Falhas na correcção digital atrasaram classificações, obrigaram escolas a abrir fora de horas e deixaram cerca de 1400 provas temporariamente suspensas. Quando termina a segunda fase, alunos, famílias e professores continuam atentos às reapreciações e às garantias dadas para que nenhuma classificação alterada prejudique o acesso ao ensino superior.
A segunda fase dos exames nacionais termina esta sexta-feira, 24 de Julho, mas o processo está longe de encerrado para todos os alunos. Depois dos atrasos na correcção, das pautas divulgadas ao final da noite e das classificações que permaneceram suspensas, as atenções estão agora concentradas na consulta das provas, nos pedidos de reapreciação e nas soluções previstas para os estudantes cujas notas venham ainda a ser modificadas.
Nas escolas do distrito de Santarém, a última semana foi vivida entre a regularização das classificações da primeira fase e a preparação das novas provas. Direcções, professores e funcionários prolongaram horários, abriram estabelecimentos durante o fim-de-semana e responderam às dúvidas de alunos e encarregados de educação, num processo marcado por sucessivas actualizações da informação enviada às escolas.
O calendário da segunda fase, inicialmente previsto entre 16 e 22 de Julho, foi alterado pelo Ministério da Educação, Ciência e Inovação devido às dificuldades registadas no novo sistema de classificação. As provas começaram na tarde de 20 de Julho e prolongam-se até esta sexta-feira. O Governo decidiu, contudo, manter as datas do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior, cuja primeira fase de candidaturas arrancou também a 20 de Julho.
Para a generalidade dos candidatos, o prazo decorre até 6 de Agosto. Os resultados da primeira fase do concurso serão conhecidos a 23 de Agosto, seguindo-se, entre 24 de Agosto e 2 de Setembro, a segunda fase de candidaturas. Estas datas fazem parte do calendário regular do acesso ao ensino superior e não correspondem a uma fase extraordinária criada por causa dos problemas verificados nos exames.
A principal salvaguarda anunciada destina-se aos alunos cuja classificação venha a ser alterada depois da consulta, reapreciação ou reclamação da prova. Nesses casos, e quando a nova nota seja conhecida após o termo do prazo normal, os candidatos poderão apresentar ou modificar a candidatura nos três dias seguintes à divulgação do resultado. A medida procura impedir que os atrasos ou erros não imputáveis aos estudantes condicionem a escolha do curso ou o acesso ao ensino superior.
É neste intervalo entre o resultado conhecido e a classificação que ainda pode mudar que se encontra agora a maior incerteza. Para muitos alunos, a afixação das pautas não representou o fim dos exames, mas apenas o início de uma nova etapa de verificação — desta vez, com acesso às cópias digitalizadas e à classificação atribuída a cada resposta.
Escolas prolongaram horários para regularizar classificações
A divulgação das classificações da primeira fase obrigou várias escolas do distrito de Santarém a prolongar horários, manter equipas em permanência e abrir portas durante o fim-de-semana. O envio tardio e sucessivamente actualizado dos ficheiros com os resultados transferiu para as direcções, secretariados de exames, equipas ENES, serviços administrativos e pessoal não docente a responsabilidade de assegurar, no terreno, que os alunos tivessem acesso às notas e à informação necessária para decidir os passos seguintes.
Em Almeirim, a Escola Secundária Marquesa de Alorna afixou uma primeira versão das pautas ao início da noite de 17 de Julho, mas recebeu depois novos ficheiros que permitiram regularizar classificações inicialmente suspensas. O Agrupamento de Escolas de Almeirim voltou a abrir as portas no sábado para que alunos e encarregados de educação pudessem consultar as notas actualizadas.
“Os alunos que na afixação inicial das pautas do ensino secundário tinham as suas avaliações suspensas — neste momento a situação já está regularizada”, anunciou o director do agrupamento, José Carreira, explicando que uma segunda actualização dos ficheiros permitira extrair as classificações em falta.
Em Santarém, o Agrupamento de Escolas Dr. Ginestal Machado manteve a escola sede aberta entre as 22h30 e a meia-noite de sexta-feira. O Agrupamento Sá da Bandeira comunicou a afixação das pautas ao final do dia e disponibilizou informação sobre os procedimentos de consulta e reapreciação das provas. As sucessivas notas divulgadas pelas escolas acompanharam um processo que se manteve em actualização durante várias horas, à medida que eram recebidos novos dados.
Também em Alcanena, a afixação das classificações exigiu um esforço prolongado das equipas envolvidas. Depois de deixar a escola já encerrada, a directora do agrupamento, Ana Cláudia Cohen, fez questão de destacar o trabalho realizado nos bastidores pelo secretariado de exames, pela equipa ENES, pelos serviços administrativos, pelos professores classificadores e pelas assistentes operacionais.
“O vosso trabalho, muitas vezes realizado nos bastidores, foi essencial para a afixação dos resultados dos exames, no dia 17, com a tranquilidade que se impunha”, escreveu a responsável, numa mensagem de agradecimento dirigida às equipas. Ana Cláudia Cohen sublinhou ainda o “rigor, sentido de responsabilidade e compromisso” dos professores classificadores e anunciou que o agrupamento voltaria a abrir as portas no dia seguinte para receber alunos e famílias.
No Entroncamento, o agrupamento de escolas informou que estava a processar mais de 900 provas para consulta e pediu que eventuais desconformidades ou enganos fossem comunicados pelos alunos e encarregados de educação. Em Coruche, a direcção avisou a comunidade de que aguardava ainda, ao longo de 17 de Julho, a recepção dos resultados das provas finais e dos exames nacionais, comprometendo-se a divulgar a informação logo que os dados fossem disponibilizados.
A crise técnica acabou por ser absorvida pelas escolas. Foram as equipas locais que tiveram de interpretar actualizações, corrigir pautas, assegurar a consulta das classificações e responder às famílias, num momento em que cada hora de atraso aumentava a incerteza de alunos que tinham já em curso decisões sobre a segunda fase dos exames e o acesso ao ensino superior.
Da promessa digital às classificações suspensas
A origem da crise está na generalização da correcção digital dos exames nacionais. Os alunos continuaram a realizar as provas em papel, mas os cadernos de resposta passaram a ser digitalizados e distribuídos electronicamente pelos professores classificadores. O modelo tinha sido testado no ano lectivo anterior, numa experiência limitada, antes de ser alargado em 2026 ao conjunto das provas finais e dos exames nacionais.
O novo sistema pretendia tornar o processo mais rápido, uniforme e transparente. Na prática, porém, os problemas começaram ainda antes de os professores receberem todas as respostas para classificar. Houve atrasos na disponibilização das provas, dificuldades de acesso à plataforma e sucessivas prorrogações dos prazos previstos para a conclusão da correcção.
À medida que o processo avançava, surgiram relatos de folhas incompletas, respostas que não apareciam na totalidade e elementos de continuação que não acompanhavam correctamente a prova. Professores classificadores denunciaram ainda convocatórias para disciplinas diferentes daquelas que leccionavam e dificuldades em obter esclarecimentos técnicos em tempo útil.
A dimensão exacta de cada uma destas ocorrências continua dependente do apuramento anunciado pelo Ministério da Educação, Ciência e Inovação. O que ficou visível para os alunos aconteceu a 17 de Julho, quando cerca de 1400 provas surgiram temporariamente sem classificação definitiva, num universo superior a 290 mil provas processadas na primeira fase.
Nas pautas, essas situações ficaram assinaladas como classificações suspensas, por carecerem de validações adicionais antes de poderem ser integradas nos resultados finais. A maioria terá sido regularizada durante as horas seguintes e ao longo do fim-de-semana, obrigando as escolas a receber novas versões dos ficheiros e a actualizar a informação já afixada.
O Ministério apresentou desculpas aos alunos, famílias, professores e escolas pelos atrasos e constrangimentos. Garantiu também que nenhum estudante seria prejudicado no acesso ao ensino superior por razões que não lhe fossem imputáveis.
A promessa, porém, não eliminou de imediato as dúvidas. Para os alunos que tinham de decidir se repetiam uma disciplina na segunda fase, a diferença entre receber uma nota na sexta-feira à tarde, ao final da noite ou apenas no sábado não era meramente administrativa. Podia determinar uma inscrição, uma nova preparação para exame ou a reformulação das escolhas para o ensino superior.
A crise revelou, assim, que a modernização tecnológica não retirou às escolas o papel decisivo no funcionamento do processo. Quando a plataforma falhou ou a informação chegou incompleta, foram as equipas locais que tiveram de verificar ficheiros, actualizar pautas e explicar às famílias o que ainda estava por resolver.
Erros obrigaram a rever milhares de classificações
A afixação das pautas não encerrou os problemas. Já depois de divulgadas as classificações da primeira fase, o Júri Nacional de Exames confirmou erros de parametrização em duas provas, obrigando à revisão de resultados e ao envio de novas pautas às escolas.
O primeiro caso foi detectado no exame de Física e Química A. Em causa estava o item 7.1 da versão 2, uma questão de escolha múltipla classificada automaticamente. A chave de resposta tinha sido incorrectamente parametrizada, levando o sistema a considerar erradas respostas certas e certas respostas erradas. O problema foi assinalado por professores e confirmado pelo Júri Nacional de Exames, que determinou o reprocessamento das classificações.
A correcção abrangeu 12 613 alunos. Destes, 11 496 viram a nota subir, enquanto 1117 tiveram a classificação revista em baixa. As estruturas regionais do Júri Nacional de Exames e do EduQA enviaram às escolas novas pautas da disciplina na manhã de 20 de Julho.
Horas depois foi reconhecido um segundo erro, desta vez na prova de Geografia A. A falha incidia sobre a parametrização dos itens 1.3 e 4.3 da versão 2, igualmente sujeitos a classificação automática. As notas dos alunos abrangidos foram revistas e substituídas por novas pautas.
Como a rectificação surgiu no último dia previsto para as inscrições na segunda fase, o prazo para repetir o exame de Geografia A foi prolongado até às 23h59 de 21 de Julho. A nova prova realiza-se esta sexta-feira, 24 de Julho, às 9h30.
A sucessão de correcções reforçou a necessidade de os alunos confirmarem não apenas a nota final, mas também a classificação atribuída a cada resposta. A Associação de Professores de Geografia recomendou aos estudantes que confrontassem a cópia digital da prova com os critérios oficiais e recorressem a um professor da disciplina sempre que existissem dúvidas. Alertou ainda para a brevidade dos prazos: os pedidos de reapreciação devem ser formalizados nos dois dias úteis seguintes à disponibilização da cópia.
Quando esteja em causa apenas um erro na soma das cotações ou na classificação de itens de selecção, pode ser apresentado o requerimento próprio do Júri Nacional de Exames, sem alegação nem pagamento. Nas restantes situações, o pedido de reapreciação exige fundamentação e implica a análise da prova na totalidade, podendo a classificação final subir, manter-se ou descer.
Reapreciação pode alterar candidatura ao ensino superior
Para os alunos que mantêm dúvidas sobre a classificação, o passo seguinte é consultar a cópia digital da prova e verificar as cotações atribuídas a cada resposta. O novo sistema permite aceder ao exame tal como foi digitalizado, tornando mais simples detectar páginas em falta, respostas incompletas ou diferenças entre o que foi escrito e o que aparece no ficheiro disponibilizado.
Quando esteja em causa um erro na soma das cotações ou na classificação de itens de selecção, pode ser pedida a rectificação através do modelo próprio do Júri Nacional de Exames. Nos restantes casos, o aluno pode avançar para a reapreciação, apresentando uma alegação fundamentada sobre a aplicação dos critérios de classificação. A prova é então novamente analisada na totalidade, podendo a nota subir, manter-se ou descer.
O pedido deve ser feito dentro dos prazos definidos pelo Júri Nacional de Exames, através da escola onde a prova foi realizada. É também junto do estabelecimento de ensino que os alunos obtêm os modelos necessários e a informação sobre os procedimentos aplicáveis a cada situação.
A reapreciação não impede a candidatura à primeira fase do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior. O Ministério garantiu que os alunos podem submeter a candidatura com a classificação disponível e beneficiar posteriormente da nota corrigida, caso a reapreciação ou a reclamação venha a produzir uma alteração.
A legislação prevê que, quando o novo resultado só seja conhecido depois de terminado o prazo normal de candidatura, o candidato disponha de três dias seguidos para apresentar uma candidatura, caso ainda não reunisse condições para o fazer, ou para modificar aquela que já tinha submetido. A salvaguarda aplica-se às alterações de classificações consideradas no cálculo da nota de candidatura e procura evitar que um atraso administrativo retire ao aluno a possibilidade de concorrer com o resultado correcto.
Para a generalidade dos candidatos com o ensino secundário, a primeira fase de candidaturas decorre até 6 de Agosto. A segunda fase está prevista entre 24 de Agosto e 2 de Setembro e a terceira entre 22 e 24 de Setembro.
Há, contudo, uma diferença importante entre as fases dos exames e as fases de candidatura. Uma prova de ingresso realizada na segunda fase dos exames não pode, em regra, ser usada na primeira fase do concurso desse mesmo ano. Pode ser utilizada a partir da segunda fase de candidaturas, mantendo depois a validade prevista para as provas de ingresso.
É por isso que a decisão de repetir um exame não depende apenas da possibilidade de melhorar a nota. Obriga cada aluno a ponderar o curso pretendido, a classificação mínima exigida, o calendário das candidaturas e o momento em que a nova prova de ingresso poderá ser utilizada. Numa edição marcada por atrasos e rectificações sucessivas, a informação prestada pelas escolas voltou a assumir um papel decisivo para evitar que uma falha técnica se transforme numa oportunidade perdida.
Até Setembro, ficam decisões por tomar
O encerramento da segunda fase dos exames não fecha todas as situações abertas nas últimas semanas. Até Setembro, haverá ainda classificações a rever, candidaturas a ajustar e conclusões a retirar sobre um modelo de correcção digital que o Ministério pretende manter, mas cuja aplicação deverá ser reavaliada.
O que permanece por esclarecer é se será necessária uma resposta adicional para alunos que, por razões alheias à sua vontade, não tenham recebido a informação necessária em tempo útil para decidir sobre a repetição de uma prova. Qualquer solução desta natureza terá de definir com precisão quem fica abrangido, quais as disciplinas envolvidas e de que forma os resultados poderão ser utilizados no acesso ao ensino superior.
Também continua em aberto a avaliação política e técnica do sistema. O Governo anunciou uma auditoria externa e defendeu a continuidade da correcção digital, mas falta conhecer as alterações concretas a introduzir antes da próxima época de exames: desde os testes à plataforma e à validação das grelhas até à convocação dos professores classificadores e ao apoio prestado às escolas.
Para as direcções e equipas que, no distrito de Santarém, prolongaram horários e reabriram estabelecimentos para dar resposta às famílias, a normalidade só regressará quando estiverem concluídas as reapreciações e estabilizadas todas as classificações. Para os alunos, o processo termina apenas quando a nota definitiva puder ser usada, sem limitações criadas pelos atrasos ou erros entretanto reconhecidos.
Até lá, cada nova pauta, pedido de consulta ou rectificação continuará a ter um peso que ultrapassa a dimensão administrativa. Numa fase em que décimas podem separar um candidato do curso pretendido, o rigor do sistema mede-se também pela capacidade de corrigir os próprios erros a tempo de não transformar uma falha técnica numa decisão irreversível.
Filipe Mendes

