Nas primeiras horas da manhã, do último dia de fevereiro o mundo ouviu o Presidente dos Estados Unidos anunciar a Operação “Fúria Prévia”: “Há pouco, as forças armadas dos Estados Unidos iniciaram operações de combate de grande envergadura contra o Irão”. Na verdade, não foi um anúncio inesperado. Perante o ambiente militarizado criado em torno do Irão tornava a situação inevitável e esperado. 

No entanto, a declaração do Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, foi muito clara: “Condeno a escalada militar de hoje no Médio Oriente. O uso da força por parte dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, e a subsequente retaliação iraniana em toda a região, minam a paz e a segurança internacionais“. 

Antes de inventariar ou perceber quais os objectivos para as acções militares israelitas e americanas no Irão e a consequente resposta, legitima ou não, interessa entender quais os argumentos apresentados. Podemos voltar ao texto do anúncio do Presidente americano, Donald Trump: “O nosso objetivo é defender o povo americano eliminando ameaças iminentes do regime iraniano, um grupo impiedoso de pessoas muito duras e terríveis”. Não é fácil interiorizar mentalmente quais são as ameaças iminentes que justificam a acção desenvolvida. Já assistimos anteriormente a esta retórica e verificou-se que não era verdadeira (a Guerra do Iraque). As consequências transformaram-se numa situação política e geopolítica mais incerta e mais complexa, durante várias décadas. Assim, o objectivo apresentado é pouco claro e permite perceber que existirão outros que serão mais globais.

Assim, é legitimo indicar dois níveis de objectivos: nível político interno e nível político externo. 

Comecemos pelo nível interno. É importante para D. Trump justificar à sua população as suas acções no Irão anunciando que é necessário “…defender o povo americano…”. Necessita convencer o próprio Movimento MAGA (Make America Great Again) que não está de acordo com estas operações, porque em Novembro deste ano vão ocorrer eleições intercalares para o Senado e Câmara de Representantes e as sondagens não são favoráveis para os republicanos. É também importante recordarmos as palavras proferidas no discurso de tomada de posse: “As nossas Forças Armadas estarão livres para se concentrarem na sua única missão, derrotar os inimigos dos Estados Unidos. Como em 2017, nós vamos construir, novamente, as Forças Armadas mais fortes que o mundo já viu. Mediremos o nosso sucesso não apenas pelas batalhas que vencermos, mas também pelas guerras que terminarmos e, talvez o mais importante, pelas guerras nas quais nunca entraremos”. São palavras ambíguas…

A nível externo podemos enunciar que apesar de serem referidos como objectivos: eliminar a capacidade de desenvolvimento de armas nucleares pelo Irão; diminuir a possibilidade de utilização de mísseis balísticos; eliminar e substituir o regime teocrático e ditatorial, o verdadeiro objectivo parece ser eliminar o acesso a fontes energéticas e de vias de mobilidade pela China, mais de 80 % do petróleo iraniano é comprado pelo Estado Chinês. 

É evidente que a China já tinha previsto desde 2024 que, com a eleição Donald Trump, estas situações iriam ocorrer. Perante a possibilidade de bloqueios ao país pelos Estados Unidos (entraves na passagem de navios no canal do Panamá, a intervenção na Venezuela, o principal exportador de petróleo, são dois dos muitos exemplos) a China desenvolveu um plano para aumentar as suas reservas estratégicas em energia. Como exemplo, uma das maiores instalações chinesas de armazenamento de petróleo, Dongjiakou, localizada no Porto de Qingdao, na província de Shandongé, aumentou desde o início do ano 10 milhões de barris passando para um total de 24 milhões. Esta estratégia ocorre por todo o país. A China atingiu mais de 1200 milhões de barris de reserva total o que corresponde a três vezes as reservas americanas. Esta política apresenta muitos riscos económicos e financeiros, mas este é um caso em que as vantagens geopolíticas se sobrepõem a todos as outras.

Outro aspecto importante a referir é que o Irão funciona como placa giratória entre a nova rota da seda ferroviária comercial entre a China e o Irão e o Corredor de Transporte Internacional Norte-Sul (INSTC), uma rota estratégica de 7.200 km que liga a Rússia ao Irão e à Índia. Estes dois corredores são fundamentais para a redução de custos de transporte e na diminuição da dependência dos portos marítimos. É de referir ainda que o Irão pertence à Organização de Cooperação de Xangai desde 2023 e aos BRICS desde 2024.

Os Estados Unidos pretendem interferir rapidamente e retardar este aumento da capacidade da China nos mercados globais. Como vemos, não está neste objectivo qualquer interesse pelas armas nucleares, nem misseis balísticos e muito menos as questões da defesa dos direitos humanitários da população chinesa.

Já assistimos, noutros casos, que a substituição de um governo, seja ditatorial ou não, não é um objectivo principal para os americanos. 

Para a administração americana é importante a participação de Israel. Os objectivos não são os mesmos, mas a nível interno é essencial referir que os Estados Unidos apoiam Israel nas suas preocupações. Benjamin Netanyahu assim o exigiu…

E quais os objectivos de Israel?!

O domínio geopolítico da região para os israelitas sem a interferência do Irão (o seu principal inimigo) é o seu primeiro grande objectivo. A segurança e o poder regional passam por eliminar o constrangimento iraniano e em especial a eliminação dos grupos e milícias apoiados pelo regime – os Grupos Palestinianos: o Hamas (na Faixa de Gaza) e a Jihad Islâmica Palestina; Hezbollah (Líbano); Houthis/Ansar Allah (Iémen); Milícias no Iraque e Milícias na Síria. Assim, é necessário para Israel mudar o regime de governo. Curiosamente, Israel participa no ataque ao Irão no dia de Shabat. No entanto os judeus podem de acordo com a lei judaica realizar actividades militares, desde que seja para salvar vidas ou proteger a segurança nacional.

A mudança de regime parece muito complicado. Os ataques dos americanos e israelitas já criaram mais um mártir xiita. A morte do Ayatollah Ali Khamenei criou, para os islâmicos xiitas mais radicais, um novo mártir, um potencial novo imã, como já foi Ruhollah Khomeini, o primeiro Ayatollah, após a Revolução Islâmica em 1979.

Na verdade, já começou a posicionar-se um potencial dirigente para um novo regime (muito próximo do mundo ocidental!) sem o apoio (pelo menos ainda não declarado). Reza Pahlevi afirmou: “Ali Khamenei, o tirano sanguinário de nossa época, o assassino de dezenas de milhares dos mais bravos filhos do Irão, desapareceu da face da terra. Com a sua morte, a República Islâmica chegou efectivamente ao fim e em breve será relegada ao esquecimento”. Curioso…

As mudanças de regime provocadas por intervenções militares externas não têm grande futuro… 

Em 1532 Nicolau Maquiavel na sua obra “O Príncipe” escreveu: “Não bastará extinguir o sangue real, porque haverá sempre senhores que chefiarão novas mudanças; e, como não será possível contentar nem exterminar todos, na primeira oportunidade perdem-se os Estados conquistados”.

A população iraniana merece mais… 

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