No início do século XXI pensaríamos que a situação do Mundo não seria credível. A paz generalizada era certa e não fazia parte das preocupações individuais e dos Estados. O mundo político não colocava o tema da paz como centro do debate político. As ocorrências bélicas não pareciam próximas no tempo e no espaço. Tudo estava longínquo.

A guerra no Médio Oriente arrasta-se num impasse que já não surpreende ninguém, mas cuja persistência continua a corroer a estabilidade regional e a expor os limites da estratégia americana.” (DN 18 mar 26).

Mais de 750 pessoas morreram desde o cessar-fogo em Gaza, Israel e Palestina acusam-se mutuamente.” (SIC Notícias 15 abr 26)

Quatro anos de guerra na Ucrânia: para os russos, haverá paz quando Kiev se render” (Expresso 20 fev 26)

A questão que se coloca é se essa paz era verdadeira ou era uma percepção, principalmente, do mundo “ocidental”?

O contrário de guerra não é, necessariamente, a paz. O conceito de paz implica a ausência dos conflitos armados, mas a criação de condições de qualidade de vida para toda a população. Não é suficiente um cessar-fogo para se considerar o fim da guerra e a existência de paz. Como foi referido pelo Observador (6 mar 26) “A guerra revela o que somos. A paz, a paz verdadeira e não a simples ausência de combate, é aquilo em que decidimos tornar-nos” temos um caminho muito longo pois o mundo parece acentuar um percurso de violência e intolerância.

As situações de guerra são a marca das nossas sociedades e do nosso tempo. Os limites, as regras estabelecidas no direito internacional são esquecidas. Os conflitos armados generalizaram-se e ultrapassaram o que tinha sido referido por Max Weber (“Política como vocação“, 1919) como característica de um Estado: “O Estado moderno detém o monopólio do uso legítimo da força física num determinado território”). Os conflitos tornaram-se evidentemente complexos e alastraram-se a outros grupos para além das forças armadas estatais, como: exércitos privados, guerrilhas e criminalidade. O que provoca uma maior complexidade na criação de cenários futuros.

A incerteza e a insegurança, real ou percepcionada, marcam os nossos dias e transformam as vidas de milhares de milhões de pessoas incapazes de sobreviver na esperança de um futuro de estabilidade e paz. O poder de poucos transforma-se em crises sucessivas e permanentes. A incapacidade de estabelecer ligações diplomáticas com o objectivo de resolver através das relações Internacionais os problemas torna-se evidente. Estamos a referirmo-nos a Policrises. Edgar Morin em 1990 e em 2020 referiu-se ao termo afirmando que “…estaríamos vivendo uma série de crises ao mesmo tempo”. Curioso se estivermos a observar o nosso dia a dia… uma policrise que pode ser transformada em permacrise (crise permanente) se não soubermos sustentar as nossas vidas e sociedades perante as constantes ameaças de segurança e estabilidade. Não estamos a referimo-nos no aumento da militarização do Mundo, mas ao desenvolvimento das capacidades de tolerância e diplomacia. Mais armas resultam sempre em mais armas e necessariamente a ausência de paz…

Em 2025 e 2026 ocorreram mais de 130 conflitos armados dos quais mais de 60 estão nos dias de hoje activos. A situação já é grave quando refletimos sobre os conflitos da Ucrânia, da Cisjordânia, do Líbano, de Israel, do Iémen ou do Irão, mas será importante percebemos os outros territórios onde desenvolvem acções de extrema violência e ausência de paz. O cenário geopolítico pode ser marcado por uma escalada global com um elevado risco e ameaça para o Mundo.

Cerca de 50% dos conflitos armados activos no Mundo verificam-se no continente africano apesar de alguns dirigentes insistirem numa posição mais diplomática e de melhoria das relações internacionais. Em várias regiões estratégicas verifica-se uma tentativa de colocar à margem do confronto entre potências numa lógica de transição de poder. Por exemplo, no Djibuti, um pequeníssimo país do Corno de África, junto ao estreito de ddd, estão instaladas bases militares de várias potências, França, Japão, Estados Unidos e China. 

No entanto, a fragmentação geopolítica de alguns países africanos volta a ser um campo privilegiado para as novas “guerras frias”. Infelizmente, a confrontação, internacional e interna, tem vindo a permanecer em muitos territórios africanos ameaçando as populações. A guerra na Ucrânia interrompeu o fornecimento de produtos alimentares (em especial trigo) e países dependentes da importação alimentar, como por exemplo o Egipto, Sudão ou a Somália. Esta situação tem provocado um aumento da insegurança alimentar e da estabilidade económica que associada a outros factores locais tem originado um crescente confronto armado difícil de resolução.

A região do Sahel (os territórios no sul do deserto do Saara) tornou-se um território de confrontos armados cada vez mais violentos em países como Mali, Burkina Faso e Níger. Os dados revelam que os conflitos armados nesta região têm originado um aumento de violência política e a destruição da vida.

A crescente actividade de grupos associados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico tem vindo a provocar situações de grande instabilidade e insegurança tendo em conta as fragilidades de muitas instituições governamentais e tensões étnicas. As fronteiras difíceis de controlar são um dos factores facilitadores do alastramento da conflitualidade em vários países.

Um quarto da população do Sudão, cerca de 14 milhões de pessoas, teve de abandonar as suas casas para salvar a vida em algum momento dos três anos de guerra, assinalados a 15 de abril, segundo estimativas da ONU. Mais de 58.000 crianças chegaram sozinhas a países vizinhos, separadas das suas famílias durante a fuga, muitas vezes feridas e profundamente traumatizadas.” (Expresso 11 abr 26)

Mali em crise após jihadistas e rebeldes matarem o Ministro da Defesa” (Euronews 27 abr 26)

Somália, alerta da ONU para a nova crise alimentar” (Vatican News 8 mar 26)

Muitas outras notícias poderiam ser transcritas. Os conflitos armados e as condições ambientais têm levado à morte milhões de pessoas em África. São algumas das guerras esquecidas…

O desenvolvimento da multipolaridade está à vista de todos. Não estamos na área da fantasia e de futuro. É já uma realidade! Os poderes crescentes da China e porventura da Rússia e da Índia contra um poder unipolar dos Estados Unidos estão bem definidos. Cada um procurará criar as condições de tirar o maior proveito da geografia e da nova geopolítica em seu benefício.

Num futuro próximo veremos o fortalecimento da China com o aumento das suas forças militares nucleares centrados no poder marítimo e no poder aéreo e talvez no seu poder espacial. A China necessita de Taiwan para fortalecer o seu poder marítimo, quer nas relações militares, quer no desenvolvimento do seu poderio comercial e financeiro.

A crescente militarização do Japão face à provável deterioração das relações com a China está em marcha. É muito possível que possamos assistir a uma crescente conflitualidade no Pacífico. O oceano é fundamental para o crescimento do poder geopolítico mundial.

A índia também pretende ter um papel no xadrez político internacional. A conflitualidade de quase 80 anos com o Paquistão permanece activa e com tendência para se acentuar. As diferenças religiosas e os nacionalismos fortalecem a incerteza e a violência. No entanto, o equilíbrio em armamento nuclear entre os dois países pode originar uma complexa tensão que se desconhece o resultado.

Infelizmente a lista de conflitos activos no Mundo não termina… 

A Europa após a criação de um espaço de integração e com projectos de alargamento defronta-se com o aumento da insegurança territorial, comercial e financeira. Necessita repensar o seu papel geopolítico e estratégico neste Mundo progressivamente multipolar. 

Estamos no momento certo e único para encontrar o novo caminho… a PAZ. A verdadeira paz.

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