Pode considerar-se um milionário repositório de ciência e de arte e é – no dizer do erudito critico António Arrio – a quinta biblioteca do país.

Foi um momento solene, de alta beleza espiritual, a festa inaugurativa da Biblioteca Braamcamp Freire que, na última terça-feira, – por entre os acordes da portuguesa e ao ressoar festivo do Cabaceiro – se celebrou no palacete dos antigos barões d’Almeirim, à rua da Amargura, generosamente doado, bem como o recheio bibliográfico e artístico, por esse formoso espírito e grande historiador que em vida se chamou Anselmo Braamcamp Freire.

Essa festa, – que foi precedida ao descerramento da lápide que á rua da Amargura deu o nome de Braamcamp Freire, – teve uma assistência marcante, e vincou bem a gratidão dos santarenos, nitidamente expressa nas palavras de acentuado reconhecimento do sr. presidente da Câmara e na consoladora promessa do sr. presidente da Comissão Executiva do município de que, em breve, a cidade perpetuará, no mármore, a figura de Braamcamp Freire.

O Bibliotecário sr. Laurentino Veríssimo, exteriorizando o seu entusiasmo pela obra do grande doador, leu uma interessante memória sobre a fundação das bibliotecas em Portugal, trabalho revelador de paciente concatenação, que foi ouvido com agrado.

Encarregou-se o ilustre critico sr. António Arroio, um dos mais devotados propugnadores do ensino artístico em Portugal, de tracejar o panegírico de Braamcamp Freire, como amigo da intimidade que foi do extinto, e a sua erudita e pitoresca exposição produziu o encantamento de todos os ouvintes. A psicologia do doador foi ali posta, a toda a luz da verdade: a cristalinidade do seu carácter, as suas tendências, o seu espírito de liberdade, a sua modéstia, o seu porfiado trabalho de investigador, a sua adoração por Herculano, o seu senso estético, as suas carinhosas predilecções por esta cidade que mereceu a Garrett e a Fialho expansões de bom sabor literário, recordativas da sua admiração pelos soberbos panoramas da terra Scalabitana.

O sr. Arroio, gratamente incumbido pela ilustre viúva de Braamcamp, de dispor nas salas do aristocrático palacete, os quadros de Anunciação, de Lupi, de Josefa d’Óbidos e de Bordalo, o mobiliário holandês e Italiano, os bronzes e mármores de Teixeira Lopes, os potes e jarras indianas, referiu-se, destacadamente, a cada um dos valores, salientando a influencia que eles exerceram no espirito do seu coleccionador, afirmando que Braamcamp, grande liberal, dedicado á causa do povo, teve sempre a preocupação de dar a Santarém – terra para ele de grata recordação, onde nasceram e jazem seu pai e seu filho e onde por muitos anos viveu – esse riquíssimo património artístico e literário, para que a cidade fosse de futuro um lugar de romagem, como o são tantas cidades da Itália, para os bibliófilos e para os artistas aqui virem de futuro estudar em obras raras, principalmente algumas manchas picturais, com o “signé” de grandes mestres, que não tem similar.

E, num desenrolar de erudição, profundo conhecedor da vida de Braamcamp, o sr. Arroio foi o amável e encantador “cicerone” que levou os visitantes da Biblioteca a todos os recantos do palacete, saciando-os na sua natural curiosidade de conhecer a característica de todos esses mimos d’Arte, ali tão interessantemente, tão amoravelmente distribuídos. (In: Correio da Extremadura de 24 de Abril de 1926).

 

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