No passado dia 27 de Março, durante uma conferência em Miami, Florida, organizada pelo fundo soberano da Arábia Saudita, o presidente americano Donald Trump afirmou: “open up the Strait of Trump — I mean, Hormuz(“…abram o Estreito de Trump — quer dizer, o Estreito de Ormuz.”). Noutro momento tinha afirmado que: “A guerra acaba quando eu quiser que ela acabe”.

Estas afirmações centradas e personalizadas por um dos líderes políticos mundiais revelam muito dos objectivos que estão por trás da intervenção americana na questão iraniana. Estas declarações e posições estratégicas apresentadas como pequenas piadas, mostram, também, que o posicionamento político se baseia em ideias geopolíticas desenvolvidas durante o final do século XIX e princípio do século XX. Na verdade, a problemática dos imigrantes, a aplicação de tarifas ou a questão do canal do Panamá… baseiam-se em políticas de outros Presidentes da História da América.

O foco no problema Irão não passa de uma tentativa de domínio de um ponto geográfico estratégico fundamental na disputa do poder perante uma nova potência internacional – China.

A questão principal baseia-se nas teorias de um importante pensador americano do século XIX, Alfred Mahan. Mahan foi e continua a ser, um dos fundadores do pensamento geopolítico e geoestratégico dos Estados Unidos. Na sua obra “A influência do Poder Naval na História” (1890) apresentou a ideia de que o poder marítimo se superioriza ao poder terrestre (defendido pelo geopolítico britânico Mackinder). O poder naval é essencial para o domínio do poder global. Um Estado forte deve dominar os oceanos e em especial os pontos de estrangulamento. Esses pontos de estrangulamento são, necessariamente, os estreitos marítimos e os canais artificiais.

O controlo destes territórios permite controlar os fluxos comerciais, energéticos, elementos essenciais nas cadeias de abastecimento mundiais. Por isso, Trump afirmou “Os Países que usam Ormuz devem proteger o Estreito”. As ideias de A. Mahan continuam actuais e servem de apoio às decisões políticas, económicas e geopolíticas.

Segundo Mahan, os países que tenham um poder marítimo forte associado a uma dispersão de bases navais pelo Mundo apresentam sempre vantagens em relação a outros no controle das rotas comerciais estratégicas. É aqui que se centra a intervenção americana no Irão.

A História militar dos Estados Unidos mostra que o seu poderio mundial se baseou no desenvolvimento do seu poderio naval. Também não é estranho que assistamos, na actualidade, a um crescimento do poder naval da República Popular da China.  A China pretende posicionar-se no controlo das rotas e fluxos internacionais.

A segurança das rotas comerciais e a localização de bases navais em pontos dispersos, mas estratégicos, tornaram-se essenciais no desenvolvimento do poder global americano como já tinha acontecido com os britânicos no passado século XIX.

Hoje, vemos muito bem, a importância do Estreito de Ormuz no contexto energético mundial, mas não só! A utilização do estreito como arma geopolítica não se resume às questões do petróleo ou do gás. O acesso aos produtos alimentares pelos países do Golfo Pérsico também está muito reduzido pelo estrangulamento do estreito. A pressão exercida às populações árabes tem aumentado exponencialmente e torna-se um mecanismo de perturbação num contexto de guerra assimétrica. 

Entretanto, podemos focar-nos, também, noutro estreito importantíssimo nesta situação. No extremo sul do Mar Vermelho e Noroeste do Golfo de Aden, o Estreito de Bal el-Mandeb que sempre foi essencial, tornou-se um território de poder, localizado entre o Djibuti e o Iémen. Ligação muito importante entre o Mediterrâneo e o Oceano Índico.  Não é de estranhar que no Djibuti se localizem as bases militares de vários países: Estados Unidos (principal base americana em África), França (base mais antiga e permanente francesa), Japão e Itália e China (a primeira base fora do território chinês). Do outro lado do estreito existem as forças dos Huthis, grupo xiita zaidita, considerados pelo Ocidente como terroristas. É importante dizer, ainda, que as potências emergentes, China e Rússia, estão a aumentar a sua presença na região. 

Não podemos esquecer que o Mar Vermelho tem outro ponto de estrangulamento, referimo-nos ao Canal de Suez. Área profundamente estratégica dominada economicamente e geopoliticamente pelo Egipto. Outro país árabe anteriormente dominado pelo Reino Unido.

A China mantem-se atenta à situação deste conjunto de territórios estratégicos importante nos fluxos comerciais, quer sejam de produtos da sua economia produtora e vendedora, quer das fontes energéticas incluídas nas políticas do projecto “Belt and Road Initiative” (As novas rotas da seda chinesas). A China também considera que o poder marítimo é essencial na geopolítica global. Dos dez maiores portos mundiais, 7 são em território chinês. Devemos acrescentar que o país do Império do Meio já financiou novos portos no Paquistão (Gwadar), Peru, Grécia … mas tem alguns problemas, também, em pontos estratégicos: Mar Meridional da China, Taiwan, Estreito de Malaca/Singapura. 

Neste inventário de estreitos marítimos como “gargalos” estratégicos devemos enunciar, por exemplo: Gibraltar, Dardanelos e Bósforo ou ainda, o estreito de Bering entre a Rússia e o Alasca e o Canal do Panamá. Gibraltar é uma das situações geopolíticas que resultou de apropriações do passado de poder. De um lado, o Reino Unido (antiga potência global do século XIX) e do outro Marrocos. O estreito de Bósforo é uma via fundamental da ligação entre o Mar Negro e o Mar Mediterrâneo sob o domínio da Turquia desde 1936. A partir da Convenção de Montreux a Turquia passou a controlar a passagem de navios beligerantes, como tem acontecido actualmente com ao conflito entre a Ucrânia e a Federação Russa.

A passagem pela Gronelândia também pode ser incluída nestas áreas geopolíticas de poder. A recente posição do presidente americano inscreve-se naturalmente nesta tentativa de controlar uma região potencialmente importante para dominar os fluxos marítimos oriundos da Rússia e particularmente da China. O interesse dos Estados Unidos pela região autónoma dinamarquesa da Gronelândia não é uma situação de hoje. Durante a Segunda Guerra Mundial, os EUA construíram bases militares no território e fizeram uma proposta de compra à Dinamarca, mas foi recusada. Trump acusou a Dinamarca de não assegurar a segurança e defesa da região face ao crescente interesse da Rússia e da China. No dia 4 de Janeiro, Trump afirmou “Precisamos da Gronelândia para uma situação de segurança nacional. É tão estratégico. Neste momento, a Gronelândia está coberta de navios russos e chineses por todo o lado.”

Curioso… afinal o importante não só os recursos do território!

Na verdade, a maioria da política externa desenvolvida pelo presidente americano, Donald Trump, neste segundo mandato, continua a seguir o conceito de “América Primeiro”, ao contrário do que se tem afirmado. A tentativa de diminuir a possibilidade de controlo de algumas áreas estratégicas do globo por parte da China tem como objectivo perpetuar o poder global dos Estados Unidos como potência mundial. Captar os estreitos marítimos e canais do mundo para a esfera de influência reflecte as teorias de Alfred Mahan, militar e geopolítico americano do século XIX. A nação que detiver o poder dos mares tem o poder global.

Será que se segue outro ponto estratégico – Cuba!?

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