António Ferreira Madeira Cacho nasceu na castiça vila da Golegã no dia 3 de Maio de 1917, vindo a falecer na cidade de Santarém, onde residiu praticamente toda a sua vida, a 18 de Outubro de 2004, deixando mais pobre a nossa comunidade pelo que representa a sua acção e, sobretudo, o seu exemplo de vida. 

Evocar este ilustre cidadão não é, apenas, preitear o testemunho de amizade e o preço da saudade, é, sobretudo, lembrar um Homem que se constituiu como uma referência nas diversas facetas da sua vida familiar, profissional e sócio-cultural.

Recordamos com profunda saudade este excelso Amigo que derramou as suas notáveis qualidades de Homem de bem, inteligente, culto, íntegro e honrado ao serviço da Associação Académica de Santarém, do Teatro Taborda, do Clube Literário “Guilherme de Azevedo”, da Rádio Ribatejo, dos “Jograis de Santarém”, da Feira do Ribatejo – Feira Nacional de Agricultura, do “Correio do Ribatejo”, com o qual colaborou mais de meio século, da Santa Casa de Misericórdia de Santarém, da Região de Turismo do Ribatejo, da Associação de Estudo e Defesa do Património Histórico-Cultural de Santarém, da APAVT – Associação Portuguesa de Agências de Viagens e Turismo, do Festival Nacional de Gastronomia, a par da dinâmica participação em comissões promotoras de homenagens, nomeadamente a Celestino Graça, ao Dr. Joaquim Gonçalves Isabelinha, ao Prof. Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, a João Gomes Moreira, a César Marinho e à edificação do Monumento ao Forcado, cuja Comissão Promotora liderou.

Homem generoso e altruísta, António Cacho foi o responsável pela criação dos seus quatro irmãos, após a morte tão precoce de seus pais, abdicando de si para apoiar a sua formação académica e cívica, tendo-se destacado o Prof. Carlos Cacho, investigador de renome internacional e primeiro director-geral do Laboratório de Física e Engenharia Nucleares, onde desempenhou relevantes funções entre Janeiro de 1959 e Fevereiro de 1975. 

Cumpre enaltecer a aptidão de António Cacho para o desporto, notabilizando-se como praticante e como treinador de basquetebol, tendo conquistado o título de campeão distrital para a “briosa” Associação Académica de Santarém, clube eclético com o qual muito colaborou especialmente na sua secção cultural, coadjuvando o saudoso Prof. Joaquim Veríssimo Serrão. Entre os anos de 1938 e 1961 António Cacho integrou por diversas vezes os órgãos sociais da Académica, tendo criado em 1945 o Grupo Cénico da Académica, dirigiu a secção de basquetebol até 1952 e também esteve ligado à organização de palestras e de interessantes ciclos de conferências até ao ano de 1962. 

Em 1949 António Cacho aderiu ao movimento campista, fundando com o amigo João Moreira o “Núcleo Campista Scálabis”, que inscreveu trinta membros activos na federação nacional. Nesta época, em colaboração com os membros do Clube “Os Livres”, fundado em Santarém por João Coelho das Neves, José Pinheiro e outros amadores do ar livre, lançaram-se por esse Portugal fora animando diversos acampamentos regionais, até que, em 1951, com o apoio técnico da Federação Portuguesa de Campismo, os dois Núcleos organizaram na Quinta dos Anjos o “II Acampamento Nacional”, que foi um êxito, acolhendo em Santarém umas boas centenas de campistas. Talvez fosse esta ligação ao campismo que viria a suscitar a sua paixão pelas viagens, constituindo a Agência Central de Viagens e Turismo de Santarém, que geriu durante mais de trinta anos.

 Mau grado a sua atribulada juventude, devido às incumbências familiares e profissionais, António Cacho representou diversas peças de teatro, fez o Curso de Expressão Dramática e Arte de Dizer, ministrado pelo Prof. Carlos Sousa, integrou, com o saudoso amigo João Moreira, a dupla de palhaços “Tonecas e Juanito”, e fez parte dos “Jograis de Santarém”, com Carlos Mendes, Nuno Netto de Almeida e Virgílio Barrera.

Integrou em diversas ocasiões os órgãos sociais do Círculo Cultural Scalabitano e fez parte da Comissão Executiva da Feira do Ribatejo – Feira Nacional de Agricultura, durante vinte e um anos, a convite do seu dilecto amigo Celestino Graça, com quem colaborou igualmente na organização do Festival Internacional de Folclore de Santarém.

António Cacho foi um homem muito atento às vivências populares, tendo acompanhado de muito perto Celestino Graça, Augusto do Souto Barreiros e Viriato Martins Ferreira nas suas tão profícuas incursões pelo mundo da etnografia ribatejana.

Com a sua vasta cultura e imensa perspicácia muito aprendemos sobre a mundividência popular das gentes do Ribatejo, tendo-nos orientado no sentido de desvendarmos aspectos fundamentais da cultura tradicional ribatejana, pois, António Cacho, sendo um cidadão do mundo, pelas dezenas de países que visitou em todos os continentes, era muito sensível às questões da cultura popular, fruto da descoberta das singularidades específicas de cada comunidade e da particularidade das respectivas manifestações sociais, culturais, económicas e políticas.

Era muito difícil abordarmos um tema em que António Cacho não estivesse à vontade para dissertar, tão sólida e multifacetada era a sua cultura, porém, este Homem bom, que nunca esqueceremos, sabia ensinar com a maior das simplicidades, nunca deixando transparecer ares de arrogância ou de presunção. Na naturalidade de uma amena e agradável cavaqueira disfrutávamos sempre de sublimes oportunidades para aprender mais qualquer coisa.

Em 1977 a acção de António Cacho foi determinante para o grande sucesso da homenagem pública promovida por um Grupo de Amigos a Celestino Graça, a qual culminou com a inauguração do monumento erigido em sua memória, custeado quase na totalidade com receitas provenientes de subscrição pública e com a colaboração do saudoso Eng.º Ilídio Monteiro, que construiu a expensas próprias a estrutura onde foi implantado o busto, a qual, alguns anos mais tarde, foi valorizada pela Câmara Municipal de Santarém com a implantação de uma artística grelha onde estão retratadas as principais actividades a que se dedicou este notável ribatejano.

A perda de António Cacho constituiu uma expressão de eterna saudade, deixando nos amigos que tiveram a felicidade de consigo conviver um vazio que nunca se preenche, não se compreendendo como a cidade que tanto serviu durante quase oito décadas ainda não tenha tido a nobreza de lhe consagrar o nome de uma rua da nossa urbe.

Quanta injustiça e quanta ingratidão! Porém, António Cacho estará sempre Presente na memória e no coração dos seus amigos que ainda o lembram com infinita saudade.  

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