No passado dia 15 de Maio, o Papa Luís XIV afirmou na sua primeira Encíclica “Magnifica Humanitas” – Sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial, de 245 pontos, que “a IA significa subtraí-la à lógica da competição armada, que hoje não é apenas militar, mas também económica e cognitiva. Trata-se da corrida ao algoritmo mais eficaz e ao banco de dados mais vasto, com o objetivo de consolidar uma vantagem geopolítica ou comercial sobre todos os outros. Desarmar significa quebrar esta equivalência entre poder técnico e direito de governar. Não significa renunciar à tecnologia, mas impedir que ela domine o ser humano.

Esta afirmação pode ser um dos momentos de reflexão sobre várias questões que se percebem a partir do texto: Qual o papel da Inteligência Artificial na dimensão dos poderes globais? Qual a relação do crescimento dos Centros de Dados com o poder geopolítico? Qual a importância da Computação Quântica no desenvolvimento da tecnologia da Inteligência Artificial num mundo globalizado?

A complexidade do mundo actual e a velocidade de transformação tecnológica não parece ser compatível com a assimilação de comportamentos e adaptação da sociedade às mudanças. As mudanças estão a ocorrer em momentos cada vez menores de uma geração. A aprendizagem e essencialmente a formação/educação não têm acompanhado a crescente digitalização dos mecanismos sociais. Passámos de uma formação analógica para uma utilização digital, dentro da mesma geração populacional. Esta situação promove a incerteza e a dificuldade em aceitar as transformações sociais. Os poderes globais têm, normalmente, a percepção de que é possível controlar, quer as populações, quer os Estados menos preparados economicamente ou politicamente. 

A utilização das novas tecnologias, em qualquer momento da história, sempre serviu para a competição geopolítica dos Estados. A Inteligência Artificial, os Centros de Dados e a Computação Quântica são actualmente os “gatilhos” para uma disputa global.

Uma das infraestruturas mais importantes para o desenvolvimento da Inteligência Artificial é a implementação de Centros de Dados. Surgem, assim, outras questões: Quem controla os dados? Quem protege os dados? Quem utiliza estrategicamente os dados? Curioso este conjunto de riscos!

É nestes três aspectos que reside a conflitualidade dos diferentes poderes globais num momento de transição, que já é muito evidente, da ordem internacional.

O investimento exterior na implementação de locais de “recolha” de dados por empresas estrangeiras ou Estados originam uma desigualdade de benefícios. O controle e a propriedade dos sistemas de dados pertencerão a entidades externas enquanto os impactos negativos serão locais. Grandes consumidores de espaço para a sua localização, grandes consumidores de energia para o seu funcionamento e grandes consumidores de água para arrefecimento (a estimativa, de acordo com diversos estudos, um único Centro de Dados pode consumir o equivalente ao de uma cidade média) são os aspectos a assumir pelo país receptor. No entanto, a maioria dos países não beneficiarão das mais valias de conhecimento e desenvolvimento digital. Não controlarão os dados e, logicamente, não assegurarão a sua segurança. O controle será assumido por poucos países, ou seja, será assumido pelos poderes globais. Quem terá no futuro próximo a soberania digital dos dados. Quem dominará o Mundo? Mais dados originam mais dados e, assim, maior desenvolvimento de Inteligência Artificial. Quem controlar a Inteligência Artificial controlará o Sistema mundial que não prevemos que seja multipolar.

Estamos a referirmo-nos a uma questão de Segurança Nacional, quer na proteção de dados, quer na defesa dos dados internamente. É evidente que as grandes empresas tecnológicas vão tentar controlar a grande quantidade de dados que circulam na ciberesfera. Assim, o poder estratégico sobre as infraestrut«ras de dados tem de ser entendido como um pilar geopolítico. É uma referência de soberania digital dos países e, evidentemente, de poder global.

A acrescentar à questão estratégica e geopolítica dos Centros de Dados, considerado como fundamental para a Inteligência Artificial, surge outro problema. Estamos a referirmo-nos ao desenvolvimento da Computação Quântica. Várias questões podem surgir: Qual a importância da Computação Quântica para o desenvolvimento da Inteligência Artificial? Qual a importância dos computadores quânticos para a definição do poder Global?

Os computadores quânticos utilizam uma arquitectura e processadores muito rápidos que permitem resolver problemas com um grande número de variáveis. Os computadores actuais apresentam algumas dificuldades em situações de grande complexidade e que exigem processamentos com grande velocidade. Através da tecnologia quântica é possível processar um grande número de dados e executar multitarefas simultaneamente. Parece óbvio que a capacidade de utilizar computadores quânticos permite um grande desenvolvimento de Inteligência Artificial. Deste modo, como está a acontecer com IA, a computação quântica passou a ser um novo pretexto para uma disputa geopolítica entre as grandes potências, Estados Unidos e a China. Quem dominar primeiro a tecnologia quântica dominará a hegemonia do poder global.   Leiam-se os títulos e subtítulos seguintes: “EUA investirão US$ 2 mil milhões na IBM e em outras empresas de computação quântica – Governo Trump quer fortalecer produção de tecnologia avançada nos EUA e reduzir dependência da China com aportes bilionários em empresas do sector” (Por Reuters 22/05/2026” e  “A China atinge novo marco na corrida global de computação quântica – Cientistas chineses revelaram um protótipo de computador quântico supercondutor chamado Zuchongzhi marcando um avanço nas realizações da computação quântica da China-“  (portuguese.xinhuanet.com 2025-03-04). A disputa é intensa! 

Mais capacidade de processamento e mais rápidos, os computadores quânticos permitem um ilimitado desenvolvimento da Inteligência Artificial e consequentemente, o controle, por exemplo, da corrida armamentista. Associado a esta corrida computacional torna-se evidente que outras corridas e disputas surgem no tabuleiro geopolítico: supercondutores e terras raras…

Recordemos que neste campo está associada a soberania dos dados. É necessário criar condições de investimento em computação quântica dos outros países, em especial dos europeus e respectiva regulamentação e segurança.

A análise geopolítica das cadeias de suprimento, da segurança internacional, de quem estabelece as regras de funcionamento dos centros de dados e da computação quântica, do desenvolvimento da Inteligência Artificial permite entender a crescente disputa pelo poder global.

Os riscos da IA já são visíveis! Os mercados de trabalho mostram a pressão desta nova tecnologia. As notícias falsas e o cibercrime inundam o quotidiano das sociedades. A mudança militar e a criação de novos armamentos mais destruidores. O poder no espaço sideral e a corrida interplanetária torna-se cada vez mais evidente e preocupante…

Os benefícios também surgem em muitas áreas, desde a saúde ao trabalho…

Como refere o Papa Leão XIV na Encíclica Magnifica Humanitas: “…a inteligência artificial pode ser uma ajuda preciosa, exigindo, ao mesmo tempo, uma abordagem sóbria e vigilante” e ainda “Daqui decorre uma consequência simples, mas imperiosa: não podemos considerar a IA moralmente neutra”.

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