Hoje, segunda-feira, 9 de Janeiro, assinala-se o 109.º aniversário sobre a data de nascimento de Celestino Graça, ribatejano ilustre que marcou indelevelmente a realidade da nossa região, através da sua extensa e inestimável obra, destacando-se a sua acção na criação e consolidação da Feira do Ribatejo / Feira Nacional de Agricultura, que organizou nas suas primeiras vinte e uma edições, da edificação da Praça de Toiros de Santarém e da fundação do Festival Internacional de Folclore de Santarém e dos Grupos Infantil e Académico de Santarém, do Rancho Folclórico do Bairro e do Rancho dos Pescadores do Tejo.

Quando abordamos a influência de uma personalidade na criação, ou no desenvolvimento, de uma qualquer iniciativa temos a tentação de privilegiar a obra em detrimento do seu autor, o que quase sempre redunda numa tremenda injustiça. Mesmo que subsista uma relevante e nobre intenção de enaltecer o Homem, tendencialmente desviamos o foco da nossa atenção para a sua obra.

No meu caso pessoal, e especialmente em relação a Celestino Graça, pessoa que tanto admiro, faço mea-culpa, pois ainda que exalte sempre as suas qualidades morais e cívicas, também tenho cometido este lapso. Daí que agora, nesta grata circunstância de evocar este ilustre ribatejano na ocasião de mais um aniversário natalício, pretendo redimir-me passando a destacar mais desenvolvidamente a pessoa e as suas circunstâncias.

Celestino Pedro Louro da Silva Graça nasceu a 9 de Janeiro de 1914 na aldeia do Graínho, na freguesia da Várzea, concelho de Santarém. Após conclusão do ensino primário, Celestino Graça ingressou na Escola de Regentes Agrícolas de Santarém, tendo concluído o curso de Regente Agrícola no ano de 1932. Nos termos curriculares então vigentes, seguiu-se um tirocínio, cujo relatório evidenciou uma excelente preparação profissional no desempenho desta função técnica.

Ainda como aluno da Escola Agrícola de Santarém, Celestino Graça viria a evidenciar uma grande capacidade para liderar o movimento que haveria de fundar a Associação Académica de Santarém, que teve como primeiro objectivo a pacificação entre os estudantes da Escola de Regentes Agrícolas e os do Liceu Nacional de Santarém, que, muitas vezes culminava em jornadas de acesa refrega física.

A “Briosa” viria a ser fundada em 5 de Outubro de 1931 e Celestino Graça, para além da sua intervenção na sua criação, foi atleta da equipa de futebol de onze, ocupando a posição de guarda-redes, foi membro da sua direcção e, mais tarde, haveria de ser o representante do clube na Associação de Futebol de Santarém.

Profissionalmente, Celestino Graça iniciou-se como técnico agrícola em Sintra, de onde haveria de ser transferido para as Caldas da Rainha, e, finalmente, para a cidade de Santarém, onde foi colocado na X Brigada Técnica Agrícola. Dada a competência evidenciada, Celestino Graça foi incumbido superiormente de se ocupar da introdução da cultura do cânhamo no nosso país, tendo tido a possibilidade de se deslocar a Itália para melhor se inteirar sobre a especificidade da produção e do aproveitamento têxtil desta planta.

Regressado ao país, divulgou os conhecimentos obtidos em Itália, através de palestras e de artigos científicos sobre esta cultura. Em 1942 apresentou uma brilhante comunicação ao I Congresso Nacional de Ciências Agrárias, em Lisboa, e em consequência desta notável acção técnica, Celestino Graça escreveu o livro “A Cultura do Cânhamo”, publicado em 1945 pela Livraria Sá da Costa. Celestino Graça escreveu dezenas de artigos de natureza técnica e apresentou um programa semanal sobre agricultura na antiga Rádio Ribatejo, a convite do seu proprietário, o saudoso Capitão Jaime Varela Santos.

Celestino Graça devotou-se por inteiro à causa pública, envolvendo-se nas iniciativas que pudessem valorizar o país e a região, num tempo em que as actividades colectivas eram muito escrutinadas pelo aparelho salazarista, algo que não era estranho à Família Graça, que viu o seu patriarca ser afastado do serviço militar por discordar do regime. Amigo do seu amigo, Celestino Graça manteve relações com alguns contestatários ao regime de ditadura, nomeadamente o Dr. Humberto Lopes, que visitou em Caxias ou em Peniche durante as suas diversas detenções.

Apesar de não afrontar ostensivamente o regime, Celestino Graça nunca se coibiu de assumir o seu pensamento, pelo que era um dos poucos assinantes em Santarém do Jornal “República”, ao tempo um dos diários mais vanguardistas. Do mesmo modo, enquanto organizador do Festival Internacional de Folclore de Santarém, Celestino Graça convidou grupos folclóricos do leste europeu, países membros ou alinhados com a União Soviética com os quais Portugal não mantinha relações diplomáticas, assumindo pessoalmente essa responsabilidade perante a PIDE. Celestino Graça, por inerência das funções de director do Festival, foi membro fundador do CIOFF – Conseil International des Organizateurs de Festivals de Folklore, em 1970, de que foi delegado nacional até à data da sua morte.

Como principal responsável da Feira do Ribatejo / Feira Nacional de Agricultura, Celestino Graça logrou conquistar os apoios necessários para projectar a Feira ao nível em que a legou ao Município de Santarém no dia 25 de Outubro de 1974, sem, no entanto, se comprometer com o regime político vigente, tendo recusado diversos convites para presidir à Câmara Municipal de Santarém, para ser Governador Civil do Distrito ou, ainda, para ser Deputado à Assembleia Nacional.

Celestino Graça, pelo empenho posto em tudo o que se propunha realizar e pelo exemplo que constituía a sua abnegada intervenção, exerceu grande influência a nível regional, despertando Santarém para um período de fulgor e expressivo progresso, colocando-a a par das cidades mais desenvolvidas do nosso país.

Numa afirmação de inegável competência e determinação, Celestino Graça foi capaz de congregar em seu torno vontades e pessoas para desenvolver Santarém e o Ribatejo. Foi um Homem vanguardista no seu tempo, que continua a ser um desconhecido para muitos dos que o consideraram retrógrado, apenas pelo facto de haver defendido de forma tão empenhada as nossas tradições culturais e de haver feito obra durante o regime deposto pelo 25 de Abril, acusando-o de conivência com o regime político com o qual, bem ao invés, nunca se identificou e nunca serviu.

Construir o futuro, com o respeito pelo passado, é a melhor homenagem que se pode prestar a um Homem como foi, é e será Celestino Graça, que continua presente no nosso coração e na nossa grata memória.

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