Sempre achei interessante e peculiar como um país com 250 anos de idade se considera no direito de mandar no mundo. De igual forma, considero estranho com uma civilização com pouco mais de 3.000 anos se considera dominante sobre culturas com 4.000, 5.000 e mais anos, responsáveis por algumas das mais fantásticas descobertas da história da humanidade.

Vejamos, por exemplo, um pequeno país, localizado perto do sudoeste asiático, encaixado entre duas das maiores potências mundiais. Sem acesso ao mar tem, de um lado, as maiores montanhas do mundo, e do outro os maiores países em população. Apesar disso, este pequeno país tem cerca de 3.000 anos de história e nunca foi ocupado por nenhuma das grandes potências mundiais ao longo da sua história. Falta de interesse? Não estou assim tão certo.

Convivem neste país 83 tribos e 19 milhões de cidadãos. 14% dos seus habitantes vivem abaixo da linha de pobreza (menos de um dólar por dia) e 51% são mulheres. O turismo e a produção de energia são a sua maior riqueza. A idade média é 27 anos, a esperança de vida são 73 anos, a taxa de literacia ronda os 70% e possui a maior universidade do mundo, com mais de 500.000 alunos. Em termos de balança comercial (exportações e importações), o país é extremamente dependente dos seus poderosos vizinhos.

Num regime político de monarquia, em 1951 o país abriu-se à democracia multipartidária. No entanto, foi sol de pouca dura, pois logo em 1960 o rei dissolveu o parlamento e extinguiu os partidos, com exceção do seu. Trinta anos depois, um movimento popular restaurou a democracia multipartidária, mantendo a monarquia como regime político.

Em 1996, forças maoistas atacaram em diversas frentes e instalou-se uma guerra civil, que perdurou durante dez anos. Em 2001, a família real foi assassinada, mas a monarquia persistiu através de um familiar. Foram anos sangrentos, com muitas mortes, dor e desgraça.

Em 2006 foi possível alcançar um acordo de paz que terminou a guerra civil. Em 2008, já com os maoistas no governo, a monarquia foi abolida e o sistema de democracia multipartidária regressou. Em 2015 um forte tremor de terra destruiu a maior parte do país, deixando um rasto profundo de mortos e feridos.

Em setembro de 2015, na sequência da proibição de acesso às redes sociais e da situação generalizada de corrupção, um forte movimento estudantil, maioritariamente constituído por estudantes universitários, veio para a rua exigir o fim do regime (até àquela altura maoista). Os confrontos com a polícia e o exército logo começaram e nestes faleceram 76 pessoas, quase todos estudantes. O regime caiu e tomou posse um governo de transição, com o objetivo de agendar eleições.

As eleições decorreram na primeira quinta-feira de março deste ano, com resultados surpreendentes. A afluência de votantes ultrapassou os 60%, facto assinalável num país onde uma boa parte da população vive nas montanhas ou em pequenas aldeias sem acessos, longe dos grandes centros. Ao contrário de eleições anteriores, não ocorreram motins e tudo decorreu dentro da normalidade.

Mas o mais espantoso foram os resultados. Cansados da corrupção e dos jogos de interesses dos partidos “tradicionais”, os cidadãos votaram massivamente num novo partido, liderado pelo presidente da câmara municipal da capital, um jovem engenheiro e rapper (isso mesmo) de 35 anos. A votação foi de tal forma expressiva que este partido alcançou uma maioria de 65%, a primeira ganha por um único partido na história do país, tendo ganho 180 dos 275 lugares do parlamento.

Como os mais atento já devem ter entendido, o país de que falo é o Nepal. Os vizinhos são a China e a Índia. O grande vencedor destas eleições é Balendra “Balen” Shah, até agora presidente da Câmara Municipal de Kathmandu. De um momento para o outro, o Nepal teve uma das mais extraordinárias viragens políticas da sua história e da história recente da humanidade. Mas, afinal de contas, o que aconteceu para chegarem aqui?

Logo desde o início da guerra civil, os maoístas e outros partidos comunistas (são 4 no Nepal) começaram a ocupar os lugares da administração pública com os seus militantes, criando uma clique de funcionários públicos que ao longo destes 30 anos passaram a dominar o funcionamento do país a nível local, regional e nacional. O Nepal passou a ser uma economia fechada, onde nenhum estrangeiro poderia abrir uma conta bancária (apesar de existirem 87 bancos no país) ou ter uma propriedade em seu nome. O investimento externo era desincentivado, a não ser através do modelo de “testas-de-ferro”, habitual nos países subdesenvolvidos.

Os jovens foram os mais castigados. A pandemia destroçou a economia do país (sobretudo o turismo) e tirou-lhes qualquer possibilidade de aí fazerem a sua vida. As jovens mulheres, sujeitas ao regime hindu de casamentos arranjados, foram as mais prejudicadas. A juventude saiu em massa do país, hipotecando assim o futuro deste. Só lá ficam aqueles que já não têm força para imigrar.

Este é o grande desafio de Balen Shah, o de reforçar a auto-estima nacional, levar as pessoas a acreditar num projeto de desenvolvimento sustentado e equitativo. Balen é um homem de ação, um engenheiro do terreno, independente e que gosta de ter muita gente à sua volta. Os desafios são enormes, pois a herança que lhe foi deixada corresponde a uma agenda de compromissos com a China, a Índia e os EUA. Conseguirá ele ser no Nepal o que o Professor Mohamad Yunnus tem sido no Bangladesh? O seu sucesso é fundamental.

No entanto, o que ressalta de toda esta mudança é o papel determinante da Geração Z. Já fora assim em Myanmar e no Bangladesh antes do Nepal, foi igualmente assim no Quénia e em Madagáscar depois do Nepal. Um dia destes a moda pode chegar à Europa, uma união cada vez mais desunida. E depois?

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