Natural de Santarém, o antropólogo Hugo Carvalho estreia-se na ficção literária com o romance histórico “Crónicas dos Irmãos Ataíde”. Numa narrativa marcada por segredos familiares e ambientada nas colinas e monumentos da cidade, o autor cruza o passado e a identidade da região com a ficção e o imaginário.
Em entrevista ao Correio do Ribatejo, o escritor revela como transformou a história local em ficção e antecipa os seus próximos projectos literários.
“Crónica dos Irmãos Ataíde” acompanha o destino de dois irmãos separados à nascença. Em que medida este livro está ligado à cidade de Santarém e ao Ribatejo?
Nasci em Santarém, mas as minhas vicissitudes levaram-me a sair de Portugal, devido aos estudos. Sempre tive a intenção de escrever alguma coisa sobre a cidade e decidi compilar os escritos que já tinha com o contexto histórico que sempre me apaixonou bastante. Acabei por falar no Convento de São Francisco, porque creio que a juventude não conhece a história, nem dá grande atenção a esta, quando passa por estes monumentos na rua. No fundo, foi relacionar estes dois mundos numa história que acaba por ser muito actual, baseada em factos históricos.
Como foi o processo de pesquisa e recolha de informação histórica para a construção da narrativa e ambientação da obra?
Foi um processo que se foi construindo ao longo do tempo. Comecei pela restauração da independência de Portugal e achei alguns estudos que referenciavam a aclamação de D. António, Prior do Crato em Santarém e pensei em tentar mostrar isso, incluindo-o no romance. Achei engraçado do ponto de vista criativo e creio que poucas pessoas saibam sobre este aspecto histórico que foi fundamental para a nossa restauração da independência, durante o período da dinastia filipina. O facto de ser antropólogo ajudou bastante na pesquisa, porque é um processo que faz parte da minha formação: encontrar livros e estudá-los.
A narrativa é marcada por segredos familiares, pela desigualdade e o peso das origens. O que o atrai no romance histórico, relativamente a outros géneros literários?
Acredito que é a liberdade de tocar em assuntos mais profundos. Há uma frase de um autor russo que me marca bastante, na qual ele diz que as famílias quando são felizes têm muitas formas de exprimir a felicidade, mas quando são tristes têm sempre os mesmos problemas. Queria arranjar uma forma de exprimir esses problemas que são transversais e tentar incluir isso numa história que é nossa. Foi o que eu tentei fazer com este romance e que só me permitia fazer com este género e não com uma tese ou um ensaio.
Como tem sido o feedback inicial dos leitores e o que o mais surpreendeu nas primeiras reacções?
A obra tem sido bem recebida na região. O feedback que tenho tido ultimamente é de que é um livro de leitura fácil, acessível e que aborda a religião. Não nos esqueçamos que Portugal é filho do catolicismo e que somos a cidade do gótico. Mas as reacções têm sido positivas, apesar de ainda estar no início.
Sendo este o seu romance de estreia, que caminhos gostava que a sua escrita seguisse no futuro?
No final de Outubro, início de Novembro, vai já sair um outro livro, também um romance histórico, e que vai abordar a Primeira Guerra Mundial, através de dois soldados portugueses que partem de uma aldeia da região e vão para a Flandres. Vai ser uma obra que vai ter um pouco mais de abrangência e amplitude do que esta, sendo lançada a nível nacional. Dediquei-me também a um livro de pura fantasia juvenil e que deve sair no primeiro semestre de 2027.
Relativamente ao mercado internacional, irei publicar uma obra distópica no Brasil, relacionada com a inteligência artificial e a forma como esta nos está a submeter ao virtual e a fazer-nos refugiar em casa. É um livro um pouco mais macabro, com uma prosa mais rude e grotesca.
Por sua vez, em França, irei editar um outro livro, cujo processo se encontra bem encaminhado. Quero fazer da literatura vida, não me vejo a fazer outra coisa. Sei que é difícil, mas tenho de tentar, porque se não, não me sinto bem comigo próprio.
