Seis meses depois de tomar posse como presidente da Câmara Municipal de Almeirim, Joaquim Catalão já percebeu que o tempo da gestão autárquica nem sempre coincide com o tempo das decisões políticas. Chegou à presidência vindo de uma longa experiência na Junta de Freguesia de Almeirim, encontrou uma autarquia “muito sólida” do ponto de vista financeiro e recebeu de Pedro Ribeiro uma base de projectos que considera relevante. Mas encontrou também processos por concluir, financiamentos perdidos, projectos que tiveram de ser revistos e uma máquina administrativa onde lançar obra depende, muitas vezes, da entrega dos projectos, dos concursos públicos, da resposta dos empreiteiros e dos prazos impostos pelos fundos comunitários.
Nesta entrevista ao Correio do Ribatejo, o actual presidente da Câmara de Almeirim faz o balanço dos primeiros seis meses de mandato e assume que alguns dos investimentos mais emblemáticos terão de ser reformulados. O mercado municipal deixará de ter o desenho inicialmente previsto, não terá dois pisos nem Loja do Cidadão, e deverá avançar com uma intervenção mais contida, pensada para atrair serviços, restauração e movimento ao espaço. A creche municipal também será repensada: em vez de uma resposta de grande dimensão, com 92 lugares, a autarquia prepara agora um equipamento que possa articular creche, pré-escolar e salas de 1.º ciclo, numa zona onde estão projectados 168 fogos a custos controlados.
A habitação, a saúde, a educação e a economia continuam a ser os quatro eixos do mandato. Catalão aponta a reabilitação e futura ampliação do Centro de Saúde, a requalificação da Escola Secundária Marquesa de Alorna, a construção de habitação acessível e a revisão do PDM como dossiers decisivos para os próximos anos. Na economia, acredita que Almeirim entrou “na primeira liga” da atracção de investimento depois da instalação da Mercadona e revela que tem recebido contactos regulares de empresas interessadas em instalar-se no concelho, incluindo uma proposta ligada à indústria automóvel que exigia 100 hectares, mais 50 de reserva. A expectativa é que a revisão do PDM permita disponibilizar entre 150 e 200 hectares para actividade industrial.
Sem negar a continuidade política em relação a Pedro Ribeiro, a quem atribui uma herança financeira saudável e um legado que valoriza, Joaquim Catalão procura afirmar uma marca própria. Diz que trabalha mais em equipa, delega mais nos vereadores e quer manter a proximidade que trouxe da Junta de Freguesia. Continua a gostar que o tratem por “Quim”, reserva tempo para sair do gabinete, visita juntas de freguesia, almoça em escolas e defende uma presidência que não se mede apenas pelas grandes obras, mas também pela capacidade de resolver problemas concretos da vida das pessoas.
O mandato, garante, está pensado para mais do que quatro anos. Joaquim Catalão assume que, se chegar ao fim deste ciclo com o trabalho encaminhado e com condições políticas para continuar, será candidato em 2029. Até lá, quer avançar com obras estruturantes, responder aos estragos das cheias, reforçar a identidade cultural e gastronómica do concelho, captar investimento hoteleiro e industrial e deixar uma marca que resume numa ideia simples: ser lembrado como um presidente preocupado com a qualidade de vida dos almeirinenses.
Cumpridos os primeiros seis meses de mandato, que retrato faz do estado do concelho que recebeu e do ponto em que se encontra hoje a Câmara Municipal de Almeirim?
Antes de mais, quero agradecer a vossa presença. Passados estes seis meses, posso dizer que muitas das coisas que pensei que poderia resolver rapidamente acabaram por não ser tão simples como imaginava. Há vários problemas que se vão colocando, há procedimentos que dificultam a concretização de determinados objectivos e há projectos que gostaríamos que já estivessem a decorrer, mas que ainda não estão nessa fase.
Encontrei uma Câmara Municipal muito sólida do ponto de vista financeiro e com muitos projectos para concretizar. O Pedro Ribeiro deixou muitos projectos preparados. No entanto, tivemos de fazer uma avaliação de alguns deles, nomeadamente o mercado municipal e a nova creche, porque entendemos que era necessário olhar para esses investimentos com outra visão.
Reconheço que o Pedro Ribeiro tinha uma visão sólida para esses projectos. Eram ideias pensadas há vários anos e estavam muito ligadas à possibilidade de financiamento através do PRR. O problema é que esses fundos acabaram por não se concretizar, sobretudo por dificuldades nos prazos e na execução dos projectos. Essa é, aliás, uma dificuldade que sinto que é transversal: queremos lançar obra, temos intenção de avançar, mas há atrasos na entrega dos projectos que depois impedem a abertura dos concursos.
No caso do mercado municipal e da creche, o que aconteceu foi que perdemos financiamentos muito significativos. São muitos milhões de euros e a capacidade da Câmara, por si só, para executar obras dessa dimensão é limitada. Por isso, tivemos de fazer escolhas e de repensar algumas soluções.
No mercado municipal, vamos ter de refazer a reabilitação. Não vamos avançar com a obra tal como estava prevista anteriormente. Será uma intervenção mais simples, com apenas um piso, e já não está prevista a instalação da Loja do Cidadão naquele espaço, porque não temos capacidade financeira para concretizar esse modelo. O objectivo passa agora por criar condições para atrair ali um serviço que leve pessoas ao mercado e, ao mesmo tempo, instalar alguma restauração, para gerar movimento e dar vida às bancas que ali possam funcionar.
O projecto inicial apontava para um investimento na ordem dos seis milhões de euros e previa dois pisos. Neste momento, isso é totalmente impensável. Vamos ter de reduzir substancialmente o valor da obra, sem abandonar a ideia de requalificar o mercado e de lhe dar uma nova dinâmica.
Em relação à creche, também perdemos o financiamento. Ainda assim, a obra chegou a ser lançada com uma estimativa de dois milhões e 400 mil euros, mas a proposta mais próxima apresentou um valor de três milhões e 400 mil euros. Ou seja, mais um milhão do que a previsão inicial. Depois, sabemos que as obras têm sempre custos adicionais e ainda seria necessário equipar a creche. Estávamos a falar de um investimento que poderia chegar aos quatro milhões de euros ou mais.
Por isso, repensámos a necessidade. Falámos com as instituições e percebemos que as IPSS estão, neste momento, mais voltadas para a criação de lugares de creche. A Santa Casa da Misericórdia vai abrir este ano 30 lugares e começámos a perceber que uma creche municipal com 92 lugares talvez não fosse necessária. Poderíamos correr o risco de não a encher ou, para a encher, retirar crianças às IPSS, duplicando respostas que já estão a ser preparadas.
Neste momento, a grande pressão está no pré-escolar e também no primeiro ciclo. Temos um terreno onde está projectada a construção de 168 apartamentos a custos controlados e, nessa urbanização, foram reservados dois lotes de terreno com quatro mil metros quadrados cada um. Um será destinado à Santa Casa da Misericórdia para a construção de uma ERPI e o outro ficará reservado para um equipamento escolar.
É nesse lote que queremos avançar com uma resposta que inclua pré-escolar, creche e algumas salas de primeiro ciclo. Dessa forma, respondemos melhor às necessidades actuais, podemos fasear a construção ao longo dos anos e, provavelmente, conseguimos fazê-lo com um investimento inferior ao que estava previsto para a creche inicial. Portanto, não abandonámos a ideia de construir uma creche; vamos é refazer o projecto e alterar o local onde essa resposta será criada.
Entre as obras estruturantes que transitam para este mandato está a Circular Urbana. Em que ponto está esse projecto e que impacto poderá ter na mobilidade dentro da cidade de Almeirim?
A Circular Urbana é, sem dúvida, uma obra estruturante para Almeirim. Neste momento estamos a aguardar a possibilidade de fazer a escritura de um terreno que a Compal vai ceder ao município. Há ainda uma diferença de áreas que tem de ser legalizada e é isso que estamos a tentar resolver.
Faltam dois troços para concluir a ligação. Um deles passa por dentro do terreno da Compal e o último fará a ligação à Estrada Nacional 118. Mesmo antes de estar concluída toda a Circular Urbana, esse troço que atravessa a zona da Compal já permitirá retirar muito trânsito do centro de Almeirim.
Depois de feita essa ligação, ficaremos apenas com cerca de 200 ou 300 metros por executar até à ligação final à EN118. Quando conseguirmos concluir toda a Circular Urbana, a nossa intenção é tentar desclassificar a Nacional 118 dentro da cidade, para retirar o trânsito pesado do centro urbano.
Há horas em que atravessar Almeirim é complicado, precisamente por causa desse trânsito. Por isso, esta obra é importante não apenas do ponto de vista da mobilidade, mas também da qualidade de vida das pessoas que vivem, trabalham ou circulam diariamente na cidade.
Esteve vários anos ligado à Junta de Freguesia de Almeirim, primeiro como eleito e depois como presidente. O que muda, na prática, quando se passa da gestão de uma freguesia para a liderança de um município?
Estive 32 anos ligado à freguesia de Almeirim. Durante 20 anos acompanhei o Joaquim Sampaio como segundo da lista, ao longo de cinco mandatos, e depois cumpri três mandatos como presidente da Junta de Freguesia. Por isso, a freguesia de Almeirim não tem segredos para mim.
Conheço muito bem o concelho, mas é evidente que, agora, os meus olhos têm uma visão diferente. Já não estão voltados apenas para Almeirim. Têm de ter uma visão integrada de todo o concelho. O trabalho é completamente diferente, obriga-nos a circular por todo o território, a multiplicar a atenção e a perceber que todas as freguesias precisam de respostas.
Temos de olhar para Almeirim, mas também para Fazendas de Almeirim, Benfica do Ribatejo e Raposa. É necessário garantir equidade naquilo que são as obras e os investimentos a realizar em cada freguesia. Essa é uma preocupação permanente.
Neste momento, temos vários projectos em preparação, mas continuamos a aguardar que os projectistas nos entreguem os documentos necessários para podermos lançar os concursos. Temos dinheiro para fazer obra; a dificuldade está, muitas vezes, na entrega dos projectos e, depois, também na concretização das empreitadas.
Quando lançamos uma obra e o valor não é atractivo para os empreiteiros, os concursos ficam vazios. Por isso, aquilo que temos procurado fazer é juntar várias intervenções num mesmo lote, dando-lhes maior dimensão, para tornar esses concursos mais interessantes para quem os possa executar.
A sua candidatura foi apresentada como uma solução de continuidade dentro do Partido Socialista, depois de Pedro Ribeiro ter atingido o limite de mandatos. Sente que está a governar com uma herança pesada ou, pelo contrário, com uma base sólida para afirmar uma marca própria?
Recebi um concelho com finanças muito saudáveis e com projectos deixados pelo Pedro Ribeiro para concretizar. Acho que é uma herança que qualquer autarca gostaria de receber, sobretudo quem chega pela primeira vez à presidência de uma Câmara Municipal.
É claro que, apesar de este ser um projecto de continuidade, a forma de governar e a forma de estar são diferentes. Isso é natural. Tenho diferenças em relação ao Pedro Ribeiro na forma de gerir e de tomar decisões.
Uma dessas diferenças é o trabalho em equipa. Gosto muito de trabalhar com os meus vereadores, de discutir os assuntos com eles e de lhes delegar responsabilidades. No fim do dia, o responsável é sempre o presidente da Câmara, mas valorizo muito esse trabalho colectivo. O Pedro Ribeiro tinha uma forma de estar diferente, concentrava muito nele as decisões e o trabalho. Eu vejo a gestão autárquica de uma forma mais partilhada.
Depois, há também a relação com as pessoas. Gosto muito do contacto directo, de estar próximo, de ouvir. A minha forma de estar não se alterou por ter passado de presidente da Junta para presidente da Câmara. Continuo a ser a mesma pessoa e continuo a ser tratado por Quim, porque foi sempre assim que fui conhecido em Almeirim.
As pessoas continuam a chamar-me ‘Quim’ e eu gosto que isso aconteça. Naturalmente, sabem distinguir os momentos institucionais dos momentos do dia-a-dia. Numa cerimónia ou num acto oficial, tratam-me por senhor presidente, como é normal. Mas, se me encontram na rua, continuam a tratar-me como sempre me trataram. E eu acho isso importante, porque essa proximidade faz parte da minha maneira de estar.
Falou dessa relação próxima com as pessoas. Como é que essa proximidade se traduz no dia-a-dia da presidência da Câmara? Continua a manter os seus rituais de contacto directo com a população?
Dentro do possível, sim. Normalmente entro na Câmara por volta das 8h30, faço o despacho e depois tudo depende da agenda. A grande diferença é que, na Junta de Freguesia, a agenda era muito mais livre. Na Câmara, não. Aqui somos absorvidos por uma dinâmica muito grande e, muitas vezes, corremos o risco de andar em modo automático. Isso não pode acontecer.
Por isso, já comecei a dizer à minha equipa que há dias em que é preciso reservar uma manhã ou uma tarde sem compromissos marcados, para eu poder sair, ver obras, circular pelo concelho e também pensar. Há momentos em que precisamos de sair do gabinete para perceber melhor o território.
Continuo a gostar de pegar no carro e ir beber um café a uma localidade do concelho. Há dias fui a Marianos, simplesmente para dar uma volta, tomar café e falar com pessoas. Esse contacto é muito importante.
Também temos procurado manter uma relação muito próxima com as juntas de freguesia. Mensalmente visitamos as juntas. Às quartas-feiras reunimos com uma junta e, passados 15 dias, com outra. Depois, por norma, os dois executivos acabam por almoçar em conjunto, escolhendo sempre um sítio diferente. É uma forma de criar proximidade, de estar no terreno e de permitir que as pessoas sintam que existe um executivo municipal próximo.
Além disso, todas as semanas vamos almoçar a uma escola. No fim do almoço, geralmente vamos tomar café a um café próximo da escola ou naquela freguesia. É mais uma forma de estarmos presentes, de ouvirmos as pessoas e de percebermos os problemas que nos apresentam.
Esse contacto directo sempre fez parte da minha forma de estar enquanto presidente da Junta de Freguesia e quero mantê-lo enquanto presidente da Câmara Municipal. Sei que nem sempre há tempo disponível para o fazer, mas, sempre que é possível, faço questão de o manter.
Para além de Almeirim, que era a realidade que conhecia melhor, que retrato faz das restantes freguesias do concelho? Encontrou territórios estáveis, com dinâmicas próprias, ou freguesias com muitas necessidades por resolver?
As freguesias estão estáveis, têm projectos e continuam com uma grande dinâmica. Tivemos consciência das pessoas que escolhemos para encabeçar as listas às juntas de freguesia. Eram pessoas fortes, competentes e capazes de fazer um bom trabalho.
Conhecia praticamente todos. Já tinha trabalhado com o Joaquim Miguel, que chegou a fazer parte do meu executivo na Junta de Freguesia de Almeirim e que depois foi para a Junta de Freguesia de Fazendas de Almeirim, porque é de lá. Também já trabalhava com o António José, da Raposa, que fazia parte do executivo da Junta da Raposa. A Helena Fidalga, em Almeirim, conheço-a há muitos anos.
A única pessoa que eu não conhecia tão bem, sinceramente, e que foi uma agradável surpresa, foi a Ana Teresa Saldanha Lopes, de Benfica do Ribatejo. Passados estes primeiros seis meses, posso dizer que estou muito orgulhoso das escolhas feitas e confio muito nas equipas que temos nas freguesias.
Cada freguesia tem as suas características e as suas necessidades. O papel da Câmara é apoiar esse trabalho e garantir que existe uma visão de conjunto. Estamos disponíveis para trabalhar em conjunto com todas as juntas, acompanhando aquilo que nos vão solicitando e procurando responder às prioridades de cada território.
Para mim, é fundamental que exista equilíbrio. A Câmara não pode olhar apenas para Almeirim. Tem de olhar para Fazendas de Almeirim, para Benfica do Ribatejo, para a Raposa e para todos os lugares do concelho com a mesma preocupação de proximidade e de equidade.
Que projectos quer ver nascer nas freguesias ao longo deste mandato, sobretudo nas áreas da cultura, do património e da valorização do território?
Em Benfica do Ribatejo, há um projecto que consta do nosso programa e que passa pela criação de um museu. Inicialmente falou-se no Museu do Traje, mas entretanto surgiu a ideia de avançarmos com um museu ligado à pesca, ao pescador, ao Tejo e à agricultura.
Acho que faz todo o sentido criar esse museu em Benfica do Ribatejo, porque ainda existe ali uma comunidade muito ligada ao Tejo e permanecem muitas tradições associadas à pesca, ao rio e à agricultura. O Museu do Traje será feito em Almeirim, mas este outro projecto, ligado ao Tejo e ao pescador, poderá ter em Benfica do Ribatejo o seu lugar natural.
Estamos a apostar muito na cultura como forma de captar pessoas e de as fazer permanecer mais tempo em Almeirim. Queremos criar programas culturais e uma oferta cultural ligada ao nosso património, para além dos eventos que vamos organizando no IVV e do turismo gastronómico, que já é muito forte no concelho.
A ideia é conjugar tudo isto. Queremos que quem vem a Almeirim não fique apenas um dia, mas possa permanecer mais tempo. Para isso, queremos criar rotas turísticas, avançar com o Museu Municipal, com o Museu do Traje e, em Benfica do Ribatejo, com esse museu ligado ao Tejo, ao pescador e à agricultura.
Esta é uma visão que não se esgota num mandato. Estamos a falar de uma ideia para 12 anos. Há obras que certamente não conseguiremos fazer já neste mandato, porque financeiramente não é possível concretizá-las todas ao mesmo tempo. Mas queremos começar a preparar esse caminho.
Se tiver a oportunidade de cumprir três mandatos, gostava que esta fosse uma marca: associar a cultura ao desenvolvimento económico. Acho que Almeirim tem muito a ganhar com essa ligação entre património, identidade, turismo e economia.
O protocolo celebrado na Quinta da Alorna é um exemplo desse caminho. Se conseguirmos divulgar melhor a nossa história e trabalhar de forma integrada com outros municípios, podemos tornar o território mais atractivo. Sozinhos, dificilmente conseguimos captar turistas para passarem uma semana na nossa região. Mas, se trabalharmos em conjunto com Salvaterra de Magos, Alpiarça e Santarém, estes quatro municípios podem criar uma oferta integrada capaz de trazer pessoas, dinamizar a economia e deixar riqueza no território.
Há também uma necessidade muito clara: captar investimento hoteleiro. Almeirim precisa de uma unidade com dimensão suficiente para responder às solicitações que já existem. Temos cada vez mais eventos no IVV que duram dois ou três dias, alguns com 500 ou 600 pessoas, e neste momento temos dificuldade em alojar quem nos procura.
Muitas dessas pessoas acabam por dormir em Santarém e, nalguns casos, nem Santarém consegue dar resposta. Há eventos em que os participantes acabam por ir para Fátima ou para Lisboa. Por isso, captar um investimento hoteleiro é uma prioridade. Temos um terreno numa localização privilegiada, que permite a construção de um hotel com alguma dimensão. Se houver investidor, não será por falta de terreno que esse projecto deixará de avançar.
Antes das eleições apontou quatro eixos prioritários para o mandato: educação, habitação, saúde e economia. Ao fim destes primeiros seis meses, qual destes dossiers se revelou mais urgente ou exigente do que previa?
Todos esses dossiers têm muita importância para nós. Na saúde, estamos neste momento a fazer a reabilitação do Centro de Saúde e, numa segunda fase, avançaremos para a ampliação. A preocupação imediata é concretizar esta primeira fase em tempo útil, porque temos ali um milhão e 200 mil euros do PRR e a obra tem de estar concluída até ao final de Julho para podermos receber esse apoio.
Depois virá a ampliação, que será uma segunda fase e já terá de ser suportada pela autarquia. Mas está prevista e é uma obra que consideramos muito importante.
Na educação, como já referi, tínhamos a questão da creche, mas decidimos fazer uma aposta diferente. Em vez de avançarmos apenas com uma creche no modelo inicialmente previsto, queremos criar um equipamento que dê resposta à creche, ao pré-escolar e também ao primeiro ciclo. Esse projecto já está a ser trabalhado com uma equipa de arquitectura.
Na habitação, há também um ponto muito importante. Temos aqueles 168 apartamentos a custos controlados e, em breve, queremos começar com as infraestruturas do loteamento. Estamos apenas à espera que o projectista nos entregue o projecto de infraestruturas para podermos avançar.
Depois teremos de perceber que linhas de financiamento estarão disponíveis. A habitação é hoje um problema nacional e europeu. A própria União Europeia acordou para essa realidade e é natural que surjam novas linhas de apoio. Estamos atentos a isso, mas uma coisa é certa: ou através de financiamento da tutela ou, se for necessário, recorrendo à banca, teremos mesmo de começar a avançar.
Na economia, sentimos também uma grande responsabilidade. Com a instalação da Mercadona na zona de actividade económica, penso que Almeirim entrou numa primeira liga no que diz respeito à procura de espaços para instalação de empresas. Praticamente não há semana em que não receba pedidos de informação de investidores interessados no concelho.
O problema, neste momento, é a limitação de terrenos disponíveis para construção. Estamos a trabalhar na revisão do PDM e propusemos transformar uma área junto à Mercadona, entre 150 e 200 hectares, em terreno industrial. Essa proposta está agora em análise na CCDR e acredito que é viável. Se tudo correr como esperamos, a partir de Setembro poderemos ter essa área disponível para instalação de empresas.
E acredito que não faltarão interessados. Há cerca de três meses recebi uma proposta de uma empresa da área da construção automóvel que precisava de 100 hectares, mais 50 hectares de reserva. Não consegui dar essa resposta, com muita pena minha. Também temos tido procura para áreas de 10 hectares, de cinco hectares. Há muita procura e temos de criar condições para lhe responder.
O orçamento municipal ronda os 28 milhões de euros. Tendo em conta o aumento dos custos, a pressão sobre as matérias-primas e a necessidade de adiar ou reformular alguns projectos, há margem financeira para cumprir o essencial do programa eleitoral?
Neste momento, para aquilo que consideramos serem as obras prioritárias, existe margem financeira. Estamos a falar da Circular Urbana, da ampliação do Centro de Saúde, do início das infraestruturas do loteamento para construção dos apartamentos a custos controlados, do Museu Municipal, dos parques urbanos de Benfica do Ribatejo e de Fazendas de Almeirim, da recuperação do Pórtico de Paço dos Negros, de várias requalificações de estradas municipais e vias urbanas, da envolvente à Igreja de Foros de Benfica, e da construção de zonas de lazer na Azeitada e em Marianos.
Há dinheiro previsto para essas obras. Mas tivemos uma dificuldade adicional que não estava prevista: as tempestades e as cheias. Isso obrigou-nos a fazer um esforço suplementar em relação ao que tínhamos programado.
Neste momento já recebemos um milhão e 49 mil euros para a requalificação da Ribeira de Muge. Estamos na fase final do projecto e a obra deverá arrancar em breve. Esse valor não chegará para cobrir todos os custos da intervenção, mas permitirá suportar a maior parte. Queremos aproveitar essa requalificação para criar, numa das margens da ribeira, um circuito pedonal que responda também ao turismo de natureza, fazendo a ligação desde Marianos até Paço dos Negros.
A Ribeira de Muge foi uma das zonas mais atingidas pelas cheias, tal como o Parque de Merendas da Raposa, que é muito procurado pela população de Almeirim e por pessoas de fora do concelho. Estive lá recentemente com o vice-presidente, que tem o pelouro das obras, e vamos iniciar dentro de dias a sua requalificação. Ainda não temos financiamento para essa intervenção, mas teremos de a assumir.
No conjunto, apresentámos 13,5 milhões de euros de prejuízos. Temos já protocolados um milhão e 549 mil euros, numa primeira fase de comparticipações. Recebemos um milhão e 49 mil euros para a Ribeira de Muge, 49 mil euros para a limpeza dos diques e 520 mil euros para recuperação de infraestruturas.
Esses 520 mil euros serão canalizados para a reabilitação das estradas rurais, que ficaram bastante danificadas com as cheias. Temos também a Vala Real, que ficou com rombos nas margens, e estamos a aguardar para perceber que apoios poderão ainda surgir para recuperar essa estrutura. Portanto, há margem para o essencial, mas as cheias introduziram uma pressão adicional que ninguém podia prever.
Uma das grandes intervenções previstas é a requalificação da Escola Secundária Marquesa de Alorna. Em que ponto está esse processo e como será feita a obra sem comprometer o funcionamento do ano lectivo?
Estamos já numa fase final da candidatura. O processo está aprovado, mas temos agora de lançar a candidatura. Esta é uma obra muito significativa e, devido ao aumento dos custos, o valor inicialmente previsto também subiu.
Numa primeira fase, falava-se em cerca de 15 milhões de euros. Neste momento, a intervenção já vai em 17 milhões e qualquer coisa, muito próxima dos 18 milhões de euros. É uma obra de grande dimensão e que, se tudo correr bem, deverá começar em Setembro ou Outubro.
Naturalmente, temos de compatibilizar a intervenção com o funcionamento da escola e com o calendário lectivo. A solução passa por construir uma escola provisória, com módulos, dentro da mesma área escolar. Os alunos ficarão no mesmo espaço da escola, mas num espaço provisório, com todas as condições para terem aulas.
A requalificação será feita na totalidade e de uma só vez. Não queremos andar a fazer a obra por fases, com intervenções sucessivas que se arrastem no tempo e perturbem ainda mais o funcionamento da escola. A ideia é criar as condições provisórias necessárias e avançar depois para uma requalificação integral.
Estamos a falar de uma intervenção com um prazo de cerca de três anos. Se tudo correr como previsto, a obra deverá estar concluída em 2029. É um investimento muito elevado, mas absolutamente necessário para dar à comunidade educativa as condições que merece.
Tem defendido a criação do Gabinete de Apoio ao Empresário e ao Empreendedor, a conclusão das zonas de actividades económicas e a captação de investimento. Que tipo de empresas quer atrair para Almeirim e que condições reais tem o concelho para competir com territórios vizinhos?
O Gabinete de Apoio ao Empresário e ao Empreendedor já está criado. Temos já uma primeira técnica a trabalhar e iniciámos esse trabalho há cerca de um mês. Ainda estamos numa fase inicial, mas o gabinete já está em funcionamento, na sede da MovAlmeirim.
Estamos também a trabalhar com associações comerciais e industriais. Aquilo que gostava, se se concretizar o aumento de terrenos disponíveis para instalação de empresas no nosso concelho, era captar não apenas centros logísticos, mas também indústria. Não queria que Almeirim fosse apenas um pólo logístico. Gostava que houvesse produção, criação de valor e empresas capazes de trazer tecnologia.
A Suprema, por exemplo, vai instalar-se com uma fábrica. É mesmo uma unidade de produção, com produtos produzidos pela própria empresa, e estamos a falar de um investimento na ordem dos 100 milhões de euros. Gostava de conseguir captar mais investimentos dessa natureza, desde que não sejam indústrias muito poluidoras. Empresas que tragam tecnologia, que criem emprego qualificado e que permitam também fixar os nossos jovens no concelho.
Essa massa cinzenta é muito importante para o desenvolvimento de Almeirim. Queremos criar condições para que os jovens possam ficar cá, trabalhar cá, construir a sua vida cá, e também para atrair jovens de outros territórios.
Temos, além disso, uma localização muito favorável. Almeirim tem um nó rodoviário extraordinário. Estamos no centro do país e somos servidos pela A13 e pelo IC10, com ligação rápida à A1. Quem vem de Lisboa, do Porto ou do Sul chega rapidamente a Almeirim praticamente sem sair da auto-estrada. Sai da auto-estrada e entra na zona industrial. Essa é uma vantagem competitiva muito importante em relação a outros concelhos.
Depois, há outra dimensão que os empresários valorizam muito. Muitos perguntam-nos: “O que têm para oferecer aos nossos funcionários?” E aí temos argumentos fortes. Temos escolas remodeladas e requalificadas, equipamentos desportivos que permitem praticar praticamente todos os desportos, uma oferta cultural muito regular, cinema, eventos todas as semanas, espaços para caminhadas e um concelho plano, onde é fácil circular.
Almeirim é também um concelho seguro. Eu próprio costumo fazer caminhadas à noite e vejo muitas pessoas sozinhas a fazer o mesmo, na Circular Urbana, às nove ou dez da noite, sem sentirem insegurança. Tudo isto conta quando uma empresa pondera instalar-se num território. Não se trata apenas de terreno e acessibilidades; trata-se também de qualidade de vida.
Almeirim apresenta-se como um concelho seguro e, ao mesmo tempo, tem na restauração uma das suas grandes marcas. Como olha para as preocupações de alguns empresários do sector perante o reforço da fiscalização rodoviária, sobretudo ligada ao álcool?
Almeirim é um concelho seguro e digo isso com convicção. É evidente que, por vezes, há situações que ganham maior dimensão pública, mas é preciso olhar para os dados e para o contexto.
O aumento de alguma sinistralidade no concelho tem muito a ver com uma fiscalização mais próxima e mais eficaz por parte das forças da GNR. Hoje, a forma de actuar é diferente. As patrulhas não fazem apenas aquele policiamento mais tradicional. Seguem viaturas, mandam parar, fiscalizam, fazem controlo de álcool. E, muitas vezes, quando as pessoas são mandadas parar e acusam álcool, a reacção nem sempre é a melhor. Parte desse aumento de ocorrências tem a ver com isso.
Compreendo a preocupação de alguns empresários da restauração, quando dizem que sentem que há uma perseguição aos seus clientes. Mas também tenho de ouvir a outra parte. Quando a GNR nos coloca a questão de saber se preferimos que não haja este tipo de fiscalização ou que aconteça um acidente grave, envolvendo alguém com uma taxa de álcool elevada, que pode atingir uma pessoa sem culpa nenhuma, o que é que podemos dizer?
Eu próprio já fui mandado parar várias vezes desde que sou presidente da Câmara e também já fui sujeito ao ‘teste do balão’. Faz parte. Percebo que seja um tema sensível, sobretudo num concelho onde a restauração tem tanto peso, mas a segurança das pessoas tem de estar sempre em primeiro lugar.
A restauração é uma marca muito forte de Almeirim, juntamente com a sopa da pedra, o melão, a caralhota e outros produtos do concelho. Mas isso não pode ser colocado em oposição à segurança rodoviária. Temos de encontrar equilíbrio, valorizando a nossa restauração e, ao mesmo tempo, garantindo que quem circula nas nossas estradas o faz em segurança.
Almeirim é reconhecido pela restauração e por produtos como a sopa da pedra, o melão, a caralhota e o vinho. A aposta na certificação dos produtos locais é para manter?
Sim, é para manter e reforçar. Temos neste momento em curso o processo de certificação do enchido, porque entendemos que a sopa da pedra tem uma das suas características fundamentais precisamente no enchido e na forma como ele é produzido no concelho de Almeirim.
A certificação dos nossos produtos é uma aposta importante. Se conseguirmos que os produtos locais sejam certificados, isso valoriza-os no mercado. Um produto certificado tem outro reconhecimento, outra capacidade de afirmação e pode ser vendido de forma diferente.
O exemplo do melão de Almeirim mostra isso mesmo. Hoje já é vendido em algumas grandes superfícies a um preço totalmente diferente de outros melões. E o facto de ser vendido a sete ou oito euros o quilo não impede que seja procurado. Pelo contrário, por vezes há dificuldade em responder às solicitações das grandes superfícies.
Isto prova que a certificação é uma aposta ganha e que traz mais-valias para os produtores. Ao valorizarmos o produto, valorizamos também quem o produz, a identidade do concelho e a economia local. A sopa da pedra, o melão, a caralhota, o vinho e agora também o enchido fazem parte daquilo que Almeirim tem de mais distintivo. A nossa obrigação é proteger, qualificar e valorizar essa marca territorial.
Falou numa visão a 12 anos. Isso significa que, se chegar ao fim deste mandato com condições políticas para continuar, Joaquim Catalão será novamente candidato à Câmara Municipal de Almeirim em 2029?
Claro. Se chegar ao fim deste mandato e sentir que aquilo que fiz corresponde ao que pensei e idealizei para servir a população do meu concelho, naturalmente que serei candidato daqui a quatro anos.
O nosso projecto é um projecto de 12 anos. Aquilo que dissemos que queríamos fazer foi pensado, basicamente, para esse horizonte. Há obras e objectivos que não se conseguem concretizar num único mandato. É preciso preparar, lançar, executar e consolidar. Por isso, se o trabalho correr como espero, Joaquim Catalão será candidato em 2029.
E, no final deste primeiro mandato, como gostaria que os almeirinenses recordassem a sua presidência? Como o presidente das obras, da proximidade, da cultura, da economia?
Uma das coisas que sempre pensei foi resolver os problemas das pessoas. Às vezes, sem serem as grandes obras, há pequenos pormenores que fazem uma grande diferença na qualidade de vida de quem vive num determinado lugar.
Já fizemos algumas intervenções que as pessoas valorizam muito. Por exemplo, uma rua que estava há muito tempo para ser arranjada e que, por várias razões, ainda não tinha sido intervencionada. Na Quinta de São Miguel, junto à Rua das Cancelas, havia um entroncamento que gerava sempre alguma dificuldade. Felizmente, não houve ali grandes problemas, mas era uma situação que precisava de ser resolvida. Estamos a executar essa obra, a regular o trânsito e a criar condições para que não haja dúvidas sobre como se deve circular naquele ponto.
É uma obra simples, mas importante. E tenho recebido várias mensagens de pessoas a dizerem-me: “Ainda bem que está a fazer esta obra, era uma coisa tão simples e nunca tinha sido feita.” Esse tipo de intervenção mostra bem aquilo que valorizo.
Outro exemplo é a Estrada da Barreira Branca. Foi uma obra muito falada, com avanços e recuos, e, enquanto presidente da Junta, incomodava-me muito ver aquela situação tanto tempo parada. Vivem ali pessoas, e as condições eram muito difíceis, sobretudo quando chovia. Havia lama, havia caixas de saneamento no meio da estrada, e era uma situação que tinha de ser resolvida.
Quando cheguei à Câmara, falei com o meu executivo e disse que tínhamos de acabar aquela obra rapidamente. Percebemos o que era necessário fazer e avançámos. Foi uma das primeiras obras que concretizámos e deu-me um enorme prazer concluí-la, sobretudo pelo retorno que recebemos das pessoas.
No final destes quatro anos, gostava que as pessoas reconhecessem Joaquim Catalão — ou o Quim, como quiserem chamar-me — como um presidente que se preocupou realmente com a qualidade de vida das pessoas. E a qualidade de vida constrói-se também com esses pequenos gestos, com essas obras simples, com a resolução de problemas identificados há muitos anos e que, por uma razão ou por outra, nunca tinham sido resolvidos.

