Foi inaugurado hoje o Museu de Arqueologia da Igreja de Alcanede, cuja abertura juntou várias dezenas de pessoas para observarem pela primeira vez, o espólio resultante das obras de requalificação da igreja da vila e que representa vários séculos de história da freguesia e da própria região.

“A Igreja de Alcanede tinha problemas estruturais muito graves e a comunidade e o padre António Vicente mobilizaram-se para recuperá-la. Como se tratavam de problemas de fundação, a obra requereu a intervenção de arqueólogos”, referiu Tiago Moita, pároco da paróquia de Alcanede.

À medida que os arqueólogos foram encontrando um “espólio valioso”, ligado aos enterros realizados no antigo cemitério paroquial, a comunidade da vila começou “a sonhar em valorizar este património e em criar um museu de arqueologia da paróquia de Alcanede”, contou Tiago Moita.

Entre os vários objetos encontrados durante as escavações, destacam-se várias estelas funerárias, moedas medievais, terços do século XVII, botões de soldados das invasões francesas, para além do levantamento de cerca de 300 ossadas, que podem ser visionadas através de fotografias patentes no museu.

“Identificámos uma grande concentração de ossos e tivemos de abrir as valas todas à mão, nas traseiras e lateral sul da igreja. Escavámos cerca de um metro e dez, onde foi identificado uma necrópole com cerca de 400 anos de ocupação, ou seja, durante 400 anos utilizaram aquele espaço para enterrar pessoas, desde o século XV até ao século XX”, revelou Célia Silva, uma das arqueólogas que participou nas escavações do espólio da igreja.

Os trabalhos de escavação compreendidos entre 2020 e 2023, fizeram parte de um “processo difícil e demorado”, devido à grande concentração de enterramentos.

“É um trabalho mais minucioso, requer mais cuidado porque os ossos são frágeis. Tínhamos oito enterramentos por metro cúbico, é uma densidade de esqueletos muito grande, à qual acresce a dificuldade de uns estarem a cortar os outros e temos de perceber o que é que pertence a quem”, explicou Célia Silva. 

Questionada sobre a possibilidade de outras escavações arqueológicas na região e desenvolvimento de novos estudos sobre o espólio encontrado, Célia Silva adianta que está em cima da mesa uma candidatura a um fundo europeu, de modo a que se “prossigam a eventuais trabalhos pontuais” e que se respondam a “questões que ficaram em aberto”. 

Para Manuel Joaquim Vieira, presidente da Junta de Freguesia de Alcanede, o espaço cultural constitui um  “guardião da memória coletiva” da vila. 

“Cada peça aqui exposta carrega consigo pedaços de vida daqueles que nos antecederam. Homens e mulheres que com trabalho e esperança construíram os alicerces daquilo que hoje somos”, evocou. 

Com um custo total de mais de 26 mil euros e que envolveu apoios da Câmara Municipal de Santarém, da Junta de Freguesia de Alcanede, de entidades e particulares, o espaço cultural constitui uma “valorização do património e da história” da região, sublinhou, por sua vez, João Leite, presidente da Câmara Municipal de Santarém. 

“Aquilo que está aqui hoje é um património muito valioso para as gerações atuais e sobretudo para as gerações futuras, um testemunho que passa a estar no roteiro turístico do nosso concelho”, destacou o autarca. 

A inauguração do espaço cultural integrou o programa oficial das Festas de São José e foi antecedida por uma missa,  presidida pelo Bispo da Diocese de Santarém, D. José Traquina. 

O Museu de Arqueologia da Igreja de Alcanede poderá ser visitado aos domingos de manhã ou por marcações prévias, contactando a Junta de Freguesia de Alcanede. 

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