Alma Flora foi uma artista de excecional ecletismo e um nome MEMORÁVEL do panorama cultural luso-brasileiro do século XX. A sua carreira notabilizou-se pela vasta abrangência transatlântica e criativa: atuou no Cinema durante a afirmação dos filmes sonoros no Brasil, geriu a sua própria Companhia teatral numa época em que o teatro de repertório dominava, trabalhou como atriz radiofónica no apogeu da Radiodifusão e integrou o elenco pioneiro da Televisão em Portugal. Transitou com mestria por diferentes linguagens, formatos e públicos sem nunca se afastar dos palcos, enriquecendo o meio artístico português com a bagagem acumulada no Brasil e preservando uma dedicação absoluta ao Teatro até ao fim da vida.
Flora Jesus Carvalho, atriz nasceu em Lisboa, no dia 20 de agosto de 1911. Radicada no Brasil, construiu uma carreira eclética que acompanhou a modernização dos media e das artes performativas em ambas as nações. Apesar de a escassa documentação omitir os detalhes do seu início de carreira e da sua mudança de país, foi em solo brasileiro que viveu o período mais produtivo e marcante da sua vida profissional. Sob o nome de Alma Flora, a artista brilhou no teatro, no cinema e na rádio, alcançando o auge da sua popularidade e aclamação ao longo das décadas de 30, 40 e 50.
O sucesso da atriz coincidiu com a era de ouro das Companhias de reportório brasileiras, dominadas por figuras de cartaz e marcadas por constantes digressões. Alma Flora destacou-se neste meio não apenas como intérprete, mas também como empresária à frente de agrupamentos como a Companhia “Mesquitinha / Alma Flora” e a Companhia “Alma Flora”. O auge desta atividade empresarial ficou registado em 1947 com a produção de “Seremos Sempre Crianças”, de Paschoal Carlos Magno e encenação de Esther Leão, no Teatro Ginástico do Rio de Janeiro. Contando com um elenco de prestígio — onde pontuavam nomes como Laura Suarez, Lucília Perez e Aguinaldo Camargo, além da própria atriz —, a peça dinamizou o meio cultural carioca e imortalizou a sua competência na gestão teatral.
O prestígio de Alma Flora levou-a a contracenar com referências do Teatro brasileiro, como Bibi Ferreira e Procópio Ferreira, integrando em 1948 o elenco da bem-sucedida comédia “A Pequena Catarina”, em digressão pelo Rio de Janeiro e São Paulo. Na mesma época, afirmou-se no Cinema, além de incluir algumas das primeiras participações cinematográficas de futuros atores conhecidos, como Jorge Dória e Dary Reis. O percurso brasileiro de Alma Flora incluiu uma passagem marcante pela Rádio, o grande meio de comunicação de massas daquela era. Destacou-se como radio atriz radiofónica em Folhetins e Radionovelas que cativavam multidões, consolidando um estatuto que, em 1950, lhe valeu uma homenagem no programa “Perfil dum Artista”. Apresentada ao público como uma estrela luso-brasileira, a emissão serviu para passar em revista o percurso de sucesso que tinha construído no panorama artístico do país.
A sua assinatura artística refletia uma carreira construída além-mar que continuou a dar frutos no seu regresso a Portugal. Em 1956, fez história ao participar nos testes em circuito fechado da futura TV Tupi do Rio de Janeiro, contracenando com estrelas como Tônia Carrero e Virginia Lane. Realizado antes da estreia oficial das emissões da cadeia carioca, este marco colocou-a entre as primeiras intérpretes a desbravar o novo meio televisivo no Brasil.
De volta a Portugal em meados dos anos 50, Alma Flora reestreou-se nos palcos lisboetas após uma entrevista a Igrejas Caeiro em Agosto de 1955, integrando o espetáculo “Daqui Fala o Morto”, no Teatro Variedades. Pouco depois, participou no folhetim radiofónico “Estrela da Madrugada” (1956), escrito por Ferro Rodrigues e Santos Fernando para os Companheiros da Alegria do Rádio Clube Português. Transmitida no início de 1957, esta marcante produção radiofónica reuniu grandes nomes do Teatro luso-brasileiro, como Ruy de Carvalho, Canto e Castro e Bibi Ferreira. No enredo, Alma Flora deu vida a “Katherine”, contracenando diretamente com Bibi Ferreira, que interpretava a sua filha, “Grace”.
Com o início das transmissões regulares da RTP em 1957, Alma Flora encontrou um novo palco na Televisão portuguesa. Estreou em “Balada de Outono” (1957) e, em 1959, interpretou a marcante “Lady Bracknell” na adaptação de “Quanto Importa Ser Leal”, de Oscar Wilde. Seguiram-se outras produções dramáticas na primeira metade dos anos 60, incluindo “Primerose,” “Lourdes”, “Desta Água Não Beberei” e “A Menina Feia”. Estas participações colocaram-na entre os pioneiros que construíram as bases do teleteatro na RTP, numa época em que a ficção televisiva — emitida ao vivo ou gravada — se apoiava fortemente nos métodos de trabalho do teatro convencional e da rádio.
A nível cinematográfico, o regresso de Alma Flora a Portugal ficou marcado por participações em títulos emblemáticos do final dos anos 50 e início dos 60. Atuou na comédia “O Tarzan do 5.º Esquerdo” (1958), de Augusto Fraga, e fez de mestra no popular “A Costureirinha da Sé” (1959), de Manuel Guimarães. Com este último realizador voltou a filmar em 1964 em “O Crime de Aldeia Velha”, filme baseado na peça de Bernardo Santareno. Na pele da personagem Rita, partilhou o ecrã com figuras cimeiras da representação — como Rogério Paulo, Maria Olguim e Glicínia Quartin —, num trabalho onde a sua voz foi posteriormente dobrada por Cremilda Gil.
Em 1970 apareceu ainda em “A Maluquinha de Arroios”, adaptação da conhecida comédia de André Brun dirigida por Henrique Campos, interpretando “Capitolina”. Apesar da presença continuada no Cinema e na Televisão, o Teatro permaneceu um dos eixos fundamentais da sua carreira. Já numa fase avançada da vida, regressou ao Teatro da Trindade para integrar “Agnus Dei”, em 1984, e “Crisântemos e Malmequeres”, em 1985, trabalhos que comprovam a longevidade de uma atividade profissional de excelência.
Alma Flora faleceu em Lisboa no dia 23 de Junho de 1988. Uma referência incontornável da cultura luso-brasileira, Alma Flora foi uma atriz e empresária pioneira que moldou a era de ouro da Rádio, do Cinema sonoro e da televisão, mantendo uma devoção vitalícia ao Teatro em ambos os lados do Atlântico.
