Deixou definitivamente de ser apenas um serviço técnico para se afirmar como um dos grandes desafios estratégicos dos territórios. Criada como empresa municipal para assegurar todo o ciclo urbano da água no concelho — da captação ao tratamento, da distribuição ao saneamento —, a AS chega à idade adulta com um modelo de gestão pública consolidado, uma identidade própria no sector e uma visão de longo prazo assente na sustentabilidade, no investimento e na proximidade aos munícipes.

Para Ramiro Matos, presidente do Conselho de Administração, este percurso representa “um processo de consolidação institucional e técnica num serviço essencial e permanente”, que permitiu afirmar a empresa como um operador inovador, com capacidade de planeamento, equipas qualificadas e uma cultura exigente de serviço público. Entre a modernização tecnológica, a adaptação às exigências ambientais e regulatórias, o reforço das redes e infraestruturas e a construção de uma relação de confiança com a população, a Águas de Santarém entra nos próximos anos com um plano de investimentos ambicioso, desafios estruturais no saneamento e a convicção de que a água é hoje “um bem essencial, finito e estratégico”, cuja gestão exige visão intergeracional, responsabilidade pública e governação transparente.

 

A Águas de Santarém assinala 18 anos de actividade. Que balanço faz deste percurso e que momentos considera decisivos para afirmar a empresa como um operador de referência no concelho?

Fazer 18 anos, apenas contando o percurso da empresa municipal, é, antes de mais, reconhecer um percurso de consolidação institucional e técnica num serviço que é essencial e permanente. O balanço é claramente positivo: a Águas de Santarém tornou-se um operador inovador, com capacidade de planeamento, com equipas qualificadas e com uma cultura de serviço público muito exigente.

Existiram momentos decisivos: a consolidação do modelo de empresa municipal como instrumento eficaz de gestão, o reforço progressivo do investimento em redes e infraestruturas, a melhoria sistemática dos indicadores de qualidade do serviço e, muito importante, o aprofundamento de uma relação de proximidade com os munícipes, que são o nosso principal foco.

 

Ao longo destas quase duas décadas, a empresa acompanhou profundas transformações técnicas, ambientais e regulatórias. Em que medida a Águas de Santarém conseguiu adaptar-se a essas exigências sem perder a proximidade aos munícipes?

A adaptação foi feita com um princípio simples: modernizar sem desumanizar. O sector mudou, a regulação tornou-se mais exigente, os padrões ambientais e de saúde pública apertaram, e ainda bem, quando não são exagerados. Tenho tolerância zero ao exagero. A resposta foi reforçar competências, processos e tecnologia, mas mantendo canais de atendimento eficazes e próximos, comunicação clara e uma cultura de terreno.

Temos de cumprir normas cada vez mais complexas e, ao mesmo tempo, explicar aos cidadãos porque é que determinadas opções são necessárias. Essa pedagogia pública é parte do nosso trabalho, que não pode ser descurado e em que investimos.

A água é hoje um recurso cada vez mais escasso e estratégico. Que papel deve assumir uma empresa municipal na gestão responsável da água num contexto de alterações climáticas e maior pressão sobre os sistemas?

Um papel central. A empresa municipal tem de estar na primeira linha da adaptação climática: reduzir perdas, aumentar eficiência, proteger origens de água, garantir resiliência operacional e planear investimentos, pelo menos a 10 anos, independentemente dos ciclos políticos.

E há uma dimensão cultural: promover consumo responsável e literacia hídrica. A gestão da água não é só engenharia, mas também confiança pública e comportamento colectivo.

 

O modelo da Águas de Santarém assenta na gestão privada de um serviço público essencial. Que vantagens identifica neste modelo face a outras soluções existentes no sector da água?

A principal vantagem é a orientação para o interesse público. Num serviço essencial, a prioridade não pode ser a maximização do lucro, mas sim a continuidade do serviço, a qualidade, a equidade e o investimento sustentado.

Uma empresa municipal bem gerida consegue conjugar proximidade ao território, conhecimento local e responsabilidade social, com exigência técnica e rigor financeiro. O facto de termos um acionista público não dispensa eficiência, mas muito pelo contrário, exige-a, porque cada euro tem de ser justificado perante a comunidade.

Também permite não perder identidade e poder de gestão de âmbito municipal, quando a dimensão de Santarém permite estarmos sozinhos sem perder eficiência, e sobretudo ganhando em qualidade. Conseguimos diferenciarmo-nos na região e no país, como o demonstram os sucessivos reconhecimentos.

 

A empresa aprovou recentemente um novo orçamento e um plano de investimentos ambicioso. Quais são as prioridades estratégicas para os próximos anos e que impacto terão no território e na qualidade do serviço prestado?

Aprovámos o maior dos orçamentos em 5 anos. As prioridades são claras: (i) reforço e reabilitação das redes, com enfoque na redução de perdas e na melhoria da fiabilidade do abastecimento; (ii) modernização e reforço das infraestruturas de saneamento, com foco em capacidade, eficiência energética e cumprimento ambiental; (iii) digitalização e gestão inteligente dos sistemas; e (iv) investimento contínuo em recursos humanos e segurança operacional.

O impacto é muito concreto: maior cobertura, menos ruturas, melhor qualidade e continuidade do serviço, maior robustez em eventos extremos e, no saneamento, melhor desempenho ambiental e maior valorização do território.

 

Entre os investimentos estruturantes está o projecto da nova ETAR de Santarém. Que importância terá esta infraestrutura para o futuro do saneamento no concelho e para o cumprimento das metas ambientais nacionais e europeias?

A nova ETAR é uma peça estruturante. Contudo ainda não vai ser possível avançar em 2026, pois não queremos sacrificar os munícipes com mais esperes taxas e estamos a estudar o melhor modelo de financiamento para este investimento.

O saneamento não é um tema “invisível”, é saúde pública, é ambiente, é qualidade de vida e é também competitividade do território.

Esta infraestrutura permitirá responder a necessidades presentes e futuras, reforçar a capacidade de tratamento, melhorar o desempenho ambiental e alinhar o concelho com as metas nacionais e europeias. É um investimento de longo prazo, com impacto intergeracional.

 

A actualização do tarifário para 2026 foi enquadrada como moderada e alinhada com a inflação. Como se concilia a necessidade de investir com a preocupação de não penalizar excessivamente as famílias e as empresas?

Com transparência, rigor e equilíbrio. O sector da água tem uma característica incontornável: é intensivo em capital. As redes e as ETAR são caras, têm ciclos longos e exigem manutenção permanente.

A gestão tarifária tem de assegurar sustentabilidade financeira para garantir investimento e qualidade, mas deve fazê-lo de forma gradual, previsível e socialmente sensível. Alinhar com a inflação é uma forma de evitar choques tarifários e proteger os utilizadores, mantendo ao mesmo tempo a capacidade de execução do plano de investimentos. Porém, os grandes investimentos vão obrigar a aumentos ligeiramente superiores nos próximos anos. A água ainda continua a ser um bem muito barato, atendendo à sua importância e escassez.

 

A justiça tarifária tem sido um dos argumentos centrais da administração. De que forma os mecanismos de tarifário social, apoio às IPSS e soluções para utilizadores sem ligação à rede de saneamento contribuem para esse equilíbrio?

Contribuem de forma decisiva. Justiça tarifária significa que a política de preços não pode ser cega à realidade social e territorial. O tarifário social protege famílias em situação de maior vulnerabilidade; o apoio às IPSS reconhece o seu papel comunitário; e as soluções para utilizadores sem ligação à rede de saneamento são uma forma de não criar desigualdades injustificadas entre munícipes em contextos diferentes.

Este equilíbrio é essencial: sustentabilidade do sistema, sim, mas com coesão social e com sentido de serviço público.

 

A Águas de Santarém tem sido distinguida pela qualidade do serviço e pelas práticas internas de gestão de pessoas. Até que ponto o investimento nos recursos humanos se reflecte directamente na qualidade do serviço ao consumidor?

Reflecte-se directamente. No fim do dia, o serviço não é prestado por organogramas, é prestado por pessoas: equipas de operação, manutenção, financeira, atendimento, engenharia, gestão.

Investir em formação, segurança, cultura de responsabilidade e valorização interna traduz-se em menos falhas, respostas mais rápidas, melhor relação com o consumidor e uma organização mais preparada para a complexidade regulatória e tecnológica do sector.

Temos menos absentismo, maior produtividade, maior eficiência e, logo, qualidade.

 

A relação com a entidade reguladora e o cumprimento das orientações da ERSAR são hoje centrais no sector. Como avalia o posicionamento da Águas de Santarém no contexto da regulação nacional?

Com sentido de responsabilidade. A regulação existe para proteger os consumidores, elevar padrões e garantir transparência, e isso é saudável. O nosso posicionamento é de colaboração institucional, cumprimento rigoroso e melhoria contínua.

Mais do que “cumprir”, interessa-nos usar a regulação como um instrumento de benchmarking e de exigência interna. E isso tem sido um motor de profissionalização do sector.

Temos uma boa posição no “ranking” nacional e procuramos cumprir com todas as orientações que são feitas para melhorar o serviço e cumprir com a legislação nacional e europeia.

 

Olhando para o futuro, quais são os principais desafios que a empresa antevê para a próxima década, quer ao nível técnico, quer financeiro e ambiental?

Vejo quatro grandes desafios: (i) Alterações climáticas e resiliência: eventos extremos, variabilidade hídrica e maior pressão sobre sistemas; (ii) Renovação de activos: redes envelhecidas exigem substituição e reabilitação com planeamento e investimento; (iii) Sustentabilidade económico-financeira: conciliar investimento, custos energéticos e capacidade de pagamento dos utilizadores; (iv) Transição tecnológica e de competências: digitalização, cibersegurança, automação e necessidade de talento especializado.

A resposta passa por planeamento, eficiência, captação de financiamento quando disponível e uma governação clara e transparente.

 

Por fim, aos 18 anos da Águas de Santarém, que mensagem gostaria de deixar aos munícipes sobre o valor da água e sobre o papel da empresa municipal na vida quotidiana do concelho?

A água é um bem essencial, finito e valioso, e o seu verdadeiro valor percebe-se quando falta. A Águas de Santarém existe para garantir, todos os dias, que esse bem chega com qualidade, segurança e continuidade às famílias e às empresas, e que o saneamento protege a saúde pública e o ambiente.

Aos munícipes deixo uma mensagem simples: cuidarmos da água é cuidarmos do nosso futuro colectivo. Do nosso lado, compromisso de rigor, proximidade e investimento responsável, porque servir Santarém é, para nós, uma missão.

 

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