Definitivamente o povo português é dado às mais estapafúrdias incongruências e singularidades, situações pouco coerentes e naturais, as quais, por via de regra, não encontram na lógica nenhuma razão de ser, mas que, vá-se lá saber porquê, acontecem. Esta situação não é exclusiva da Tauromaquia – melhor fora! – sendo transversal a quase tudo na vida, mas, no caso vertente, é nesta dimensão que agora nos ocupamos.

O cartel da tradicional corrida do passado dia 15 de Agosto nas Caldas da Rainha é algo do mais esquisito possível. Numa corrida de seis toiros, oriundos de duas ganadarias, anunciaram-se dois cavaleiros de alternativa, um cavaleiro praticante, um matador de toiros e dois Grupos de Forcados.

O que é mais comum é cada toureiro lidar um ou dois toiros, em igualdade de circunstâncias entre si, e, eventualmente, no toureio a cavalo, poder haver lides a duo. Simplificando, para melhor compreensão: num cartel de três cavaleiros e de seis toiros, cada cavaleiro lida dois toiros; num cartel de quatro cavaleiros e de seis toiros, cada cavaleiro lida um toiro a solo e outro a duo; num cartel de seis cavaleiros e de seis toiros, cada cavaleiro lida um toiro; finalmente, para não ser excessivamente exaustivo, num cartel de dois cavaleiros, um matador de toiros e de seis toiros, cada toureiro lida dois toiros. Isto é regra assente na tradição e no respeito por todos os toureiros que constam num cartel.

Sem dúvida que todos os arranjos são possíveis, embora devessem primar por um princípio de ética e de respeito pelos diversos alternantes no cartel. Tanto mais que o estatuto dos diversos cavaleiros é distinto e nem isso foi tido em conta neste caso nas Caldas da Rainha. Recordo o cartel, para melhor compreensão do que se pretende referir – Cavaleiros de Alternativa: António Ribeiro Telles e Francisco Palha; Cavaleiro Praticante: Vasco Veiga; Matador de Toiros: Tomás Bastos; Grupos de Forcados Amadores de Santarém e das Caldas da Rainha; Ganadarias: quatro toiros de Passanha e dois de David Ribeiro Telles, que substituíram os dois de Paulo Caetano que estavam anunciados, mas não chegaram à praça.

De acordo com os padrões habituais, como é que neste caso se faria a distribuição das lides? Sinceramente, não sabemos porque a fórmula não tem ponta por onde se pegue! O cartel foi mal estruturado, e isto não tem nada a ver com a categoria técnica dos cavaleiros, que para a análise em questão, é irrelevante.

Na nossa modesta opinião o que não deveria acontecer era o cabeça de cartaz, António Ribeiro Telles, o Mestre dos Mestres na actualidade, lidar apenas um toiro e outro cavaleiro de alternativa, no caso Francisco Palha, lidar dois toiros, e o cavaleiro praticante Vasco Veiga ter lidado também um toiro. Porque é que um cavaleiro lida mais um toiro que os restantes alternantes no cartel?

Alguém que nos possa ajudar a compreender este “critério”. E, já agora, acham os ilustres aficionados que, por exemplo, João Branco Núncio, David Ribeiro Telles ou João Moura teriam aceitado lidar apenas um toiro numa corrida em que outro colega, ainda por cima mais novo, lidasse dois?

Já nada nos deveria causar admiração, mas…

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