O mar é o mundo, o infinito, a fartura, o mistério! Um fascínio… Quem teve a sina de nascer seu vizinho, raramente lhe conseguia fugir, porque ele, o mar, constituía uma atracção. Fatal para muitos, perigosa para todos…

Mas o mar ali tão perto era um constante desafio… O caminho para desconhecidas paragens, as pescarias, o sal, os limos… O mar fonte de vida… e de morte. Mas, os pescadores sempre estiveram dispostos a pagar o preço da vida, na esperança de ali granjearem o seu sustento. Não havia volta a dar, o mar estava ali à sua espera e à sua mercê!

O seu código genético estava talhado para serem pescadores, pois, já pescadores tinham sido os seus pais e os seus avós, até às gerações de que havia memória.  

A vivência comunitária limitava a sua mundividência ao mar, ao barco, à pesca e à venda do peixe. Haveria mais vida para além disso? Claro que sim, mas os pescadores da Vieira de Leiria, de Pedrógão e de outras praias vizinhas eram gente marítima, de antes quebrar que torcer. O destino era padrasto, mas entre duas tempestades haveria de vir algum tempo de bonança, para retempero da alma, das forças e da coragem…

Sim, aos pescadores era exigida muita coragem… partir ao encontro do infinito, fazer pela vida onde não enxergavam vivalma, rodeados por todos os lados do azul do mar e do azul do céu, que, às vezes, enegrecendo, anunciava a tormenta que se avizinhava, para angústia dos que labutavam contra tudo e contra todos. Os elementos da natureza, às vezes, mais se assemelhavam a armas do diabo, só vencidas pela fé e pela crença dos homens…

Em terra, as mulheres – mães, irmãs, namoradas, mulheres ou filhas – sofriam pela incerteza do que lhes poderia acontecer. Choros e rezas misturavam-se numa pungente ladaínha, que pressentia tragédias e desgraças. Fome, miséria, morte, luto… Esperança, promessas, vida, festa, alegria… A vida dos pescadores, e a das suas famílias, era assim mesmo, uma dialéctica entre o claro, da vida, e o negro, da morte!

Porque no Inverno o acesso ao mar era difícil e perigoso, sendo frequentes os naufrágios com perda de vidas e de embarcações, os pescadores destas praias vinham para o Tejo fazer a safra do sável, que ao tempo era peixe bem pago, sendo por vezes considerado o ouro do rio. Não o ouro de que falavam antigamente os romanos, mas o ouro que se vendia de porta em porta, nas ruas dos povoados mais próximos. Depois, regressavam. Mas, alguns começaram a virar as costas ao mar, porque este lhes roubava a vida e, em troca, mal garantia a subsistência da prole, por isso, com a coragem com que enfrentavam as tempestades, aqui ficavam na esperança de melhor futuro.

Disso nos deu conta, numa página sublime do neo-realismo, o consagrado escritor Alves Redol, que não resisto a citar, com a devida vénia:

“Ao pensar na companheira e no filho que ia nascer, levou-se para o passado, para a vida deles na Praia da Vieira. Vida danada! Invernos inteiros a ver o mar empinar-se, varrer tudo da frente e não largar um naco de pão para a boca de um menino. Sempre à espera, mal o mar dava sota, lá ia com os camaradas oferecer-se à morte, metendo o barco à má cara na entrada até aguentá-lo depois, à volta no contrabanco; no saco trazia um punhado de peixe que mal dava para o almoço da companha, quanto mais para pagar imposto e dar parte à rede.

Acabara por se resolver depois de muito matutar: que ficassem por ali os velhos a fumar cachimbo e a contar pataranhas; a ele não lhe faltavam braços, graças a Deus, para lutar com o mundo. Não ia ficar toda a vida a fossar na má sina. Sim, iria para o Tejo. Ir para o rio de Lisboa tornara-se viagem de muitos; era caminho antigo da gente da Vieira. Mal acomparado, dava quase o mesmo que abalar para a estranja à procura de sorte fêmea.”

E vieram… De início vinham apenas os homens pelo tempo da safra, depois, alguns foram ficando pela Borda-d’água e aqui começaram a fazer as suas “barraquinhas”, fartos que estavam de ter o barco por habitação.

As comunidades avieiras passaram, então, a viver nas margens do Tejo e do Sado, ou dos seus respectivos afluentes, da mesma forma como viviam nas praias de origem, em casas de madeira assentes em estacaria. Palafíticas, lhes chamavam.

Aqui mantiveram até tarde o regime de casamento endogâmico, ou seja, casando no seio da própria comunidade, sendo raros os casos em que um pescador ia buscar “camarada” fora do seu pano. Que o trabalho da pesca era violento, diziam, e nem todas as mulheres estavam preparadas para tanto sacrifício…

Com as redes remendadas pelo homem, que passara boa parte do dia em busca de alguma malha rota, por onde pudessem escapar-se os peixes que se deixassem emaranhar, mal anoitecia iam os dois para a bateira, remando a mulher, enquanto o pescador de vara em punho deitava olhares para a água, como que a desvendar onde havia mais peixe para lançar as redes.

Quando bem lhe parecia começava, então, a lançá-las e a mulher abrandava os remos para facilitar a faina. Conforme a época do ano, variava o tipo de peixe que o Tejo dava, e, por isso, variavam também o tipo de artes que usavam. Os tresmalhos, as nassas, os botirões, os sabogares…

Depois, havia que dar tempo ao tempo e esperar que o rio não fosse tão avarento que nem ajudasse a pagar a bucha para alimentar a família. Com os corpos cansados de tanta labuta, e como a manhã anunciava novas canseiras, homem e mulher, camaradas na alegria e na desdita, deixavam-se dormitar por algumas horas… poucas, claro, que o trabalho não esperava e a manhã fazia-se anunciar num instante…

Notam-se os primeiros alvores da manhã. Brilha mais intensamente a estrela boieira. Pelos tons dos primeiros raios solares conjectura-se o tempo que aí vem. Intensifica-se a labuta, na esperança de que as redes venham fartas, para satisfação de ambos, mas sempre com o temor de que, para maior frustração, o vazio das redes seja o luto da alma. Tanta labuta… tanta canseira!

Mas, com mais ou com menos peixe pescado, a vida continua. Que s’arrenegue a sorte macha! Recolhidas as redes, de onde se retira o peixe emalhado que de pronto se coloca na canastra, mal posto o pé em terra, a pescadora, que passa agora a ser peixeira, vai fazer a venda de porta em porta ou na praça de alguma povoação vizinha.

No regresso, com algum do dinheiro apurado na venda, compra alguns víveres que façam falta para a alimentação da família, tarefa de que a mulher se incumbe. Nas comunidades piscatórias, seja no mar ou no rio, manda a mulher ao cimo da terra, e o homem na água. Costumes que não se perderam e que dão consistência à maneira tão singular da vivência dos avieiros.

Depois de haverem vivido quase a tempo inteiro nos barcos e de haverem passado umas campanhas nas improvisadas tendas de oleado suspenso em varolas de eucalipto, os pescadores do Tejo passaram a viver em casas. De madeira, frágeis, mas casas.

Nas invernias rigorosas, quando o Tejo ignorava as margens e vencia os valados, para, em fúria de meter medo, transformar as lezírias em caminho de saveiros, nem a casa era guarida segura, pois, vezes não raras, as próprias casas eram levadas pela corrente, para desespero de todos. Infortúnio, desolação, angústia… incerteza no futuro! Futuro que só a Deus pertence… e a esperança no Tejo ainda é coisa que marca.

Leia também...

Boas notícias de Valência

A Real Unión de los Criadores de Toros de Lídia reuniu-se com o conselheiro de “Agricultura, Ganadería y Pesca” da Generalitat Valenciana, José Luís…

Campo Pequeno tem de semear futuro…

É comum entre os aficionados portugueses discutir-se a actualidade da tauromaquia nacional tomando como referência a insólita situação do Campo Pequeno, principal tauródromo do…

Triunfadores da Gala de Tauromaquia

O matador Manuel Dias Gomes, a ganadaria Murteira Grave e o cavaleiro João Moura Jr. foram os grandes vencedores da Gala da Tauromaquia em…

Clube Taurino Vilafranquense entregou Troféus 2022

O Clube Taurino Vilafranquense promoveu no passado sábado um Jantar de Gala comemorativo do seu 40.º aniversário, durante o qual procedeu à entrega dos…