A propósito da relação entre o fado e o folclore – sendo que muito boa gente considera o fado como a expressão do folclore (urbano) de Lisboa! – vale a pena tecer algumas considerações, necessariamente breves, a propósito do tema, tanto mais que constatamos que entre a vasta e diversificada programação do Festival Celestino Graça – A Festa das Artes e das Tradições Populares do Mundo, cuja próxima edição decorre em Santarém entre os dias 1 e 6 do mês de Setembro, se realiza uma “Gala do Fado no Ribatejo”.

Tal ocorre desde que o Fado e o Cante Alentejano foram incluídos na Lista dos Bens do Património Cultural Imaterial da UNESCO como reconhecimento da sua importância no contexto da cultura portuguesa, mas outrossim na afirmação destes bens culturais em todo o mundo. E se mais mundo houvera, lá chegara!!! 

Mas, então em que alicerçamos esta relação entre o folclore do povo rural e o fado, a dita canção popular urbana? 

Poderemos encontrar diversas vias para lá chegar, não deixando de fora o fadinho, espécime coreográfica ribatejana, que, no entendimento dos etnógrafos mais esclarecidos, também foi beber à mesma fonte que o fado lisboeta.

Falemos, então, um pouco sobre a história do fado.

A miséria em que vivia o povo no interior do país, explorado pela nobreza decadente, mas arrogante, e pela burguesia ambiciosa e pouco escrupulosa, provocou uma grande debandada dos campos rumo aos centros urbanos mais desenvolvidos. Do norte do país e até da Galiza vieram milhares de pessoas, ávidas de um futuro mais tranquilo. Instalaram-se nos bairros mais pobres por não poderem aspirar a melhor. Encontravam-se nas hortas e nos terreiros e conviviam com os marítimos, com os estivadores, com gente de igual sorte, com quem disputavam o dia-a-dia. As suas cantigas, tristes, austeras e melancólicas fundiam-se com as melopeias agrestes dos marinheiros e dos pescadores. 

O Eng.º Porfírio Rebelo Bonito, etnógrafo nortenho de reconhecidos méritos, encontrou neste surto migratório uma dimensão social e cultural bem aliciante, o que o levou a escrever que – “a componente lusa do fado reflecte as características da chula duriense, que terá acompanhado os naturais desta região na sua migração para a capital, enriquecendo a trajectória desta expressão musical e poética.” 

O que até faz muito sentido, na medida em que o fado começou por ser essencialmente uma dança, caracterizada por algumas atitudes menos decorosas na movimentação dos bailadores, em que um batia e outro aparava toques de coxas, o que provocou comentários pouco abonatórios de alguns dos mais famosos visitantes estrangeiros do nosso país, durante o século XIX. Quem não conhece a frase “está farta de bater o fado”?

Contudo, as influências afro-brasileiras no fado são iniludíveis, daí as coincidentes referências às modinhas e ao lundum, a sua fixação nos bairros populares alfacinhas e o natural acolhimento por parte dos marítimos e das peixeiras, serem aspectos que não têm gerado grande controvérsia. Porém, já se questiona se a miscigenação ocorreu em terras de África, no tempo das descobertas, ou no Brasil, onde a corte se radicou durante o período das invasões francesas, ou seja, nos inícios do séc. XIX, onde já então viviam milhares de escravos africanos. 

Igualmente polémica, embora já desvalorizada por escassa probabilidade de ocorrência real, é o mito das “dez mil guitarras que jaziam espalhadas no terreiro trágico da batalha de Alcácer-Quibir…”. Ou, até, as invocadas influências dos mouros que durante largas gerações povoaram o nosso território, muitos dos quais permanecendo nos arrabaldes de Lisboa após as sucessivas derrotas na longa reconquista cristã. É demasiada ficção!

A razoabilidade lógica, em coerência com a história, faz-nos pender para a época em que a corte rumou às terras de Santa Cruz, acompanhando nesta versão a maioria dos biógrafos do fado.

No Brasil, naturalmente, os ricos conviviam com os ricos e os pobres juntavam-se aos pobres, pelo que, cantando em conjunto foram aprendendo e ensinando, mesclando sensibilidades e temperamentos. Os ritmos africanos e a dolência brasileira, juntando-se à melancolia portuguesa, só podiam ter expressão no lundum, nas modinhas e no fado. Tem lógica? Talvez! Mas… 

Pois é, há sempre um mas… Não discordo da tese defendida pelo Eng.º Rebelo Bonito numa conferência proferida em Santarém, e de que o Jornal “Correio do Ribatejo” deu conta na sua edição de 2 de Abril de 1960, na medida em que é possível encontrar grande afinidade entre as respectivas estruturas musicais. A chula poderá, assim, citando o conceituado etnógrafo, reclamar uma justa parentalidade com o fado.

O mesmo sucedendo, numa linha de coerência com este pensamento, com os nossos Fadinhos, especialmente os mais típicos da região do Bairro ribatejano, que são igualmente dolentes, harmoniosos e repousados. Entre o povo das diferentes “províncias” portuguesas, que coincidia nos mesmos trabalhos rurais no Ribatejo, onde passavam anualmente longas temporadas entre as mondas e a apanha da azeitona, ocupando-se pelo meio nas ceifas e das vindimas, houve muitas influências que resultaram em identificadas aculturações, não apenas no domínio cultural, mas igualmente numa perspectiva social. 

Até porque, como postulou Ernest Hemingway, citando John Donne na abertura do seu romance “Por quem os sinos dobram”, “nenhum homem é uma ilha isolada”! Isto é, todos influenciamos as pessoas com quem nos relacionamos e somos também influenciados por elas.

Assim, o Fado, independentemente do seu trajecto histórico é algo que está intrinsecamente relacionado com o povo, e faz parte por direito próprio da cultura popular e tradicional portuguesa. Ou do mundo, já agora…

Por isso, lá consta uma vez mais na programação do Festival Celestino Graça a “Gala do Fado no Ribatejo”, com a particularidade de no seu elenco artístico constarem dois antigos Componentes dos Grupos Infantil de Dança Regional e Académico de Danças Ribatejanas, de Santarém – Joana Amendoeira, uma das mais consagradas fadistas da actualidade, e Eduardo d’Almeida, fadista de méritos consagrados que actua com muita regularidade nas Casas de Fado em Lisboa, os quais terão ainda a companhia da jovem fadista Carolina Varela Ribeiro, filha dos famosos fadistas Ana Sofia Varela e Ricardo Ribeiro, pelo que a genética se limitou a confirmar as naturais probabilidades. Ou seja, filha de peixe…

Para acompanhar este maravilhoso trio de fadistas, estarão em palco os conceituadíssimos músicos ribatejanos Mestre Custódio Castelo, na guitarra portuguesa, João Chora, na viola de fado – embora não deixe também de cantar uns fadinhos – e o escalabitano Fernando Calado “Nani”, na viola baixo. Enfim, um elenco de luxo que poderá apreciar e aplaudir no próximo dia 3 de Setembro na Casa do Campino, em Santarém, a partir das 22 horas. Embora possa chegar mais cedo, porque também ali poderá degustar a boa gastronomia ribatejana. Uma noite em pleno!

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