Leonor Lopes entrou na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto com 19,63 valores. A idade tornou-a notícia em todo o País, mas há uma parte da sua história que passa pelo concelho de Abrantes. É neta de Humberto Pires Lopes, natural de Mouriscas, antigo professor e ex-presidente da Câmara de Abrantes. Numa família onde o ensino e a Medicina atravessam gerações, a jovem garante, contudo, que a escolha do curso foi inteiramente sua.
Aos 15 anos, Leonor Lopes prepara-se para começar uma etapa que a maioria dos estudantes só conhece dois ou três anos mais tarde. Entrou na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto com uma média de 19,63 valores e tornou-se um dos rostos mais falados da primeira fase do acesso ao ensino superior deste ano.
A história começa, porém, muito antes da entrada na universidade e tem uma ligação directa ao distrito de Santarém. O avô paterno, Humberto Pires Lopes, nasceu em 1940 no lugar de Casal da Milha, em Mouriscas, concelho de Abrantes. Foi professor, autarca e presidente da Câmara Municipal de Abrantes, mantendo ao longo da vida uma ligação próxima à freguesia onde nasceu.
Leonor cresceu longe de Mouriscas, mas pertence a uma família em que o ensino e o conhecimento atravessam diferentes gerações. Humberto Lopes licenciou-se em Ciências Matemáticas, em Coimbra, e fez carreira como professor. A mulher, Miquelina, também foi professora. Rui Lopes, pai de Leonor, escolheu Medicina e estudou precisamente na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, onde a filha acaba agora de conseguir lugar.
Quarenta e cinco anos depois, Leonor entra na mesma faculdade.
A coincidência poderia alimentar facilmente uma história de continuidade familiar. Leonor prefere colocar as coisas de outra forma.
“A Medicina foi completamente uma escolha minha, porque gosto do curso e não por herança familiar”, afirma.
“Queria sempre procurar uma matéria mais difícil”
O percurso escolar de Leonor começou cedo a distinguir-se do habitual. A sobredotação foi identificada ainda em criança e a jovem chegou a avançar anos de escolaridade, passando a conviver regularmente com colegas mais velhos.
Quando recorda esses primeiros anos, Leonor não fala tanto de facilidade como de uma necessidade permanente de encontrar novos desafios.
“Foi sempre o querer saber mais, querer ter mais desafio, sentir que não estava no sítio certo”, explica.
Quando dominava uma matéria, procurava outra. “Queria sempre procurar uma matéria mais difícil, mais alguma coisa.”
A família garante que essa procura não nasceu de pressão parental. Leonor confirma-o: “Eu é que queria mesmo chegar mais além.”
É também por isso que a diferença de idades no início da vida universitária parece preocupar mais quem observa o percurso de fora do que a própria jovem. Aos 15 anos, Leonor está habituada há vários anos a partilhar a sala de aula com alunos mais velhos.
“Vivi a minha vida toda com colegas três anos mais velhos. Não é agora que fará grande diferença”, diz.
Reconhece, ainda assim, alguma ansiedade perante a mudança. Não necessariamente por ter 15 anos, mas porque entrar na universidade representa, por si só, uma alteração profunda.
“Ir para a faculdade é uma mudança muito grande, é uma nova etapa da vida.”
Um pai que fez o mesmo caminho 45 anos antes
Para Rui Lopes, médico e pai de Leonor, a diferença de idade também não constitui motivo especial de preocupação. A família habituou-se ao facto de a filha ser habitualmente mais nova do que os colegas.
“Já estamos habituados a esta pequena diferença cronológica”, afirma.
O orgulho pela entrada em Medicina existe, mas Rui Lopes procura relativizar a excepcionalidade do caso. Recorda que milhares de jovens entraram este ano no ensino superior e que, no caso da filha, a diferença está essencialmente na idade com que alcançou esse objectivo.
“É gratificante a filha ter atingido os objectivos a que se propunha. Essa é a nossa função enquanto pais, é dar-lhe o futuro que ela pretende.”
O conselho para a nova etapa também é simples: “Que faça o que sempre fez. Seja aplicada e tenha futuro.”
A Faculdade de Medicina do Porto representa ainda um ponto de encontro entre pai e filha. Rui Lopes estudou ali 45 anos antes. Leonor seguirá agora os mesmos corredores, mas insiste em separar a influência natural do ambiente familiar da decisão individual sobre o futuro.
Depois do curso, admite permanecer na zona do Porto e exercer ali Medicina.
De Casal da Milha à Câmara de Abrantes
É através do avô que a história de Leonor chega a Mouriscas.
Humberto Pires Lopes nasceu no lugar de Casal da Milha e fez na freguesia os primeiros anos de escolaridade. Mais tarde seguiu para Coimbra, onde se licenciou em Ciências Matemáticas, regressando depois à região para exercer o ensino.
Foi professor no então Liceu de Abrantes, actual Escola Secundária Dr. Manuel Fernandes, e juntou à carreira docente uma prolongada participação na vida pública e associativa.
Foi presidente da Junta de Freguesia de Mouriscas, vereador e presidente da Câmara Municipal de Abrantes. A ligação à terra natal acompanhou-o também depois da passagem pela autarquia, através da participação em instituições e associações locais.
Entre elas esteve a Associação de Desenvolvimento Integrado de Mouriscas, onde assumiu responsabilidades dirigentes, participando igualmente em iniciativas destinadas à preservação da memória e das tradições da freguesia.
Durante o período em que esteve à frente da Câmara de Abrantes, um dos projectos que guarda uma ligação mais directa à sua terra foi o abastecimento de água a Mouriscas.
Décadas depois, é outra história, muito diferente, que devolve o nome da família à actualidade.
“É realmente muito nova para entrar na faculdade”
Humberto Lopes não esconde a satisfação pelo percurso da neta, mas também não reduz o que aconteceu à condição de sobredotada que lhe foi identificada em criança.
“O sentimento do avô é de satisfação porque a minha neta atingiu os objectivos a que se propôs há muitos anos”, afirma.
Para o antigo autarca, a capacidade de aprender depressa explica apenas parte do percurso. O resto encontra-o sobretudo no trabalho.
“Aquilo que eu mais admiro na Leonor é realmente a capacidade de trabalho que ela tem, a definição de objectivos de vida e o modo como os vai atingindo.”
Reconhece que a idade suscita alguma apreensão. “É realmente muito nova para entrar na faculdade.” Mas olha para o percurso anterior da neta como um indicador de que poderá adaptar-se à nova realidade.
“Ela tem superado tudo até agora, tem vivido sempre na escola com colegas mais velhos, portanto penso que irá superar bem agora esta nova situação.”
Da casa de professores dos avós à Medicina escolhida pelo pai e, agora, pela neta, é possível encontrar uma continuidade familiar ligada ao estudo. Leonor, contudo, recusa que essa continuidade transforme a sua escolha num destino escrito antecipadamente.
Aos 15 anos, chega à universidade depois de ter passado boa parte do percurso escolar a procurar o desafio seguinte. Medicina é, por agora, o maior deles. E se uma parte da história familiar começou em Casal da Milha, em Mouriscas, é no Porto que Leonor Lopes quer escrever o próximo capítulo.

