Conto – O Pacto
Por Victor Dimas*

Era um grupo valente e unido. Sempre pronto a jogar a bola e o pião. Torneios internos, pois, já que os outros rapazes eram dispensados no nosso círculo.

E solidário, aquele grupo. Solidário como poucos, nas pequenas e grandes coisas. Que não me deixa mentir a rapaziada do Bairro Novo. Quando algum se atrevia a eriçar o pelo ou a tosar um “nosso” dos mais fraquitos, havia contenda. E rija. Fisgas e tudo. Às vezes, cabeças partidas de ambas as facções. Tareia de criar bicho dos progenitores indignados.

E muita, muitíssima amizade entre os componentes do grupo. Ainda hoje todos estamos ligados, trinta anos além, pela cadeia inquebrável dos bancos de escola.

Todos não. Falta um, o João Henrique. Riquito, para a “malta”. Ontem, na reunião anual que se repetiu, sincronizámos seis taças num preito de homenagem.

— À memória do Riquito.

Seis homens brunidos pela vida choraram. Como crianças que foram, com as mesmas lágrimas imensas e puras que a saudade engrossou. Para libertá-las uma vez por ano. Às vezes, mais. Por isto.

◆  ◆  ◆

— Pam! Estás morto!

— Eh! Não me vias! És um xerife batoteiro!

— Deixa, Jorge. Faz de conta.

Mas o Jorge, irmão do Riquito, não fez de conta. Afinou. A valer. E foi para casa, “prender o burrinho”.

Os outros, consternados, tentaram passar sem ele. Mas não era fácil. Seria a primeira vez que a “cowboyada” não tinha sete elementos. Sempre a mesma coisa, sempre juntos — nenhum estava bem sem todos os outros.

Mas o Jorge também não podia. Voltou.

Meio contricto, meio risonho, com aquele bojo esquisito na camisa vermelha.

— Jogo, mas tem de ser com isto. Valeu? — apontava a corcova.

— Que é? — disse o Riquito.

— Pschiu! É do avô. Descobri-o no sótão. — e exibia um revólver antigo, roído do tempo, entre os antebraços a camuflarem.

— É a sério? Mostra, pá! — os outros deliravam. Mas o Arménio ajuizou:

— Cuidado. Pode ter balas.

— Ná. Já experimentei. Vês? — e o Jorge dava ao gatilho. O cão armava e batia em seco. O tambor girava, sabe-se lá porque milagre de ferrugem.

— Fujam! Vá! Eu sou o xerife agora. — E a “malta” debandou. O xerife de dois palmos ficou a contar até trinta. Para dar tempo. O costume.

Depois, com o revólver pendente, perscrutou.

Eu vi. De cima da Amoreira Velha. Dez metros ao lado, o Riquito, invisível atrás do barril, gritou de súbito:

— Eiii… dispara, cobarde! — e arrancou em corrida.

O irmão apontou. Fez blam! blam! com os lábios. A terceira onomatopeia confundiu um estampido real. Trágico.

O Riquito caiu. Para sempre. O capricho de um tambor ferrugento colocara na câmara uma bala esquecida. A única.

Quando, passado o espanto, a voz reboou num “Quem foi?” angustiado, seis pares de olhos caídos sobre a arma no pó, ergueram-se. Um único som fundiu seis respostas:

— Fui eu.


* Victor Dimas, natural de Abrantes, foi criado em Santarém, trabalhou em Lisboa no “Expresso” e no “Diário Popular”, além de ter colaborado em diversas publicações.
Foi um dos coordenadores das “Selecções Mistério”. Escreveu o livro “Humberto Delgado – O Homem e Três Épocas”, deixando-nos cerca de três dezenas de contos.

Problemística – Caso rural

Por Inspector Moscardo

A campanha da palha tinha corrido satisfatoriamente, e previa-se lucro na colheita bem-sucedida. O produto armazenado nos palheiros e armazéns, recentemente construídos apenas aguardava a sua colocação no mercado. 

Depois de conferida minuciosamente toda a carga empilhada, o capataz elabora o rol de alguma manutenção a efectuar em alfaias e máquinas danificadas — charrua; aiveca para soldar; tractor — desde a tarde da véspera com avaria na bomba injectora; grade de discos — alguns a substituir; escarificador, a precisar de intervenção da serralharia; reboque; taipais novos. 

No dia seguinte, que prometia ser radioso, preparou-se a adiafa. 

Duas pranchas compridas de madeira, assentes nas pontas dos cavaletes, serviam de mesa melhor do que qualquer peça mobiliária da corte de Luís XIV.

Rijas tábuas de soalho, apoiadas em tijolos, desafiavam em qualidade os melhores bancos corridos da lavra dos mais credenciados marceneiros.

No pátio, os grelhadores eram abastecidos de carvão e lenha para preparar condignamente os petiscos. 

Estando a corrida pronta, soltou-se um foguete para chamar os retardatários.

Com o pessoal todo presente, foi-se comendo e bebendo com o apetite próprio e adequado ao evento festivo. Na euforia provocada por alguns almudes de pinga de estalo. Em breve se cantarolava:

Todos os pássaros bebem água

Só a coruja bebe azeite

Mas o passarinho da menina…

Enquanto alguns filosofavam em alegre ambiente nutricionista qual seria a alimentação da ave atrás citada, noutro lado rompiam brindes e vivas ao lavrador, ao feitor, ao capataz, aos trabalhadores, etc.

Foi então que vindo do lado dos palheiros de onde supostamente teria ido aliviar a bexiga, o capataz disse em surdina ao lavrador:

— Vossa Senhoria, desculpe, está uma pilha descomposta. Falta um fardo de palha.

O lavrador, o capataz e o feitor reuniram-se em privado alguns minutos. Palavra puxa palavra, concluíram que apenas três pessoas poderiam ter cometido a ousadia. A saber: O Manel, o Xequim e o Atoino.

Chamados a perguntas, disse o Xequim.

— Eu saí de madrugada, para evitar a hora do calor, com o respigador, rebuscar um bocado de palha esquecida no campo.

Disse o Atoino:

— Estive a limpar o curral das vacas com o Zé. Tomei um duche e vim para cá. 

Disse o Manel:

— Levei as ovelhas por entre o restolho, que ela “tosaram” bem.

O feitor cofiou o bigode, olhou para o lavrador que levou a mão ao chapéu e perguntou ao capataz:

— Que te parece?

Este sorriu ou tentou sorrir e respondeu: 

— Vossa Senhoria, já sei quem foi dar “palha à mula”.

E o prezado leitor, quem acha que “foi à palha”?

Dois dedos de conversa:

António Serra, sob o pseudónimo “O Bigode”, em 2011 iniciou-se na Problemística Policiária como solucionista. E, em 2013 estreou-se como produtor com o “Caso Rural”.

Hoje, com o pseudónimo de “Inspector Moscardo”, produtor, contista e também membro da Tertúlia Policial Ribatejana — António Serra é um conceituado valor do policiário, cujo “nascimento” na modalidade, efectuado nestas páginas, há já década e meia, muito nos apraz registar.

 

Solução – A Receita dos Celestes

(publicado na “Página Policial” N.º 2 – 09 de Outubro de 2026)

Quem beneficia com o furto da Receita dos Celestes? A divulgação da receita prejudicaria o negócio das Clarissas e favoreceria os Franciscanos, interessados em diminuir o protagonismo das irmãs. E quem roubou a fórmula? O frade que se esgueirou pelo túnel, com um manto feminino, teria de saber ler para identificar a receita entre os papéis. Há três candidatos. Mas Alexandre receia a escuridão; Bonifácio é gordo e tem dificuldades respiratórias. Resta Inocêncio, o Guardião, de estatura adequada ao túnel. Desta vez, o Inocêncio é culpado.

Solução – Jogo Descoberto

(publicado na “Página Policial” N.º 3 – 16 de Outubro de 2026))

Se o cobrador tapava a vista do calor do sol, estava de frente para o mesmo, não poderia, pois, ver a sombra do suposto ladrão surgir-lhe por detrás. O inspector fez bem em prendê-lo.

(In: Correio do Ribatejo de 23de Outubro de 2026)

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