Na altitude de 126m,944 na Torre do Seminário em Santarém, está estabelecido um pequeno observatório meteorológico, com instrumentos registados, modernos, aperfeiçoados, e comprados á acreditada casa – Richard Freres, em Paris.
No dia 29 do mês findo reuniram-se ali os alunos da aula de física do Seminário, com alguns dos professores da mesma casa, e procederam a limitadas observações do eclipse do sol, mostrando todos muito vontade, muito interesse, e a máxima atenção.
Tinha sido, dias antes, colocado ali um relógio de segundos, magnifico, pertencente ao Seminário. Como não foi possível obter a hora exata do observatório real de Lisboa, (Tapada) apesar de ter sido pedida duas vezes pelo telegrafo, foram as observações registadas pelo meridiano de Santarém.
Poucos, sem rigorosa precisão, eram os instrumentos empregados. Dispunha-se apenas de um pequeno telescópio, cuja ocular foi convenientemente substituída; de um bom termómetro; uma bússola muito sensível; e um espelho refletor com lente corada.
Ás duas horas, oito minutos e cinquenta e seis segundos, o telescópio e o reflector indicaram o primeiro contacto da Lua com o Sol. Foi grande o contentamento de todos, vendo realizadas com exatidão as indicações da moderna ciência astronómica. Ás 2 horas, 28 minutos e 45 segundos, a lua cobria um terço do disco visível do sol. Ás 2 horas e 29 minutos, a luz do sol era já pálida, de um amarelo esverdeado; as folhas das arvores apresentavam um verde escuro, e a imobilidade era completa.
Os rostos das pessoas presentes pareciam iluminados por luz eletrica, que passasse através de vidros verdes, e os estudantes, na sua natural e alegre expansão, notavam entre si a cor extraordinária do rosto. Ás 3 horas, 32 minutos e 24 segundos a lua tinha coberto a maior parte do disco do sol, deixando apenas a descoberto uma limitadíssima parte, d’onde nos vinha ainda um resto de luz do astro animador, e vivificador de tudo, que vive na superfície da terra.
Pode dizer-se que estava oculta pela lua uma parte do sol, equivalente a 0,950 da sua superfície ou face luminosa. Alguns dos estudantes da aula de física haviam sido encarregados de observações parciais, no que foram coadjuvados com a melhor vontade pelos professores.
Assim, esta mesma hora uns vieram correndo anunciar, que se avistava uma estrela, outros afirmaram ver duas. Alguém presente disse, estava convencido de que eram Sirius da Constelação Canis, e a alfa da Orion. Ao mesmo tempo outros chamaram a atenção para as aves, que corriam a procurar os seus abrigos, e todos viram no pátio próximo muitas aves domesticadas recolhendo-se tristes.
Ás 3 horas e 45 minutos ainda se avistava uma das estrelas.
Era também notável o globo lunar, que se mostrava no telescópio, não como um disco, mas com o aspecto distinto de um globo iluminado de cor vemelho-bronseada. Esta observação foi feita por grande parte das pessoas presentes. Começava a luz do sol a ser mais clara, e a diminuir a parte eclipsada, indo-se afastando a Lua gradualmente, e restituindo-nos a luz, que por algum tempo nos tinha roubado. Ás 4 horas, 39 minutos e 52 segundos, terminava o eclipse, desaparecendo o último contacto.
Um dos professores do Seminário em diferentes ocasiões contava em voz alta os segundos e minutos para auxiliar a nota escrita das observações.
Durante o eclipse o termómetro indicou um abaixamento de temperatura de 4 graus à sombra. A bussola indicou uma declinação de 2 graus.
Com o pequeno auxílio, que podia prestar o material do observatório, que não dispõe de instrumentos próprios para estas observações, e apesar da boa vontade e dedicação de todos, não foi possível conseguir mais.
Era bem visível, mesmo sem o auxílio de instrumentos, uma aureola luminosa ao torno do sol, ainda antes do eclipse chegar ao máximo.
Não podia atribuir-se este fenómeno á interposições de leves nuvens entre a vista do observador e o sol, porque tendo-se afastado as nuvens, ainda era visível a mesma aureola brilhante, que parecia formada pelos rios de luz solar, que irrompiam por trás da luz, e que deveriam forma a coroa visível nas regiões, onde o eclipse foi total. (In: Correio da Extremadura de 02 de junho de 1900)
