Foto: Município de Azambuja

O presidente da Câmara da Azambuja alertou para a “situação preocupante” das infraestruturas agrícolas no Vale da Azambuja danificadas pelo mau tempo, defendendo que a recuperação “exige investimento nacional” e não pode ser suportada apenas pelos municípios.

Em declarações à agência Lusa, Silvino Lúcio explicou que a tempestade provocou “uma série de rombos” nos taludes e valas que servem a rega dos campos agrícolas, além de danos significativos em portas de água e estradas municipais.

Um dos casos mais graves ocorreu na estrada de acesso ao Palácio da Azambuja, onde “cerca de 30 metros desapareceram”, após a força da água ter rompido o talude da vala adjacente.

“Os campos ficam alagados, depois escoam, voltam a encher, e isto impede os agricultores de sequer começarem a preparar as sementeiras”, afirmou Silvino Lúcio, sublinhando que a situação compromete culturas como tomate e milho, essenciais para a economia agrícola da região.

O autarca revelou que a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) já autorizou a intervenção de emergência na estrada afetada e assumiu o pagamento da obra.

“Esta segunda‑feira estaremos em condições de iniciar a reparação”, disse, explicando que o município está a recorrer ao regime excecional aplicável aos concelhos em situação de calamidade, que permite ajustes diretos até 500 mil euros.

O responsável considerou que o problema não se resume exclusivamente ao mau tempo recente, mas resulta de “algum abandono” das infraestruturas hidráulicas que servem o vale.

“Tem havido falta de manutenção dos diques, taludes e valas que atravessam todo o território, desde Rio Maior ao Cartaxo. Quando chegam fenómenos com esta violência, os efeitos são devastadores”, afirmou.

O autarca admitiu que os municípios não têm capacidade financeira nem meios técnicos para responder à dimensão dos estragos. “As câmaras não conseguem, por si só, assumir estas intervenções. Em alguns casos, serão os próprios proprietários a tentar defender-se, mas isto exige uma ação concertada e investimento nacional”, defendeu.

Os agricultores da região têm vindo a alertar para aquilo que consideram ser um abandono estrutural das infraestruturas agrícolas e dos acessos no Vale do Tejo, situação que as cheias recentes tornaram ainda mais evidente.

Segundo a Associação de Agricultores do Ribatejo, pontes degradadas, caminhos rurais intransitáveis, valas entupidas e portas de água danificadas revelam décadas de falta de manutenção, deixando o território vulnerável sempre que ocorrem fenómenos extremos.

O presidente da APA, José Pimenta Manchado, por sua vez, afirmou que as cheias que afetaram o Vale do Tejo e várias bacias hidrográficas do país resultaram de um “fenómeno absolutamente excecional”, sublinhando que a entidade está a concluir o levantamento nacional dos danos e a avançar com intervenções de emergência.

“As tempestades só terminaram em 16 de fevereiro. Estamos agora a avaliar os prejuízos no Tejo, no Lis, no Mondego e por todo o país, para identificar as situações mais urgentes”, explicou.

Segundo o responsável, as equipas técnicas têm estado no terreno no Tejo para identificar os rombos que exigem reparação rápida e aqueles que requerem obras estruturais mais profundas.

No caso da vala da Azambuja, a APA confirmou que vai financiar a intervenção de emergência acordada, na estrada do Palácio, com o município.

“Combinámos com o presidente da Câmara que a obra começa segunda‑feira. Já fechámos o financiamento e posso dizer isso em primeira mão”, afirmou, garantindo que a reparação do rombo será acompanhada tecnicamente pela agência.

O dirigente destacou que, apesar dos danos, o sistema hidráulico respondeu de forma eficaz perante uma cheia “persistente e contínua”, que durou três semanas e afetou o país “de Bragança ao Algarve”.

Recordou ainda que os caudais vindos de Espanha atingiram valores muito elevados e que, mesmo assim, foi possível evitar inundações graves em zonas sensíveis em vários pontos do país.

“Os diques portaram‑se à altura numa situação excecional”, disse.

O responsável admitiu a ideia de que os danos resultem de desinvestimento prolongado, defendendo que a dimensão da cheia explica a extensão das ocorrências.

“Houve danos, claro que houve, mas basta olhar para o que aconteceu em Espanha e noutros países para perceber a escala deste fenómeno”, afirmou, lembrando que várias estações meteorológicas bateram recordes históricos de precipitação.

Quanto ao futuro, a APA admitiu que será necessário “muito investimento” para recuperar infraestruturas e reforçar a resiliência dos sistemas hidráulicos.

O dirigente garantiu ainda que a agência já dispõe de financiamento para atuar nas áreas da sua competência e que o trabalho será feito “sempre em articulação com os municípios e com as associações de agricultores”.

“Há obras imediatas e há obras estruturais que vão demorar mais tempo. Mas estamos já a intervir e a apoiar tecnicamente todas as entidades no terreno”, assegurou.

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