A gala comemorativa do 135.º aniversário do Correio do Ribatejo, realizada no dia 14 de Abril, no Teatro Sá da Bandeira, em Santarém, constituiu um momento de afirmação institucional do jornal e de reconhecimento público de personalidades e instituições com percurso relevante na região e no país.
A sessão de abertura ficou marcada por intervenções centradas na missão e no papel do jornal ao longo de mais de um século de publicação ininterrupta, sublinhando a sua ligação à comunidade e a responsabilidade assumida enquanto espaço de informação, memória e identidade.
O director do Correio do Ribatejo, João Paulo Narciso, enquadrou a efeméride como mais um marco na história deste projecto editorial, destacando a continuidade de uma linha orientadora assente na proximidade às pessoas e às instituições do território.
Na sua intervenção, sublinhou que, ao longo de 135 anos, o jornal manteve uma missão clara: informar com rigor, preservar a memória histórica da região e dar voz à comunidade, assumindo-se não apenas como meio de comunicação social, mas como agente activo na valorização cultural, social e económica do Ribatejo.
Foi neste contexto que enquadrou as homenagens atribuídas na gala, prática anual que, segundo referiu, visa reconhecer aqueles que contribuem para a construção da identidade e do progresso da região. Este ano, as distinções recaíram, a título póstumo, sobre o historiador Joaquim Veríssimo Serrão, no ano do centenário do seu nascimento, e ainda sobre o embaixador Jorge Silva Lopes, a investigadora Maria Potes Barbas, a empresária Rosário Cordeiro e o artista e professor José Quaresma.
Foram igualmente distinguidas duas instituições com forte implantação regional: o Grupo Académico de Danças Ribatejanas, que assinala sete décadas de actividade na preservação do património cultural, e o Rugby Clube de Santarém, reconhecido pelo trabalho desenvolvido na formação desportiva e na promoção de valores de cidadania.
Numa intervenção que cruzou o balanço do percurso do jornal com os desafios actuais do sector, João Paulo Narciso destacou a importância da imprensa num contexto marcado pela transformação digital, pela quebra do investimento publicitário e pela crescente disseminação de desinformação, defendendo o papel insubstituível dos órgãos de comunicação social na defesa da liberdade de expressão e na consolidação da democracia.
Recorrendo a uma imagem evocativa, descreveu o Correio do Ribatejo como um “abraço de papel” que atravessa gerações, sublinhando a relação de confiança construída ao longo de décadas com os leitores e a sua presença contínua no quotidiano das famílias ribatejanas.
Também Ludgero Mendes, em representação da administração, destacou a dimensão identitária e o percurso recente da empresa que assegurou a continuidade do jornal num período particularmente exigente, recordando o esforço desenvolvido para garantir a sua sustentabilidade e presença no espaço público.
Na sua intervenção, sublinhou a ideia de um “jornal de causas”, assente na defesa da verdade e na responsabilidade perante a comunidade, apontando a credibilidade como um dos principais activos do Correio do Ribatejo. “Se vem do Correio do Ribatejo é porque é verdade”, recordou, evocando a percepção construída ao longo dos anos junto dos leitores.
Ludgero Mendes destacou ainda o sentido das distinções atribuídas, sublinhando que o jornal assume também o papel de identificar e valorizar referências numa sociedade que considera cada vez mais carente de exemplos, reforçando a importância de reconhecer publicamente percursos de mérito, sem qualquer lógica de contrapartidas.
A cerimónia integrou ainda um momento de particular significado simbólico, com uma homenagem surpresa a Ludgero Mendes, assinalando os 50 anos de colaboração activa com o Correio do Ribatejo e, em paralelo, meio século de ligação ao Grupo Académico de Danças Ribatejanas. O reconhecimento, não anunciado previamente, destacou um percurso marcado pelo envolvimento cívico, cultural e associativo, sublinhando o papel desempenhado ao longo de décadas na vida do jornal e na preservação da identidade ribatejana.
Rosário Cordeiro: A Força da Continuidade e o Peso da Memória
A distinção de Rosário Cordeiro na Gala do 135.º Aniversário do Correio do Ribatejo, foi um dos momentos mais marcados pela emoção e pela memória familiar. Administradora e sócia-gerente da J.M. Cordeiro, Lda., a empresária foi homenageada pelo seu percurso de liderança e resiliência à frente de uma das mais sólidas empresas de distribuição de combustíveis da região, num sector tradicionalmente dominado por homens. Contudo, no momento de subir ao palco para receber o galardão, as suas primeiras palavras não foram para o sucesso empresarial, mas para a figura tutelar que lhe deu origem.
“Se fosse o meu pai, falava sem papéis”, começou por gracejar, quebrando o protocolo com uma confissão de humildade. A evocação de José Manuel Cordeiro, fundador da empresa em 1983, dominou a intervenção, com a empresária a reconhecer a herança imaterial que lhe foi deixada. “Foram muitos anos juntos, de muita aprendizagem. Contudo, os princípios essenciais, como sinceridade, ética, bons valores e respeito, esses foram-me passados e fazem parte do meu dia-a-dia”, sublinhou, recordando as mais de duas décadas em que trabalhou lado a lado com o pai antes de assumir a liderança.
A transição, como fez questão de partilhar com a plateia, não foi isenta de dificuldades. Com o falecimento do fundador, “muitas incertezas surgiram por parte da sociedade relativamente ao futuro da empresa e à sua sucessão”, confessou Rosário Cordeiro, lembrando que, apesar dos seus anos de trabalho na retaguarda, “pouca gente o sabia”. Os primeiros anos foram “tempos difíceis”, mas a determinação em honrar o legado familiar falou mais alto. “O compromisso da continuidade e de fazer vingar nunca me abandonou”, garantiu.
Num dos momentos mais tocantes do seu discurso, a empresária revelou a forma como a memória do pai continua a guiar a sua rotina diária à frente dos destinos da J.M. Cordeiro. “Todos os dias, ainda hoje, quando ponho a chave à porta da empresa – sim, porque na maioria dos dias sou a primeira a chegar –, digo-lhe: ‘Vamos lá, meu pai, para mais um dia’.”
A terminar a sua intervenção, Rosário Cordeiro fez questão de partilhar o mérito da distinção com aqueles que a acompanham nesta jornada. Agradeceu a confiança depositada pelas outras sócias – a mãe e, posteriormente, a irmã – que permitiu “a não existência de entropias nos processos de decisão e consequente implementação das estratégias de crescimento”. O sucesso que coloca a empresa no ranking das melhores PME a nível nacional, frisou, não se faz de forma isolada. O reconhecimento final foi dirigido aos seus colaboradores, os “braços direitos” que “desde sempre vestiram a camisola da empresa” e que contribuem diariamente para manter a J.M. Cordeiro como uma estrutura “coesa, financeiramente sólida e pautada pela boa conduta”.
Nuno Serra: O Triunfo Colectivo e a Bandeira de Santarém
A celebrar o seu 30.º aniversário, o Rugby Clube de Santarém (RCS) vive o momento mais glorioso do seu percurso, assinalado pela conquista do título nacional da 1.ª Divisão e pela inédita subida à Divisão de Honra. Foi neste contexto que o RCS foi distinguido na Gala do do Correio do Ribatejo. A homenagem, recebida pelo presidente da direcção, Nuno Serra, foi o pretexto para um discurso agregador, focado na força do colectivo e no orgulho de representar a cidade.
Desde o primeiro momento da sua intervenção, Nuno Serra fez questão de partilhar o palco – simbólica e literalmente – com a sua equipa directiva, recusando qualquer protagonismo individual. “As vitórias não são circunstanciais, de uma pessoa só e, portanto, a equipa é a direcção que aqui está, que carrega muitos atletas e muitos treinadores”, afirmou com convicção. “Quando nós estamos aqui, estamos todos juntos.”
O dirigente recordou o longo caminho percorrido desde que a actual direcção assumiu os destinos do clube, há quase uma década. “Nós estamos na direcção de um terço da história de 30 anos do Rugby Clube de Santarém (RCS)”, contextualizou. A ascensão à elite do râguebi nacional parecia, então, uma miragem distante. “Se nos dissessem, se calhar há oito anos, que chegávamos aqui hoje, nós não acreditávamos. Mas chegámos, fomos construindo, fomos ganhando apoios.”
Mas mais do que os troféus conquistados no relvado, Nuno Serra destacou o impacto social do clube e a forma como este se enraizou na comunidade escalabitana. Para o presidente do RCS, a maior recompensa não reside nas taças, mas sim no reconhecimento popular. “A sensação mais feliz que pudemos ter durante estes anos foi o carinho das pessoas de Santarém pelo râguebi. Passar na rua e toda a gente nos cumprimentar e dizer: ‘Fantástico, o râguebi de Santarém conseguiu chegar ao lugar mais alto a nível nacional’.”
A distinção do Correio do Ribatejo vem, assim, coroar não apenas um projecto desportivo de sucesso, mas uma verdadeira escola de cidadania. “Somos uma equipa de valores e, acima de tudo, uma grande família”, sublinhou Nuno Serra, elencando os princípios que norteiam a formação dos jovens atletas: “O respeito pelo outro, a integridade e a lealdade, quer dentro quer fora do campo.”
A terminar a sua intervenção, o presidente do RCS deixou uma garantia de continuidade e de compromisso inabalável com a região, agradecendo o apoio da autarquia e dos parceiros locais. “Acreditem em nós, que nós vamos continuar a lutar por Santarém e com a grande bandeira que é Santarém, acima de tudo”, prometeu. “Nós vamos aos torneios e a bandeira por que lutamos é a de Santarém, não é apenas a do clube. Para nós, é uma grande honra ser de Santarém.”
José Quaresma: A Gratidão aos Gigantes e a Memória do Lugar
Artista visual de excepção, ensaísta prolífico e professor universitário de referência, José Quaresma foi reconhecido pelo seu percurso ímpar na intersecção entre a prática artística e a reflexão filosófica. Contudo, no momento de subir ao palco, o criador multifacetado optou por deixar de lado o currículo académico e as exposições internacionais para se centrar na memória afectiva da cidade e na gratidão àqueles que o antecederam.
Com o humor e a erudição que o caracterizam, José Quaresma começou por quebrar o gelo com a plateia, prometendo não se alongar para evitar o efeito “soporífero” de discursos excessivamente longos. A sua intervenção foi, no entanto, uma viagem emotiva às raízes da sua formação em Santarém. O próprio palco do Teatro Sá da Bandeira serviu de ponto de partida para essa evocação: “Este palco foi onde eu vi os meus primeiros filmes do Tarzan, pela mão do meu pai, há 55 anos”, recordou, sublinhando a ligação inquebrável aos espaços culturais da cidade.
A homenagem do Correio do Ribatejo assumiu, para o artista, um significado particular, não apenas pelo reconhecimento do seu trabalho, mas pela história familiar que o liga à instituição. “O facto de eu estar a ser reconhecido pelo jornal fala muito fundo no meu coração”, confessou, recordando o irmão que trabalhou no semanário como compositor manual a partir de 1976. “Quando entrava na porta do jornal, à esquerda, lá estava o lugar onde ele fazia a composição manual com os caracteres para depois sair a publicação semanal”, descreveu, evocando os tempos em que acompanhava de perto a actividade editorial e a modernização tecnológica da época.
O núcleo central do discurso de José Quaresma foi, no entanto, dedicado ao conceito de gratidão e à ideia de que o sucesso individual assenta sempre num legado colectivo. O homenageado reflectiu sobre a “dádiva” do reconhecimento. “A dádiva também pode partir de vós. Porque algumas pessoas constituíram, colectivamente, essa dádiva que eu recolhi enquanto criança, muito jovem”, afirmou, reconhecendo o papel da comunidade escalabitana no seu crescimento pessoal e artístico.
Para ilustrar esta dependência face aos que vieram antes, o ensaísta recorreu à célebre metáfora do pensador do século XII, João de Salisbury, sobre os anões aos ombros de gigantes. “Frequentemente sabemos mais, não porque tenhamos avançado pela nossa habilidade natural, mas porque somos apoiados pela força mental de outros e possuímos riquezas que herdámos dos nossos antepassados”, citou, aplicando a imagem a todas as áreas da sociedade, desde o râguebi ao folclore.
A terminar a sua intervenção, José Quaresma deixou uma mensagem de profunda humildade intelectual, que resumiu a essência do seu percurso e da própria homenagem: “Nós vemos mais e mais longe do que os nossos predecessores, não porque tenhamos uma visão mais perspicaz ou maior altura, mas porque somos levantados e levados em cima da sua gigante estatura.”
Cristina Graça Rodrigues: A Herança Viva do Folclore Ribatejano
A celebração do 70.º aniversário do Grupo Académico de Danças Ribatejanas (GADR) foi um dos motivos centrais para a distinção da instituição na Gala do 135.º Aniversário do Correio do Ribatejo. A homenagem, que reconhece o papel insubstituível do grupo na salvaguarda da identidade cultural da região, foi recebida por Cristina Graça Rodrigues, neta do fundador Celestino Graça e por vários elementos do Grupo que este ano participaram na animação da Gala. A sua intervenção, breve mas carregada de simbolismo, sublinhou a importância do trabalho colectivo, a responsabilidade de continuar um legado fundado em 1956 e a parceria histórica com o jornal que ao longo de sete décadas acompanhou e documentou o percurso da instituição.
Ao subir ao palco, a representante do GADR fez questão de partilhar o mérito da distinção com todos os que, ao longo de sete décadas, têm mantido viva a chama do folclore ribatejano. “Para levarmos a cabo este projecto com 70 anos, é preciso o esforço de muitos”, afirmou, reconhecendo a dedicação de quem abdica do seu tempo pessoal em prol da cultura popular.
A intervenção de Cristina Graça Rodrigues destacou a dimensão comunitária do projecto fundado pelo seu avô em 1956. “O projecto do Grupo Académico é um projecto que só se consegue levar a cabo com todos. A nossa associação é extensa, com pais, com todos os que estão aqui em cima do palco e os que faltam aqui”, sublinhou, lembrando as múltiplas actividades desenvolvidas pela instituição, incluindo a organização do Festival Internacional de Folclore “Celestino Graça”.
A neta do fundador aproveitou ainda a ocasião para enaltecer a parceria de longa data entre o GADR e o Correio do Ribatejo, que considerou um “parceiro estratégico” insubstituível na divulgação e preservação da memória etnográfica. “Queria desde já agradecer ao Correio do Ribatejo a parceria estratégica que faz com o nosso grupo. Tudo o que coloca, todas as actividades do grupo, sem qualquer custo, e toda a notoriedade dos últimos 70 anos, são impagáveis. Se lerem as páginas do Correio do Ribatejo, têm a história do nosso grupo”, reconheceu com gratidão. Uma relação que não é apenas de cobertura jornalística, mas de cumplicidade na defesa de um património imaterial que define a alma da cidade e da região.
A terminar a sua intervenção, Cristina Graça Rodrigues deixou uma palavra de apreço a todos os que dedicam o seu tempo “em prol do Grupo Académico e destas grandes causas, a levar o nome da cidade de Santarém a todo o país e ao mundo”.
Ludgero Mendes: meio século ao serviço da cultura e do jornal celebrado com homenagem surpresa
A homenagem a Ludgero Mendes não constava do programa. O momento foi preparado pelo director do jornal, João Paulo Narciso, que interrompeu a condução da cerimónia para lançar o imprevisto. Depois de elogiar a forma como Ludgero Mendes, ao longo dos anos, tem apresentado os homenageados — “lembrando pormenores que muitos desconhecem, com uma eloquência notável” — pediu-lhe que abandonasse o púlpito e tomasse lugar na plateia, quebrando o guião que, como sublinhou, “estava apenas escrito na sua mente”.
Foi o primeiro sinal de que algo estava a ser preparado fora do protocolo habitual. “Chegou a hora de lhe pregarmos uma partida”, anunciou, revelando que, pela primeira vez, a administração decidira surpreender quem, ao longo de décadas, tem estado do outro lado das homenagens. A distinção, explicou, resulta de “cinco décadas de colaboração no Correio do Ribatejo” e de um percurso que definiu como de “serviço público”, marcado pela coerência, pela independência e por uma escrita que “dá voz a quem, habitualmente, não a tem”.
Figura central da vida cultural escalabitana, e um dos rostos mais consistentes na preservação da etnografia ribatejana, Ludgero Mendes foi assim chamado ao palco como protagonista de um reconhecimento inesperado, construído sobre uma ligação rara pela sua duração e consistência.
Sem preparação prévia, a intervenção foi directa e pessoal. “Estou sensibilizado por esta atenção, que não esperava”, confessou, numa reacção que expôs a dimensão inesperada do momento.
Figura central da vida cultural escalabitana, e um dos rostos mais consistentes na preservação da etnografia ribatejana, Ludgero Mendes foi distinguido por um trabalho discreto, mas contínuo, feito longe dos holofotes e centrado na transmissão de um legado colectivo.
Sem preparação prévia, a intervenção foi directa e pessoal. “Estou sensibilizado por esta atenção, que não esperava”, confessou, numa reacção que expôs a dimensão inesperada do reconhecimento.
Ao longo de décadas, dividiu o seu tempo entre o jornal e o movimento associativo, assumindo um papel determinante na continuidade do projecto fundado por Celestino Graça. Essa ligação dupla — à imprensa e à cultura popular — acabou por ser o eixo central de uma homenagem que sublinhou não apenas a longevidade, mas a consistência de um percurso.
No discurso, reafirmou a disponibilidade que sempre pautou a sua actuação. “Enquanto me sentir capaz, estarei aqui para fazer tudo por todos”, afirmou, sintetizando uma forma de estar marcada pelo compromisso com causas e pela recusa de protagonismo.
A sua intervenção ficou também marcada por uma declaração de princípios que resume o seu trajecto: “Gosto de ser assim. Pobre, mas não de espírito. Humilde.” Uma frase reveladora de uma identidade construída fora da lógica de reconhecimento público, ainda que não indiferente a ele. “Também não somos insensíveis a uma ‘palmadinha’ nas costas quando é sincera”, admitiu.
A distinção funcionou, assim, como reconhecimento de um percurso feito de continuidade e dedicação, numa ligação rara pela sua duração — 50 anos ao serviço do jornal e outras tantas décadas de envolvimento no Grupo Académico de Danças Ribatejanas — e que ajudou a moldar, de forma silenciosa, a identidade cultural da região.
Maria Potes Barbas: A Inovação, a Família e a Coragem de Arriscar
A Professora Coordenadora Principal no Instituto Politécnico de Santarém (IPSantarém), Maria Potes Barbas, foi outra das personalidades distinguidas na Gala. Homenageada pelo seu trabalho pioneiro na inovação educacional e na inclusão social, a docente protagonizou uma das intervenções mais energéticas e informais da noite. Num discurso que reflectiu a sua personalidade aberta e apaixonada, centrou-se na importância da família, da academia e da coragem para arriscar, deixando uma marca inesquecível no Teatro Sá da Bandeira.
“É com extrema alegria que levo Santarém à Europa e que trago a Europa a Santarém”, começou por afirmar, sublinhando a vocação internacional do seu trabalho no Politécnico. A docente destacou a criação de projectos inovadores na instituição, como o laboratório FabLab, o Escape Room para a empregabilidade e os cursos de literacia para a inclusão social. “A construção faz-se com a família da Escola Superior de Educação, que me acompanha há 36 anos”, frisou, enaltecendo o papel dos projectos na “dinâmica da nossa região, do nosso Portugal e do nosso Politécnico”.
Avessa a formalismos e a burocracias, a homenageada confessou a sua aversão à palavra “procedimento”, preferindo a proximidade e o contacto humano. “Gosto de tudo muito informal e de muita vida. Tenho um espaço perfeito de trabalho porque tem uma porta de vidro, e essa porta significa que as pessoas podem entrar e sair sempre que quiserem”, partilhou, valorizando o simples acto de ouvir um “bom dia” dos seus alunos e colegas. Para a professora, é nesse contacto diário, nessa abertura genuinamente humana, que reside a essência da educação e da inovação que tem praticado ao longo de mais de três décadas na Escola Superior de Educação do IPSantarém.
A terminar a sua intervenção, Maria Potes Barbas deixou três conselhos práticos à plateia e aos leitores do jornal, reflectindo a sua postura perante a vida e a academia. “Arrisquem, arrisquem, arrisquem quando sentem que é esse o bom caminho”, exortou. E para os momentos de adversidade, receitou uma fórmula simples: “Quando alguma coisa não nos corre bem, nada como respirar fundo, contar até três e depois a vida vai para a frente outra vez.” Despediu-se com a sua assinatura pessoal, que resume a sua filosofia de vida: “Enjoy Life.” Uma expressão que, longe de ser um slogan vazio, traduz a convicção de uma mulher que construiu a sua carreira na certeza de que a alegria, a abertura ao outro e a vontade de inovar são, em si mesmas, as mais poderosas ferramentas de transformação social.
Jorge Silva Lopes: A Diplomacia de Estado e o Refúgio em Santarém
Homenageado por uma carreira de quase quatro décadas ao serviço da diplomacia portuguesa, o diplomata escalabitano aproveitou a ocasião para reflectir sobre a exigência da sua profissão, a importância do sentido de Estado e a ligação forte à sua terra natal, que considera o seu refúgio e o seu laboratório de ideias.
Com o rigor protocolar que o caracteriza, Jorge Silva Lopes iniciou a sua intervenção respeitando a lei de precedências do Estado português, saudando as entidades presentes. Contudo, rapidamente desconstruiu a imagem estereotipada da sua profissão. “O protocolo é menos de um quarto da minha carreira, mas toda a gente me associa à parte mais visível”, confessou, lembrando que o trabalho de um diplomata vai muito além das cerimónias oficiais.
Comparando os diplomatas a “médicos generalistas” que têm de saber responder a todos os desafios sem especialistas à disposição, Jorge Silva Lopes sublinhou a exigência do seu ofício, especialmente nas embaixadas mais pequenas. “O esforço que temos de fazer é muito grande. O nosso trabalho tem de ser criativo, de planificação”, explicou, recordando as formações que ministra aos jovens diplomatas: “Não chega o protocolo, tem de haver sentido de Estado.”
Apesar de uma vida projectada no mundo – com passagens por nove países –, o embaixador revelou que muitos dos grandes momentos da sua carreira foram pensados e estruturados a partir de Santarém. “Santarém é a minha tranquilidade, é a minha calma, é a minha casa”, confessou, partilhando com a plateia que a preparação da complexa Cimeira UE-África, que reuniu 87 chefes de Estado e milhares de jornalistas, foi “feita aqui, em Santarém, na minha biblioteca”. O mesmo aconteceu com a planificação da visita do Papa Francisco, pensada “ao detalhe” na sua cidade natal.
A intervenção de Jorge Silva Lopes foi também marcada por um apelo à valorização do património local. “Nós, em Santarém, somos muito negativos em algumas coisas. E temos um património riquíssimo, temos a cidade gótica, que tem melhorado muito nos últimos anos, mas acho que há sempre mais para fazer”, defendeu o diplomata, que se assumiu como um apaixonado pelas artes e pela arquitectura.
A terminar, o embaixador deixou um elogio à resiliência do Correio do Ribatejo, revelando que a sua equipa em Viena lhe ofereceu recentemente um exemplar de um jornal austríaco extinto, para ilustrar a “magia da luta” do semanário ribatejano. “É extraordinário como conseguem manter a qualidade e a capacidade de renovação nos dias que correm”, concluiu, agradecendo a distinção que o liga ainda mais à sua cidade.
Joaquim Veríssimo Serrão: O Pioneiro da História e o Orgulho Ribatejano
A Gala do 135.º Aniversário do Correio do Ribatejo encerrou com um dos momentos mais solenes e significativos da noite: a homenagem póstuma ao Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, no ano em que se assinala o centenário do seu nascimento. A distinção, que celebra o legado de uma das figuras mais proeminentes da historiografia portuguesa contemporânea, foi recebida pelo seu filho, o também historiador Vítor Serrão, que proferiu uma intervenção densa e comovente sobre a obra e a memória do pai.
Vítor Serrão começou por dirigir um “louvor pelo trabalho hercúleo” do Correio do Ribatejo, sublinhando o papel do jornal na preservação da memória identitária da região. “A história, o património, os monumentos, a memória identitária nunca foram campo ou temática lateral ou menor das páginas do Correio do Ribatejo”, afirmou, enquadrando a homenagem ao seu pai nesse esforço contínuo de valorização cultural.
O núcleo central do discurso foi dedicado à “obra monumental” de Veríssimo Serrão, que o filho descreveu como “profundamente humana” e inovadora. Vítor Serrão destacou o “lugar de pioneiro” do pai numa “nova história entendida no plano teórico e metodológico”, lembrando que o historiador nunca menorizou a dimensão local. Pelo contrário, a sua atenção à “componente regional, local, periférica ou microscópica” permitiu-lhe “divulgar o património e a história escalabitana e toda uma região a nível mundial”.
A intervenção sublinhou ainda a projecção internacional do trabalho de Veríssimo Serrão, que levou “o nome de Santarém e do Ribatejo aos maiores palcos académicos”, através de permutas com faculdades ibero-americanas e europeias. Para Vítor Serrão, este legado ganha especial relevância nos dias de hoje. Numa época marcada por “um clima de guerra, de ódio, de medo e de dúvida perante o amanhã”, defendeu que “nunca como agora cumpre o papel da história, investigada profundamente e em pluralidade, como o meu pai entendeu e cumpriu”.
Apesar da vastidão da sua obra e do reconhecimento académico, Vítor Serrão fez questão de recordar a humildade do pai, que se via a si próprio como fruto de um legado colectivo. Evocando a metáfora dos anões aos ombros de gigantes, referiu que Veríssimo Serrão foi “um leitor atento e um privilegiado cultor” de mestres como Alexandre Herculano, abrindo “um caminho que tem, e não vai deixar de ter, tanto futuro”.
A terminar a sua intervenção, Vítor Serrão expressou a profunda gratidão da família pela distinção, que considerou um “galardão raro” e que muito os honra. “O meu pai estaria cheio de orgulho neste momento pela bela homenagem que o Correio do Ribatejo lhe faz”, concluiu, selando a noite com a certeza de que a memória de Joaquim Veríssimo Serrão continuará a inspirar as futuras gerações de historiadores e de ribatejanos.


















