“Laura, em fuga de um passado atribulado, refugia-se no Entroncamento para reconstruir a sua vida. Dividida entre um emprego honesto e os esquemas de pequeno crime, cruza-se com uma juventude desencantada não muito diferente de si”, é esta a sinopse de Entroncamento, filme do realizador português Pedro Cabeleira que traça o retrato de um território periférico em que as partidas e chegadas convivem com a estagnação e a desigualdade de oportunidades de uma juventude tardia. 

Em entrevista ao Correio do Ribatejo, o cineasta natural da cidade do Entroncamento desvenda mais detalhes sobre a sua obra cinematográfica mais recente e faz um balanço do seu percurso no mundo da sétima arte. 

O filme Entroncamento chega às salas de cinema nacionais no próximo dia 26 de Março, naquela que é a segunda longa-metragem do realizador Pedro Cabeleira que retorna, assim, à sua cidade natal, desta vez para gravar um filme seu. 

“Era uma coisa que eu queria muito fazer há já alguns anos. Consegui financiamento para fazer o filme e fiquei muito contente”, refere Pedro Cabeleira que voltou a reencontrar uma velha realidade conhecida. 

“Foi voltar a recordar coisas, passar por sítios que conhecia, olhar para a cidade de uma maneira mais cinematográfica, do ponto de vista de sensações e do que é que esta transmitia. Todo esse processo foi extraordinário”, conta. 

Um processo que levou o realizador não só a recordar memórias de infância, como também a descobrir novas realidades existentes na cidade.

“As principais alterações da cidade são um reflexo da falta de políticas de habitação que existem neste país, que não protegem os seus locais e isso faz com que as pessoas sejam empurradas cada vez mais longe para os seus locais de trabalho”, afirma. 

Deste modo, o novo filme do cineasta é um retrato de um território periférico que funciona como metáfora de trânsito e de suspensão do tempo, baseando-se em várias histórias e acontecimentos reais. 

“Foi pegar em situações que pudessem ser reais para a natureza da cidade e depois trabalhá-las com os actores para darem um bocadinho de si às personagens”, descreve. 

O elenco é composto por Ana Vilaça, Cléo Diara, Rafael Morais, Tiago Costa, Sérgio Coragem, André Simões e Henrique Barbosa. Pedro Cabeleira, procurou durante o decorrer das filmagens transmitir as suas ideias e visão aos actores.

“São bons actores, pessoas da cidade que também conheciam a realidade. Portanto, foi só estar atento a quem eram estas pessoas, o que é que elas podiam dar ao filme e depois trabalhar em conjunto com elas, perceber o que é que sentiam em relação às histórias, aos seus personagens e que contributos também queriam dar”, desvenda. 

Para além dos actores, também a própria população local ajudou na produção da longa-metragem.

“O filme só foi possível com a comunidade a querer contribuir e participar com uma curiosidade genuína. Só assim foi possível fazer um filme que mostrasse a paisagem da cidade para o resto do país”, vinca. 

Em Entroncamento, há uma juventude à margem, marcada pela desigualdade de oportunidades e pelo desejo de fuga de uma vida estagnada. À semelhança do seu filme anterior, Verão Danado (2017), esta fase de vida voltou a despertar o interesse do cineasta, em capturar a sua essência e natureza. 

“Havia temas comuns que nós partilhamos enquanto geração como a precariedade, a ausência de expectativas, as coisas que queremos fazer, a forma como falamos. Isso eram coisas que eu precisava de trabalhar enquanto estivesse próximo delas. Também senti que faltavam retratos de juventude que fossem mais fiéis às pessoas, porque em Portugal a juventude é retratada principalmente por pessoas mais velhas”, explica. 

Numa região de partidas e chegadas, de muitos forasteiros e a pouca distância de Lisboa, encontramos, além de uma juventude retratada nas personagens, o reflexo da multiculturalidade, do crescimento da imigração, da misoginia e da violência de género, mas também da esperança, da resiliência e da vontade de sobreviver contra todas as probabilidades. 

“Eu não quero que o filme esteja num posicionamento muito crítico. Quero que o filme retrate uma realidade, seja justo para essa realidade e que aborde questões que são efectivamente fracturantes, que actualmente são muito actuais e fazem parte do que é o nosso país. No fundo fazer um retrato do interior do país”, reitera. 

Uma realidade que Pedro Cabeleira considera ter, no entanto, pouca representação no cinema nacional. 

“Aquilo que é representado também tem de ser plural. E eu sentia que ou filmava-se muito os grandes centros urbanos ou se ia para os meios pequenos. E faltava este intermédio que eu conhecia muito bem, no qual eu tinha crescido. São geografias que também têm de ser filmadas”, defende.  

O filme teve estreia mundial no Festival de Cannes, tendo sido seleccionado para a prestigiada secção ACID, e estreia nacional no LEFFEST, no final de 2025, arrecadando ainda o prémio de Melhor Realização, no festival Caminhos do Cinema Português.

“Não é muito fácil conseguir colocar os filmes nestes festivais que são fundamentais, de um ponto de vista de mercado e como os mesmos [filmes] são vistos em Portugal. É o caso do Festival de Cannes que ajudou a mediatizar o filme na altura, a chamar a atenção em Portugal, como também para que o filme circulasse globalmente. Os filmes não são só feitos para estrear em Portugal, são feitos para ter um percurso internacional”, reitera.

Natural do Entroncamento, onde a sua família ainda reside, com 18 anos Pedro Cabeleira foi estudar para Lisboa, licenciando-se em Cinema pela Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa. Actualmente conta no seu currículo com a realização do filme Verão Danado (2017), que ganhou uma menção do júri em Locarno e foi seleccionado para vários festivais internacionais, e a curta-metragem By Flávio (2022), que estreou na Berlinale Shorts e ganhou o Prémio Sophia de Melhor Curta-Metragem (Academia Portuguesa de Cinema), ao quais se junta agora Entroncamento (2025).

“Acho que são filmes que têm ressoado no público, nas pessoas e tenho estado muito satisfeito com o percurso que tenho até agora”, admite. 

Questionado sobre as expectativas para a estreia da longa-metragem a 26 de Março, Pedro Cabeleira espera que, acima de tudo, as pessoas vão às salas de cinema ver a sua obra.

“O cinema é uma experiência partilhada e é uma experiência de grande formato. É suposto ser uma coisa única que depois em casa nunca é a mesma coisa. Quero que as pessoas se comovam com a história destes personagens, que as façam pensar sobre o mundo em que vivem e que se identifiquem”, conclui. 

Com argumento de Pedro Cabeleira e Diogo Figueira, e a direcção de fotografia a cargo de Leonor Teles, Entroncamento estreia nas salas de cinema de todo o país, com destaque para as salas ribatejanas, presentes no TorreShopping (Torres Novas) e W Shopping (Santarém).

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