família a escrever, desenhar e preservar as memórias das avós que partiram. O novo livro — ilustrado por Ana Costa — procura mostrar que recordar é também uma forma de presença e que, nas palavras da própria autora, “é de uma enorme força sabermos ser frágeis”.

“A avó está aqui” nasce de uma experiência de perda muito recente na sua vida. Como encontrou a força — e a linguagem — para transformar o luto num livro dirigido a crianças?

Sim, em 2024, perdi a minha mãe e a minha avó paterna, uma fase desafiante para a família. Depois dos primeiros meses de sofrimento e alguma alienação, a sensação de gratidão, a saudade, o que fica dessas pessoas tão importantes, começam a ajudar a curar parte da dor. E, claro, os filhos, os irmãos e tudo o que de bom ainda temos pela frente. Com estas perdas tão estruturais, voltamos à infância, ao que somos e a como estas pessoas nos influenciaram. Somos o resultado de muitas pessoas próximas e de muitas memórias…

Mas o livro nasceu pela forma como os meus filhos (ele de 14 e ela de 10 anos, nessa fase) viveram estas perdas, sobretudo a da avó Zita (minha mãe). Foi uma morte inesperada de alguém que era muito próximo deles… Para além do sofrimento, houve o esquecer de alguns detalhes e memórias que me chamou a atenção e, sem pensar muito, quis criar algo que os ajudasse a guardar as recordações da avó. Quando lhes li algumas partes do texto, surgiu o nome do livro, porque ambos reagiram com uma enorme emoção que continha muita felicidade, como se falar da avó e daquilo que mais os marcou, a trouxesse para junto deles. A avó podia, então, continuar “aqui” desde que a lembrássemos.   

O livro apresenta 18 recordações universais que ajudam as crianças a reencontrar a avó na memória. Como surgiu este formato de álbum participativo, que convida os mais novos a escrever, desenhar e preencher as páginas?

No primeiro livro “2020 na tua história” este formato surgiu naturalmente, tal como agora, no segundo livro. Acho que tem a ver com a minha formação de psicologia, a minha preocupação com as emoções e a importância da sua partilha, em graúdos mas, sobretudo, em miúdos. Como escrevo no livro: “neste livro, que é também teu, podes desenhar, escrever e pintar, colar imagens até ao céu e ainda rir ou até chorar… cheiros, emoções, lugares, palavras e atividades, um livro para espreitares quando, da avó, tiveres saudades.”

Até nos adultos, acho que pode ajudar esta partilha em versão álbum para voltarmos ao bolo de chocolate que a avó fazia, ao seu cheiro, às expressões que só a avó dizia, à forma de ela cuidar…

Enquanto psicóloga de formação e mãe, de que forma percebeu que as ferramentas emocionais das crianças são diferentes das dos adultos, sobretudo quando enfrentam a primeira grande perda?

Tal como no primeiro livro, os meus filhos foram os primeiros a ouvir o texto e a ideia. E é a reacção deles que me confirma se dali, deve ou não nascer um livro para outras crianças. A forma genuína como reagem e a emoção que sentem diz tudo e, neste caso, disse que “sim”!

Para além disso, o meu trabalho final da licenciatura foi sobre o desenho infantil, sempre foi uma forma de expressão que me fascinou por conseguir, de forma lúdica, ajudar os mais pequenos a transpor o que sentem para um papel, com cores escolhidas por eles. Por isso nunca se deve corrigir ou julgar um desenho infantil… O mesmo acontece com a escrita espontânea. Podemos aprender muito com estas formas de expressão. O significado destes desenhos e textos é muito importante e útil para entendermos uma criança que possa estar a sofrer e que nem sempre consegue expressar-se numa conversa. Acredito que, tornar este livro deles, com espaço para se manifestarem, vai ajudá-los a lidar com o luto e a saudade e, mais tarde, a lembrar a avó, a infância deles e quem eles foram e são. Depois cabe aos pais/ adultos aproveitarem este livro para conversarem sobre o que expressaram e, sobretudo, sobre as saudades que têm, as memórias que ficam e os sentimentos que, partilhados, ficam mais leves. Como refiro no livro, acredito que este processo de partilha ajuda a transformar a dor em amor.

Não exerço psicologia, mas trabalhei alguns anos em educação e convivi com crianças em vários contextos, alguns socialmente vulneráveis. Com a psicologia, a experiência em educação e a de ser mãe, senti sempre muita vontade de fazer alguma coisa para “sossegar” o que os faz sofrer. Afinal, são crianças…

Que mensagem gostaria que ficasse para as famílias que vivem um processo de luto com crianças? E que impacto espera que o livro possa ter na forma como falamos da morte e da saudade?

É importante respeitar a forma como cada família lida e vive os processos de luto. Cada experiência é única e, no caso da perda de uma mãe/ avó, não é fácil gerirmos a nossa dor (dos filhos), lidarmos com o sofrimento dos nossos filhos (netos… e eles com o nosso) e de outros familiares que ficam. Dependendo da situação, demora o seu tempo e, uma parte da dor, pode nunca desaparecer… Mas eu diria que é bom deixarmos que os sentimentos saiam, aceitar a tristeza, as lágrimas, recordar as fotografias, falar do que vivemos com aquela pessoa e do que ela significa para nós. As crianças não devem ser protegidas de algumas dores da vida, elas existem e fazem parte. E, aprendi na minha vida, que é de uma enorme força, sabermos ser frágeis. 

Gosto de imaginar alguns pais que, nestas 52 páginas, encontram algumas pontas de saudade para puxar sentimentos e memórias que, não só, ajudam as crianças, mas toda a família. 

E adoro imaginar que os avós que já partiram, voltam a provocar sorrisos nos netos, através das recordações que este livro trás, tal como aconteceu com os meus filhos: o aconchego ao lembrar o leite quente e as bolachas da avó, o colo, os almoços de família, as histórias que só ela contava, o seu abraço, o amor especial que dava, que fica neles e não tem fim…

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