Conto – Ao Luar na Lezíria

Por Lima Rodrigues*

O ano fora mau. Já o outro o tinha sido. E houvera cheia. Tem o trigo na eira. No bolso, uma apólice. Se o trigo ardesse…

Ninguém descobrira. Ele é pessoa séria. Conhecida, importante. Quem pensará sequer em desconfiar? Ninguém desconfiara de ninguém. São coisas que acontecem. Coisas do destino: umas vezes, ponta de cigarro, outras, fagulhas das máquinas. São coisas que acontecem.

Consulta a sua consciência: consciência sem actos. Sem acções. Só com necessidades…

E luta faz… não faz; vai… não vai; a hipoteca, as letras…; vai… faz; não vai… não faz; a sua nobreza, a tradição…; vai… não vai; faz… não faz; a hipoteca, as letras… vai!

E foi…

Arame farpado ladeando caminhos; separando negras feras; os homens das feras; as feras dos homens; chocalhos, soando, avisam incautos.

E chega…

A noite é serena. Há vida no ar: som do harmónio; na voz do fandango; do vira rodado; e o pó e a palha, a palha e o pó, ainda andam suspensos, bailando, ao luar…

Chegou junto às medas. Tem os fósforos no bolso. Mete a mão e tira-os. Abre a caixa. Segura um. Vai riscá-lo. É contrabandista atravessando a fronteira: ao arder do fósforo; estará do outro lado. Do outro lado, no crime. As mãos tremem. Todo ele treme. Curva-se. Vai acender o fósforo…

Ouve uma restolhada. Assusta-se. Levanta-se. Volta-se. Numa mão, a caixa. Na outra, o fósforo. Horroriza-se. Treme mais. Fica sem forças. Sem fala. Reage. Corre. Foge…

Um arranque veloz. Uma corrida ligeira. E um vulto negro vai-se aproximando.

O homem reage. Reage outra vez. Pára e volta-se, enfrentando o monstro.

— Eh, touro! Eh, touro… Eh, touro dum raio…

Espera a pé firme, como em outros tempos. Que valentes touradas! Que rijíssimas pegas! Tudo águas passadas…

Ao luar, na lezíria, há beleza no drama. O homem e a fera, a fera e o homem. E a luta principia…

Cabeça com hastes em riste, com olhos luzindo: um corpo que a envolve; umas mãos que a agarram. Luta desigual: energias perdidas nos anos; pujança selvagem. Um corpo volteando no ar… queda desastrosa. Uma nova investida, mais outra marrada. E o homem no espaço, com o pó e a palha, a palha e o pó, parece dançar… e o sangue que se escoa, é a vida a fugir…

E surgem cavalos. Há pampilhos ao alto; barretes no ar. Há cintas vermelhas; jaquetas ao vento.

Os cascos martelam o árido solo. Chocalhos badalam mais perto, em compacto desfile. A tarefa começa, prolonga-se, termina: cavalos cansados; chocas a arfar; rostos suando, que brilham na noite; e o touro assassino, com os chifres vermelhos, distribui marradas às guias: vingança do bruto!

— O Fidalgo morreu! — disse um maioral. — O “Bonito” matou-o!

— Uma morte feliz — outro acrescentou. — Que há de melhor que a gente morrer nos cornos dum boi?

Uma caixa caída. Um fósforo perdido. Manchas de sangue no chão.

Ninguém desconfia. Ninguém descobrirá. Foi tudo o destino. Desastres que se dão. Coisas que acontecem…

E o pó e a palha, a palha e o pó, continuam suspensos, bailando ao luar…


*Lima Rodrigues, autor do conto que se segue, não tendo naturalidade ribatejana (nasceu em Torres Vedras) foi, todavia, em Santarém que viveu parte da sua existência. Aqui trabalhou, praticou Desporto (guarda-redes da equipa de Hóquei em Patins dos “Caixeiros”), foi o ideólogo, impulsionador e um dos fundadores da 1.ª fase desta Tertúlia, em 1962, e aqui escreveu alguns dos seus livros e muitos das dezenas de contos, vários dos quais — como este “Ao Luar na Lezíria” — de temática genuinamente ribatejana.

 

PROBLEMÍSTICA

 

Problemas policiais em verso não são muito vulgares… mas existem…

Como exemplo apresentamos um que reúne duas condições apropriadas para esta “Página” de publicação recente, certamente com leitores ainda não suficientemente familiarizados com a problemística policiária: curto e de muito fácil decifração. Assina-o “VIRÓBICO”, pseudónimo de um confrade nortenho que, além de policiarista, se destacou também nas modalidades de Palavras Cruzadas e Charadismo.

Jogo Descoberto

Por Viróbico

— Então! Que foi? — pergunta o Inspector,

 

— Senhor, fui roubado! Que desgosto!

Jamais eu posso ser o cobrador,

Alegre, preferido e bem disposto.

 

Tapei a minha vista do calor

do sol que dava em cheio no meu rosto

quando detrás de mim surgiu, senhor

esguia e negra sombra dum suposto

 

Caí. Alguém me dera um encontrão

E, por meu mal, senhor, esse ladrão

Levou consigo a mala da cobrança

 

— Não digas mais… Caluda! Meu esperto,

Teu “jogo” foi depressa descoberto!

Vais preso, ficarás em segurança.

 

Pergunta-se: Concorda com esta decisão? Porquê?

 

Memória Policial

O N.º 3 da “Página Policial” anuncia o “Natal do Recluso”, iniciativa solidária promovida pela Tertúlia Policial Ribatejana em colaboração com o programa radiofónico Momento Policial. Publica “Episódio Rural” (aqui divulgado N.º 1 da 2.ª série), um conto de Oliveira Beja, um dos fundadores da Tertúlia, e apresenta a solução do problema “Férias Estragadas”, acompanhada da lista de concorrentes e premiados. Em “Nós e a Sociedade”, surge o poema “Crime Perfeito”, de Adolfo Simões Muller. A página encerra com “Os Livros do Mês”, onde são apresentados o “Crime no Jornal”, de Frank Gruber, e “Pesadelo”, de Malcolm Gair.

Para ler o original: pág. 9 da edição de 1 de Dezembro de 1962, no Arquivo Digital do Correio do Ribatejo. 

https://arquivo.correiodoribatejo.pt/2022/05/13/correio-do-ribatejo-no3737-01dez1962/

 

Na Estante

Sobre a ficção policial – Fernando Pessoa 

A Editora Tinta da China publicou, no passado mês de Julho, “Sobre a Ficção Policial”, um conjunto de textos de Fernando Pessoa dedicados a um género que o cativou enquanto escritor, teórico e leitor. O prefácio é de Alberto Manguel. A edição e a tradução são de Gianluca Miraglia. O volume reúne escritos dispersos, alguns originalmente escritos em inglês, sobre a construção do enigma e o papel do raciocínio na resolução do crime.

Segundo a Tinta da China: “vemos aqui como, na última fase da sua vida, o escritor se tornou um voraz leitor de romances policiais, hábito invulgar num intelectual português da primeira metade do século XX.”

Uma proposta particularmente interessante para os leitores da “Página Policial”.

 

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