Na edição anterior vimos os períodos “Primavera e Outono” (551-479 a.C.) e “Estados Guerreiros” (479-221 a.C.), períodos que resultaram no surgimento de vários reinos que lutaram pela hegemonia da China. Abordei também a ascensão do reino Qin, culminando na unificação e que estabelecerá a primeira dinastia imperial chinesa em 221 a.C. Bem longe, no território a sudoeste da Península Ibérica, Viriato, um líder de um povo chamado lusitano,  enfrentava a expansão do Império de Roma na Europa.  

O “si nan”, a primeira bússola, o “zhuge nu”, a besta chinesa de repetição e o sismógrafo

 A queda da dinastia Qin levará a um período de guerra civil, do qual a “Dinastia Han” (206 a.C. até 220 d.C.) emergirá como a força unificadora do território chinês, estabelecendo um novo governo imperial. Esta dinastia, com seus 400 anos de duração e uma população de 55 milhões, já a maior do planeta, é considerado um dos grandes períodos da história da China e irá influenciar política e culturalmente os territórios da Ásia Central a NW, e a SE a Coreia, a Mongólia e o Vietname. Após viagens exploratórias de Zhang Qian (138-126 a.C.), pelas regiões a Oeste da China, então fechadas pelo enorme deserto de Gobi e pelas altas cordilheiras do Cáucaso, o imperador Wu Di, atendendo às necessidades militares e políticas, um caminho vai abrir, e que se tornará numa enorme via de comunicação a que se chamou de Rota da Seda e que foi crucial no intercâmbio de bens, tecnologia, religião e cultura entre o Oriente e o Ocidente. 

Uma das contribuições da China foi a invenção da bússola e do papel em 105 d.C. que permitiu a disseminação do conhecimento e da literatura, enquanto o confucionismo se consolidava como filosofia e base do governo. Os Han aprimoraram igualmente as técnicas de fundição de ferro, resultando em ferramentas de grande dimensão, com a melhoria do arado agora com duas lâminas e dois cabos e o desenvolvimento de moinhos movidos a água. Esses avanços incluíram a produção de aço e a invenção do alto-forno, que permitiram o desenvolvimento de armas e outros equipamentos de ponta como o primeiro sismógrafo, inventado em 132 d.C. por Zhang Heng, capaz de determinar a direção de propagação de um sismo, através de um peculiar instrumento: um  jarro em aço decorado com oito dragões e sapos de bronze, que utilizava um pêndulo interno para, ao detectar um abalo, acionar a queda de uma esfera de bronze da boca de um dragão para a boca de um sapo abaixo, indicando a direção do terremoto para envio imediato de socorros. 

Com o poder dos eunucos do palácio a crescer significativamente, surgirão crises políticas e lutas internas pelo poder. Estas levaram a revoltas camponesas, como a rebelião dos “Turbantes Amarelos”, o que permitiu que “senhores da guerra” regionais ganhassem influência e controlassem vastos territórios. A China vai-se dividir novamente. Após o fim da “Dinastia Han”, seguiram-se o “Período dos Três Reinos” (220–280 d.C.), a “Dinastia Jin” (265–420 d.C.) e as “Dinastias do Norte e do Sul” (420–589 d.C.), que juntas contabilizarão pouco mais de um total de 350 anos de poder. 

Do “Período dos Três Reinos”, um período sangrento na história chinesa, destaca-se uma intensa evolução nas táticas e estratégias militares, entre as quais o uso do “engano e da astúcia” para obter uma vantagem decisiva, em vez de depender apenas da força. Uma delas, o de “fazer um barulho no Leste e atacar no Oeste”, foi uma tática de distração muito usada, manipulando a percepção dos inimigos; outra evolução notável foi a técnica das batalhas navais, ainda em rios, como a famosa Batalha de “Chi Bi” ou dos “Penhascos Vermelhos”, em 208 d.C.  com uso de navios-incendiários. Neste período pela mão do estrategista Zhuge Liang vai surgir a besta de repetição chinesa, a “zhuge nu”. É de notar que desde o século I d.C. os chineses para vencerem as poderosas correntes dos dois enormes rios, o Rio Amarelo e o Yang-Tsé, haviam já inventado o leme da popa, localizado atrás do casco, 500 anos antes da sua aparição na Europa, que permitiu o controle direcional e o desenvolvimento de sistemas de propulsão complexos, dando-lhe boa manobrabilidade e controle, bem como segurança estrutural. Da mesma forma, uns séculos antes, baseado nos compartimentos do tronco de bambu, haviam inventado as anteparas que aumentavam a resistência do casco e impediam que uma inundação numa seção comprometesse o navio inteiro. Nesta altura já se utilizava o “Si Nan”,  uma colher de magnetite que apontava para o sul, mais tarde substituído por agulhas magnetizadas (surgia a bússola), pelo que não é de admirar que Wei Wen, general de um dos Reinos (reino de Wu), com 10 000 homens, abandonasse a navegação costeira e  enfrentasse 200 Km de mar alto, ocupando a ilha de Taiwan em  230 d.C. 

A “Dinastia Jin” teve um impacto direto na estabilidade da China após o Período dos Três Reinos, promovendo um florescimento cultural com o desenvolvimento da poesia, pintura e música, e difundindo o budismo e o taoísmo. Também houve progresso na agricultura, comércio e medicina tradicional chinesa, como a escrita de obras sobre doenças infecciosas. Após o colapso do poder central, afetado por conflitos internos, rebeliões e invasões de povos bárbaros, que originaram o declínio da dinastia, vai a China mais uma vez dividir-se entre o “Jin Ocidental” (265–316) e “Jin Oriental” (317–420). 

Se em “Jin Ocidental” se criou um forte sistema de famílias militares hereditárias (“shibing”) onde os homens das famílias militares eram obrigados a servir por toda a vida, com os seus familiares a residirem em centros, servindo como reféns para garantir a lealdade dos soldados, já em “Jin Oriental” as novas políticas de recrutamento passaram a incorporar criminosos e migrantes fazendo com que o estatuto social dos militares diminuísse, sendo tratados pouco melhor do que escravos do governo, levando a altas taxas de deserção. Um processo de deterioração que contribuiu para sua queda. Vão surgir as “Dinastias do Norte e do Sul” (420–589 d.C.).

 Foi um período na história da China marcado pela divisão do país, onde o N e o S foram governados por diferentes monarquias, caracterizado pelo caos e por frequentes guerras, levando a incidentes trágicos de fratricídio entre o imperador e sua família. Surgiram rebeliões na família real, com irmãos, tios e primos lutando uns contra outros pelo poder.  Em 453 d.C. uma canção folclórica da época dizia: “Olhando de longe para a cidade de Nanquim, o rio corre contra a corrente. À minha frente, vejo um filho a matar o pai e, atrás, um irmão mais novo a matar o irmão mais velho.”  Mas foi também um período marcado pela expansão do Budismo. Em 589 d.C. os Sui conquistaram os Chen, a última dinastia do Sul, e voltam a reunificar a China encerrando três séculos de divisão política. 

A “Dinastia Sui” (589–618 d.C.) foi uma dinastia curta, mas com contribuições dignas de menção. Tiveram novas formas de governação: criaram Ministérios e Departamentos, melhoraram o recrutamento do exército; aumentaram a Grande Muralha, e fizeram conquistas militares pacificando as fronteiras. O grande contributo deveu-se essencialmente à construção do Grande Canal e à introdução do sistema regular de Exames Imperiais. 

As ligações existentes entre os diversos rios desde 486 a.C., foram prolongadas até Pequim, por volta de 606 d.C. Surgia o Grande Canal, o maior do mundo, com 1.794 Km, (21 vezes mais comprido que o do Panamá e 10 vezes que o do Suez); nele 5 milhões de operários trabalharam sob uma cruel brutalidade e tal construção deveu-se essencialmente para a deslocação de tropas quer do N quer do S pois esta região foi sempre o campo de batalha mais tradicional do interior da China. Serviu também para transporte de previsões. 

A introdução do sistema regular de Exames Imperiais, dotou a administração de gente competente pois até aí a escolha recaía nos descendentes das famílias aristocráticas. Ficou definitivamente estabelecido em 605 d.C. com o imperador Suiyangdi (589-618 d.C.), qual critério meritocrático (“keju”) escolhendo funcionários com base no mérito intelectual e cultural, de diversas origens sociais, em vez do nascimento.  Incentivando o estudo fundou bibliotecas nas grandes cidades, perdurando estes Exames por 1.300 anos, até à última dinastia, a Qing (1644-1911).

Uma combinação de fatores, incluindo o fracasso nas guerras contra a Coreia, o alto custo dos projetos de mega construção como o Grande Canal, as revoltas populares devido à pesada carga tributária e o assassinato do segundo imperador, Yangdi, por seus conselheiros, ditarão a queda da Dinastia Sui (618 d.C.). 

Abordaremos na próxima edição as duas grandes dinastias, as “Dinastias Tang (618-907) e Song (960-1279)” dinastias cruciais da história chinesa, caracterizadas pelo grande desenvolvimento cultural e tecnológico e forte expansão comercial.

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