João Hipólito é enfermeiro há quase três décadas, duas delas foram passadas no Hospital de Santarém. Decidiu rumar com a família para o Reino Unido em busca da valorização das competências profissionais e de condições de trabalho mais atractivas. A propósito do Dia Internacional do Enfermeiro que se assinala a 12 de Maio, o Correio do Ribatejo foi perceber como é que vive e trabalha um enfermeiro português no estrangeiro.

Primeiro que tudo, o que o levou a abraçar esta profissão?
Desde miúdo que sempre disse aos meus pais que quando fosse maior de idade quereria ir para os Comandos. Assim, finalizei o 12.º ano com 18 anos e aos 19 estava a entrar como voluntário no Regimento de Comandos. Foi uma excelente escola, ensinou-me que com esforço, dedicação, suor e honestidade os objectivos a que nos propomos na vida se conseguem alcançar. Aprendi a confiar nas minhas potencialidades e a ser persistente. Passados três anos saí da tropa e inscrevi-me na Escola de Enfermagem Geral de Santarém. Até então nunca tinha pensado em ser enfermeiro, mas em boa hora o fiz, porque reflectindo sobre meu percurso profissional de quase 30 anos, tenho muito orgulho no que me tornei como enfermeiro e pessoa.

Trabalhou como enfermeiro em Portugal, mas há sete anos decidiu rumar ao Reino Unido. O que o fez sair para o estrangeiro?
Comecei a trabalhar no Hospital de Santarém em Janeiro de 1994 e findei o vínculo em Agosto de 2014.
Houve alguns motivos que me fizeram emigrar. Em primeiro lugar, o futuro das minhas filhas. A situação dos jovens e dos menos jovens em Portugal era (e continua) muito difícil. Via os filhos de muitos amigos meus a acabarem a universidade e a não terem emprego, ou conseguirem empregos precários e mal pagos. Outros emigravam depois de concluir a universidade para tentar uma vida mais justa. Então, em casa, começámos a pensar que se saíssemos as miúdas aprenderiam a falar correctamente inglês, estudavam lá e talvez no futuro fosse mais fácil conseguir um emprego e ter um futuro mais risonho.
Também naquela altura a minha motivação profissional para trabalhar no Hospital de Santarém era nula. Após quase 20 anos a trabalhar no bloco operatório e sem nunca ter tido queixas, a direcção de enfermagem decidiu transferir-me para o Banco de Urgências por motivos ainda hoje para mim injustificados. Assim, comecei a pensar em sair, enviei alguns currículos e aqui estou, no Reino Unido, a trabalhar num Bloco Operatório de Ortopedia…

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Sente que os enfermeiros portugueses são mais valorizados lá fora?
A formação dos enfermeiros em Portugal é excelente, bem acima da média e isto torna-se bem mais evidente quando trabalhamos ao lado de enfermeiros de outras nacionalidades e conseguimos aperceber-nos das diferenças. A grande diferença é que a nossa formação é muito voltada para o utente e para a satisfação das suas necessidades. O utente é o centro da nossa atenção e não toda a documentação que é preciso preencher.
O mais estranho de tudo isto é que o estado que exige uma formação rigorosa dos enfermeiros, depois não os quer valorizar, não reconhecendo as suas competências, e até deixando-os sair para o estrangeiro.

Quais são as principais diferenças que nota na profissão em Portugal e no Reino Unido?
A grande diferença é essa mesmo, a valorização da profissão. Aqui somos valorizados, a progressão na carreira é uma realidade, assim como a formação contínua e a remuneração é superior.
Quando saí de Portugal tinha uma especialidade em enfermagem médico-cirúrgica, um mestrado em enfermagem e duas pós-graduações na área da saúde. Todos estes cursos foram pagos por mim, continuando sempre a trabalhar e sempre com o horário completo. Nunca tive qualquer tipo de progressão na carreira fruto da minha valorização académica.
Já em Inglaterra, em 2016, desenvolvi um projecto para um curso de “Primeiro Assistente Cirúrgico” que foi aprovado e, imagine-se(!), pela primeira vez na vida o hospital pagou o curso, viagens e estadias.
O tipo de trabalho que exerço hoje não seria possível em Portugal, pois só os médicos podem exercer as funções de “Primeiro Assistente Cirúrgico”.
A meu ver é uma forma eficaz de rentabilização dos recursos humanos, mantendo a segurança do doente com elevados níveis de cuidados.
Hoje trabalho como enfermeiro especialista, sou banda 7 (a carreira de enfermagem no serviço nacional de saúde inglês está organizada por bandas, sendo a 9 a máxima).
Em resumo: consegui em três anos o que não consegui em Portugal em 20!

Que implicações directas teve o ‘Brexit’ na sua vida?
Até agora ainda não senti nada. Talvez quando for de férias a Portugal e quiser trazer uma mala de porão carregada de produtos tradicionais portugueses venha a ter problemas com a alfândega…

Está num país que sofreu um forte abalo com a Covid-19. Como recorda esses momentos?
Foram e estão a ser momentos difíceis… O mundo mudou drasticamente, passou-se a praticar o isolamento social como um bem necessário e esse isolamento faz-se acompanhar de danos psicológicos, físicos, educacionais, e sociais. Muitas destas sequelas serão irreversíveis.
Nesta segunda onda da covid cheguei a recear o pior, pois os números de infectados não paravam de subir, com a novidade do aumento de infectados entre os utentes mais jovens. Felizmente que a eficácia da vacinação em massa permitiu reduzir significativamente a transmissão do vírus e o número de infectados.

O que mudou na sua vida e nas suas rotinas por causa do perigo de contágio?
Fundamentalmente, as minhas rotinas foram ir trabalhar e regressar para casa, quando as condições meteorológicas permitiam ia dar uma corrida. A vida social foi reduzida, quase a zero.

O Reino Unido é dos países com taxa de vacinação mais alta por milhão de habitantes. Considera que é esse o caminho para eliminar esta ameaça?
Já há diversos estudos que sugerem a eficácia das vacinas para reduzir a transmissão do vírus. Mas, penso que o caminho passa por fazer com que a Covid-19 passe a ser uma doença tratável, seja com vacinas ou outro tipo de medicamento. Este vírus veio para ficar e, no futuro, teremos de viver com ele e saber controlar “o bicho”.

Pensa em voltar para Portugal?
Gostava muito de voltar! Tenho saudades da família, amigos, das rotinas, do clima… Mas acho muito difícil… Em Portugal não me é permitido realizar o mesmo tipo de trabalho diferenciado que faço por cá. Sinto que por cá há sempre novos desafios e oportunidades que me vão alimentando o espírito e fazendo com que a minha motivação esteja sempre em alta! Tento ir a Portugal duas vezes por ano.

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5 comments
  1. Concordo em pleno!! Enfermeira licenciada em Portugal desde 2001 sem nunca ter progredido na carreira!!! Vim para o Reino Unido em 2015 e neste periodo subi de banda 5 para 8a na área da técnicas endoscópicas de gastroenterologia com enfermeira endoscopista! Todos os cursos e formações pagos pelo hospital onde trabalho o meu trabalho é reconhecido!! Tenho pena de não estar em Portugal mas muito grata a este país que me acolheu!

  2. Para reforçar a mensagem, estou na mesma situação. Gostava de voltar a Portugal, mas nunca irei conseguir as mesmas condições que tenho no Reino Unido. Terminei o curso de enfermagem em 2005, fiz mestrado e especialidade em enfermagem de saúde infantil (pago por mim=. Trabalhei 10 anos em Portugal sem carreira, sendo que o meu vencimento liquido em 2005 era superior que o vencimento liquido em 2015. Iniciei funções no RU em 2015 como band 5 e passados 2 anos passei a band 7 e com o cargo de Enfermeiro Chefe de Urgência Pediátrica. Já realizei duas pós-graduações que me deram competências para ver doentes autonomamente, incluindo a prescrição de medicação e vou iniciar outro Mestrado em Enfermagem Avançada que me vai dar ainda mais autonomia e subir de band na carreira. Todas as formações foram e serão pagas pelo hospital onde trabalho, o mesmo hospital dá o tempo necessário (pago) para frequentar a formação.
    Por muito que me custou deixar Portugal, não estou arrependido da decisão, o reconhecimento que tenho neste país é impossível em Portugal.

  3. Portugal assim como Brasil(guardados devidas proporções e realidades distintas) é exatamente da forma que foi tratado. Um país bom de morar pro diversos fatores, porém de forma geral precário no mercado de trabalho (baixas remuneração, alta cobrança, empregos limitados..). Há de saber quando é como imigrar, pois não é simples e nem fácil, ainda mais quando se tem família….

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