Episódio Rural

“Tóino Navalho” brandiu a foice e desferiu cinco golpes.

– Anda, grande desavergonhada. Quem era o “gajo”?… Anh?… Quem era? Responde cabra. Anda, responde.

E “Tóino Navalho”, raivosamente, arremessava ao cadáver ensanguentado, desvairados pontapés que lhe magoavam os pés descalços.

Momentos volvidos, serenou e riu escarninhamente para a lua, que lá do alto assistira a tudo. Abraçou a noite no seu próprio corpo e sentiu-se tranquilo. Havia de matar o “gajo”, isso é que havia… Acreditava nisso, como candidamente acreditava na vida eterna. E sentia-se feliz quando o pensava…

“Tóino Navalho” estava nu. Pegou na foice. Deitou uma olhadela indiferente ao cadáver e foi-se lavar no tanque da horta. Estava sujo de sangue. Quando entrou na água, a lua partiu-se. Pedaços de lua esparramaram-se em todos os sentidos num estonteante espectáculo de pirotecnia. Mergulhado até ao pescoço, deixou-se ficar um momento quieto. Depois, vigorosamente, agitou os braços. Tornou-se a lua a partir. É bonito, pensou. E lavou-se cuidadosamente. Lavou a foice e abalou para casa. Deitou-se. Dormiu profundamente até de manhã.

Há já algum tempo que “Tóino Navalho” desconfiava que a mulher o traía. Naquela noite, ficara alerta, fingindo dormir. O coração pulsava-lhe desordenadamente. Sentia-o na laringe, nas fontes, no peito, nos pulsos. Estava febril. Tinha uma vontade imensa de tossir, de desfazer aquele nó horrível que lhe afogava a garganta. Sufocava. Mas estava lúcido, calmo.

Quando a mulher, furtivamente, se levantou, não se surpreendeu. Mas houve qualquer coisa que dentro de si… como se partiu. Sentiu-se como se uma marretada lhe assentasse em cheio no cérebro.

– Ah! cadela!… Sempre é verdade, grande cabra. Sempre é verdade!…

E aquela certeza velada que há tanto tempo andava dentro de si, manifestava-se, agora, clara, a seus olhos.

– Vais ver, cadela, vais ver… cadela!… cadela!… rosnava.

Deixou a mulher sair. Depois, lesto e nu, puxou da foice que tinha debaixo da cama. Seguiu a mulher. Ia decidido e tranquilo. Ela foi para a horta. O “outro” estava lá.

– Ah! Canalhas!…

Carregou, num galope, de foice no ar. O “outro” fugiu. Ele não o reconheceu.

No dia seguinte, “Tóino Navalho” ficou muito admirado quando foi preso. Prendê-lo, a ele, Deus do Céu?… Que mal tinha feito?…

Foi o polícia Borges quem deteve o “Tóino Navalho”. O polícia Borges era esperto. Soube de tudo. O polícia Borges VIU tudo. O polícia Borges ESTAVA lá. ERA o amante.

por Oliveira Beja

Oliveira Beja foi um dos scalabitanos que integrou a Tertúlia Policial Ribatejana, em 1962 — e este foi então o seu conto de estreia. Deixou-nos cedo, mas não o esquecemos…

Dois dedos de conversa

64 anos volvidos sobre a sua estreia nestas páginas, a Tertúlia Policial Ribatejana regressa, confirmando o dito popular de que “O criminoso volta sempre ao local do crime”. E um outro: “Não há duas sem três”, porquanto, de 2011 a 2021, este jornal acolheu uma outra “Página Policial”, esta da responsabilidade individual de um dos fundadores da 1.ª série, e também desta.

A linha de rumo que nos irá nortear será a de divulgar preferentemente autores scalabitanos e ribatejanos, dentro das temáticas policiárias que nos assistem, inserindo problemas, contos, textos, artigos, efemérides, biografias, etc.

Esperamos que os leitores nos distingam com a sua colaboração, quer enviando textos para publicação, quer emitindo sugestões e/ou críticas para a melhoria do nosso trabalho, pois é para vós que o executamos.

Por fim, o nosso agradecimento à Direcção do “Correio do Ribatejo”, por nos voltar a acolher nas suas páginas.

Memória Policial

A “Página Policial” N.º 1 foi publicada no “Correio do Ribatejo” no dia 3 de Novembro de 1962. Abre com um texto de Domingos Cabral, apresentando a recém-criada Tertúlia Policial Ribatejana e os objetivos da nova página. Segue-se “Nós e a Sociedade”, de Celestino Santos, um texto sobre a literatura policial e a forma como era então encarada. Em “Convite ao Leitor”, assinado por Cabral & Santos, apela-se à participação dos leitores na resolução e criação de enigmas. “Férias Estragadas”, do Inspector Lima, lança o primeiro desafio policial. A página inclui ainda “Ciladas do Destino”, conto de Lima Rodrigues, e encerra com uma breve nota aos leitores.

Para ler o original: pág. 4 do jornal de 3 de Novembro de 1962, no Arquivo Digital do Correio do Ribatejo. https://arquivo.correiodoribatejo.pt/2022/05/13/correio-do-ribatejo-no3733-03nov1962/

Que é a problemística policiária ou a enigmística policiária?

Para os menos versados na matéria, uma breve definição: problemas policiários são pequenas histórias em que vulgarmente é descrito um acto delituoso (assassínio, roubo, falsificação, burla, etc.), sob a forma de enigma, ainda não esclarecidos os aspectos fundamentais do Quem (foi o culpado), e/ou Como, Quando e Porquê (o acto foi praticado), desafiando a argúcia do leitor para as respostas a tais incógnitas.

Por seu turno, a prática da problemística policiária (decifração e produção) proporciona, além de prazer, assinaláveis benefícios cognitivos por implicar ler (os problemas), fomentar as faculdades de observação, raciocínio e interpretação, frequentes buscas sobre os mais variados temas para obtenção dos elementos para fundamentar respostas, e ainda a socialização através do relacionamento que fomenta entre os seus cultores.

Trata-se, pois, de um passatempo cultural e instrutivo que se recomenda.

Problemística:

M. Constantino, autor do problema que seguidamente se apresenta, almeirinense de gema, foi, tão só, o melhor, mais prolixo e completo produtor do nosso
policiarismo, no sentido em que a classificação não define, apenas, a autoria de problemas, mas também muitas outras das áreas, como a de contista, autor de manuais, de estudos, ensaísta, biógrafo, profundo estudioso de Literatura Policial, Criminologia, Ficção Científica, Fantástico, etc.

Pela profunda admiração que o seu nome, carreira e memória nos suscitam, entendemos que deveria ser um seu texto a inaugurar o nosso ciclo de apresentação de autores ribatejanos. 

Fazemo-lo com um problema curto e simples — adequado para o primeiro número da “Página”. Mas é certo que os leitores irão encontrar aqui, várias outras vezes, os escritos de M. Constantino

Ladrão que rouba ladrão

Tenho na minha frente os três suspeitos do roubo na Ourivesaria Universal cujo proprietário é perito e negociante de diamantes raros, consequentemente, de valores elevados. Tudo averiguado, visto, revisto e ponderado, não restam dúvidas de que os larápios, também eles especialistas em diamantes, haviam combinado e concretizado o roubo. Será supérfluo qualquer relato. Artur Manhoso, Benjamim Levezinho, e Tomás Ligeiro são os seus nomes, talvez falsos, mas em todo o caso nomes. Dúvidas sobre a participação comum no roubo não existiam; daí a sua prisão, ainda que preventiva, para cumprir a lei. O caso complica-se por existir, entre eles, um ladrão de ladrões. Explico: o que ficara com a missão de guardar o fruto da gatunice achou mais fácil ou útil ficar com tudo. Qual deles? Dois foram sócios em vários negócios; o terceiro, de compleição atlética, cabelos negros, brilhantina a rodos, dedicava-se a um dos seus talentos — motorista de famílias ricas… nas horas vagas, é claro! E fora este que Artur convidara em primeiro lugar para o golpe. Benjamim e o ladrão eram louros naturais.

Estas as conclusões a que cheguei para apurar quem era o ladrão. Não ia dar “cem anos de perdão”, como diz o provérbio, lá isso não, porque ladrão de ladrão é duas vezes ladrão.

Caro leitor, ponha as “cinzentas” a funcionar e resolva, e, porque é fácil, cremos que resolverá o enigma. De qualquer forma, no próximo número publicaremos a solução.

por M. Constantino

(In: Correio do Ribatejo de 02 de Outubro de 2026)

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