“O nosso lema, desde há três anos para cá, é “Formar a Ganhar”. Nós formamos a ganhar. No entanto, não ganhamos a qualquer preço. Não prescindimos dos processos de formação para ganhar. Tentamos criar condições para que todos os miúdos possam ter o tempo de jogo e treinem nas mesmas condições que todos os outros”.

Quem o afirma é Carlos Esteves, presidente da direcção da Associação Académica de Santarém (AAS), clube que assinalou, no passado dia 05 de Outubro, o seu 90º Aniversário.

Senhora de um palmarés invejável e de uma história sem paralelo, a Briosa orgulha-se disso mesmo: quem entra na nova sede do clube, situada no Campo da Feira, depara-se, de imediato, com uma série de fotografias que retratam essa história viva do clube. E a quem entra na família AAS é-lhe incutida esta mística.

“Somos um clube com uma história que está espelhada nestes quadros, são 90 anos. Quem entra na sede, consegue ver imediatamente que não somos um clube qualquer. A ideia desta entrada na sede é que quem entra, “entre” logo na história. Há um processo seguinte que será o actual e o passado recente. A ideia é que quando os miúdos aqui entrem sintam que estão num clube que já ganhou muito, e que tem uma história imensa”, explica o responsável da Académica.

Mais do que um clube de formação de futebol, a AAS tem procurado alargar as suas secções e oferta desportiva: “estamos a desenvolver a ginástica, que está com um desenvolvimento fantástico e já temos cerca de 180 atletas. Temos, depois, o Jiu-jitsu e a Petanca, que é recente”, explica o dirigente associativo que mostra, com orgulho, a sala de troféus que conta a história de um passado repleto de vitórias e projecta um futuro que será, certamente, de sucessos.

As origens da Briosa remontam à década de 20 do século passado: na altura, as duas academias existentes em Santarém – a do Liceu Nacional de Sá da Bandeira e a da Escola de Regentes Agrícolas, passavam o tempo em rixas, embora muitos dos alunos, de uma e outra, não concordassem e tivessem, por sua vez, boas relações.

Todo o estudante que quisesse praticar futebol tinha que o fazer através de um dos clubes existentes, no caso o Sport Grupo Scalabitano “Os Leões”. Acontecia que nesse clube pontificavam jogadores tais como o Dr. Ramiro Nobre e seu irmão Mário, o capitão Mota Carmo, comandante da GNR, Joaquim Garcia, grande proprietário, Adélio Paula e muitos outros. Como tal, os estudantes só eram utilizados quando algum daqueles se lesionava ou quando se previa um adversário difícil, o que aconteceu com alguns desses estudantes que, embora fossem bons jogadores, só eram utilizados nessas circunstâncias, casos de Joaquim Gonçalves Isabelinha, José da Silva Louro, José Frutuoso, entre outros.

No ano lectivo de 1926/27, veio transferido da Escola de Regentes Agrícolas de Coimbra para a de Santarém um aluno de seu nome Gil Sacramento Monteiro, que não só era um acérrimo defensor dos ideais académicos, como também era jogador da equipa de futebol da Associação Académica de Coimbra. Chegado que foi, deparou-se-lhe o quadro atrás descrito entre as duas academias, o que lhe provocou grande confusão. Entretanto, começou a encetar junto de vários colegas como Celestino Graça, Tancredo Heitor e Afonso Themudo, uma campanha de sensibilização no sentido da vantagem de as duas academias darem as mãos e constituírem, à semelhança de Coimbra, um clube de estudantes.

Ao mesmo tempo, foi tomando conhecimento com alguns alunos do Liceu, aproveitando para, igualmente, os sensibilizar, entre eles Valdemar Amaral, Afonso Costa e Joaquim Isabelinha. Deste trabalho, chamado “de sapa”, resultou que as duas academias levassem a efeito, “de per si”, uma assembleia de alunos onde seria exposto o que se pretendia.

Ao contrário do que seria de esperar, tal facto mereceu, de imediato, uma euforia enorme, o que levou a que fosse convocada uma assembleia magna das duas academias. Dada a expectativa na enorme comparência de estudantes, acabou essa assembleia magna, a maior reunião de estudantes de que há memória em Santarém, a vir a ter lugar no Largo do Seminário (Largo Marquês de Sá da Bandeira) em frente ao edifício (hoje) da Sé.

Com discursos inflamados, foi logo aí nomeada uma comissão destinada a preparar os estatutos e o nome do novo clube, bem assim como a futura direcção.

A fundação do clube

Por proposta da citada comissão e aprovada pelas duas academias o dia escolhido para a sua fundação foi 5 de Outubro de 1931. Por ironia do destino, a pessoa que mais trabalhou para tal desiderato, Gil Sacramento Monteiro, a tal já não assistiu, dado que, entretanto, acabou o curso e regressou a Coimbra e à sua Académica.

O mesmo veio a acontecer com outro grande Brioso, o Dr. Joaquim Gonçalves Isabelinha, que, entretanto, também se havia deslocado para Coimbra para tirar o seu curso e onde se distinguiu como atleta da Associação Académica de Coimbra, razão pela qual não foi um dos sócios fundadores.

Por proposta da comissão de tal encarregue, e por acordo entre as duas academias, o novo clube foi baptizado de Associação Académica de Foot-Ball. Porém, um ano depois, passou a ter o nome de Associação Académica de Santarém, o qual se tem mantido ao longo dos tempos.


Dado que a academia da Escola Agrícola usava a cor verde e o Liceu a cor preta foi resolvido que, de início, o equipamento fosse constituído por camisola branca com uma faixa horizontal verde e os calções e meias pretos.

Um ano depois, e tal como aconteceu com o nome do clube, também o equipamento mudou, passando a camisola a ser preta, os calções azuis e as meias pretas com o canhão azul. Para símbolo a usar nas camisolas foi escolhida a Torre das Cabaças, cercada pelas letras A. A. S.

A primeira equipa de futebol

Dado que alguns estudantes que praticavam a modalidade tinham ingressado nos Leões, estes não permitiram que os mesmos viessem, logo após a fundação, defender as cores do Clube.

Houve, pois, que recrutar, entre a massa estudantil, os que restavam e com eles formar a primeira equipa representativa.

Foram eles: José Neto, Homero David, Serrão de Faria, Afonso Costa, Afonso Themudo, Luís Frazão, Raul de Sousa, Joaquim Albuquerque, Acácio, José Frutuoso e Rui Sabo.
Esta equipa utilizou, na altura, o primeiro equipamento, de camisola branca listada de verde e calção preto. Só a partir de 1932/33 passaram a usar a actual camisola preta e calção azul, sendo a equipa de então formada por Tancredo Heitor, Homero David, João Leite, José Amaral, Luís Bragança, Afonso Themudo, António Peralta, Carlos Faustino, José Louro, Celestino Graça e Francisco Freire.

Acontece que, neste lote de jogadores, não aparece desde início o nome daquele que viria a ser o Dr. Joaquim Gonçalves Isabelinha, dado que o mesmo tinha ingressado na Universidade de Coimbra em 1930, vindo a envergar a camisola da Académica dessa cidade e, pela mesma razão, não fez parte dos sócios fundadores, ocupando o n°. 102 e tornando-se, após o seu regresso a Santarém, um dos mais indefectíveis Briosos.

Como era de esperar, no primeiro jogo com o Carcavelinhos Futebol Clube de Lisboa, a Académica sofreu pesada derrota, vindo a vingar-se um pouco mais tarde, ao conquistar a Taça Junta Distrital de Santarém e a Taça Governo Civil do Distrito de Santarém.

A Académica acabou por ser derrotada por 1-0, com uma arbitragem considerada de “escandalosa”, o que levou a uma grande indignação no final do jogo, a que só Celestino Graça conseguiu pôr cobro.

A final realizou-se em Santarém, entre o clube de Lisboa e o Sporting da Covilhã. Venceu este clube que ascendeu à Primeira Liga, enquanto o Carcavelinhos acabou por entrar numa fusão de clubes da qual nasceu o Atlético Clube.

Esta hegemonia foi-se esbatendo, pois, ao contrário do que era de esperar, formando a equipa com alunos das academias da cidade, optou-se por trazer elementos que, embora se tornando verdadeiros amigos da Académica, levaram a um desinteresse dos que aqui existiam.

Tal facto originou a perda total dessa hegemonia, a qual só veio a ser recuperada, pela última vez, na época de 1946/47, em que se sagrou campeã, terminando nessa data a existência da categoria de seniores.

Fizeram parte dessa derradeira equipa de seniores os seguintes elementos: José Melro, Orlando Oliveira, Fernando C. Neves, Augusto Madeira, Humberto Oliveira, Grimoaldo Duarte, Pina, José Menaia, José Martins, Romão e António Cachado.

Mas algo estava latente na mística da Briosa. Eis, então, que Augusto Madeira, um dos sobreviventes da última equipa, lança mão da formação da categoria de juniores, já que se tornava impossível manter a de seniores, dado os estudantes acabarem cedo os seus estudos, quer no Liceu quer na Escola Agrícola.

O trabalho deste grande Brioso foi hercúleo e, partindo do nada, conseguiu formar equipas durante vários anos, que foram não só campeões distritais, como se bateram galhardamente nos campeonatos nacionais, contra equipas muito mais poderosas.

Após essas décadas de trabalho, Augusto Madeira achou por bem retirar-se. Embora a massa humana não fosse tão rica, não se deixaram os créditos por mãos alheias, ao mesmo tempo que foi criado o escalão de juvenis.

É então que aparece Jorge Chaves que, tornando-se director para o futebol, soube incrementar essa secção, criando vários escalões de praticantes e trazendo, de novo, o verdadeiro sentido da sua dimensão e dos seus ideais.

Foram épocas sucessivas de triunfos, fazendo reviver um passado distante e levando o nome da Académica de Santarém por essa Europa fora, enquanto em Portugal e em Santarém se realizavam os mais famosos torneios com as melhores equipas, ao tempo, existentes.

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