Dora Ferreira, de 47 anos, lançou o seu primeiro livro ‘Rabiscos Meus’, no passado dia 2 de Abril, na Biblioteca Municipal de Almeirim. A escrita entrou na vida de Dora após a morte do seu filho Tiago, que nasceu com uma doença muito rara, síndrome de Zellweger, e que acabaria por falecer apenas 53 dias após o parto. Segundo a autora, a obra “é a compilação de poemas e textos poéticos sobre diversos assuntos”. A totalidade das receitas do livro revertem a favor da Constança, uma menina de Almeirim que sofre de síndrome de Rett.

Lançou o livro “Rabiscos Meus”. Com que objectivo decidiu editar esta obra?
As pessoas que escrevem gostam de ver os seus textos, poemas ou histórias ganharem vida através da publicação da obra. O livro físico será sempre o sonho de qualquer escritor. E eu não fujo à norma. Contudo, apesar da concretização deste sonho me deixar muito feliz, este projecto tem agregado um propósito que supera a felicidade da própria edição. Sempre fui instigada por familiares e pelas pessoas que me seguem nas redes sociais a publicar um livro, mas a publicação só por si não preenchia os meus objectivos. Ao conhecer, virtualmente, a história da Constança, uma menina com síndrome de Rett, fiquei muito sensibilizada pelas dificuldades inerentes à sua condição e todos os custos que envolvem os tratamentos que necessita para manter alguma qualidade de vida. Poder ajudar a Constança, ou outras crianças com doenças semelhantes, foi a alavanca que eu precisava para dar o primeiro passo para a concretização da edição deste livro. E assim aconteceu, há cerca de um ano fui expor o meu projecto ao presidente Pedro Ribeiro, que de imediato se mostrou disponível para apoiar a realização do mesmo. Deixo o meu agradecimento ao Município de Almeirim em nome do seu presidente, por tornar possível a realização deste sonho.

O que a inspirou e o que é que retrata o livro?
Na realidade “rabiscos meus” foi a fuga, possível, de um período muito difícil da minha vida. Este livro não tem um tema estanque. É a compilação de poemas e textos poéticos sobre diversos assuntos. Uma boa parte dele, fala sobre dor e esperança. Explano, através das palavras, uma dor sem nome, e também uma vontade imensa de superação.

O que representa para si a escrita?
A escrita foi, e é um refúgio para mim. Por intermédio da escrita aclaro o que me aflige, o que me alegra, tudo o que me rodeia e de alguma forma me faz despertar a inspiração.

Em que altura da sua vida descobriu essa vocação?
Esta vocação, ou “dom”, como muitos o intitulam, apareceu na minha vida após a morte do meu filho. O Tiago nasceu com uma doença muito rara, síndrome de Zellweger. O Tiago tinha a “forma” mais grave da doença, o que lhe determinou um limite de vida muito curto, teve connosco, apenas, 53 dias. No desespero vivido após a morte do meu filho, agarrei-me à escrita para aliviar um pouco o sufoco e a dor que sentia.

Como é o seu processo criativo?
No meu caso, o processo criativo é algo que não é muito estruturado. Quando algum acontecimento me desperta a inspiração, eu, simplesmente, escrevo sobre ele. Esses factos poderão ser comigo, com alguém próximo, ou mesmo com alguém que não conheço, mas ouvi ou presenciei a sua história. A partir daqui, de forma inata, exponho os meus sentimentos no tecer das palavras. Ao escrever tenho o cuidado de as pôr a dançar em harmonia umas com as outras. Este “compor” da melodia já é mais da responsabilidade da “transpiração” do que da “inspiração”. Tenho um colega, um artista nato, que sempre me diz “A arte não vem da inspiração, mas sim da transpiração”. Na minha opinião, a obra só nasce através da “inspiração” e só se completa com a “transpiração”. Sublinhando este meu conceito, há textos e poemas que coloco no papel num ápice e outros até me soarem bem leva muito tempo, alguns estou mais de um ano para os terminar.

Tem algum tema predominante que queria transmitir na sua escrita?
Não. Só quero transmitir os meus sentimentos e muitas vezes transmitir o que eu entendo que alguém sente numa determinada situação.

Que livros é que a influenciaram como escritora?
Sempre gostei de ler pensamentos, talvez estes tenham influenciado de alguma maneira a minha escrita. Confesso que não sou uma leitora muito assídua e desde que comecei a escrever, ainda leio menos. O tempo que me resta de uma vida comum à maior parte da sociedade, guardo-o para escrever, assim sendo não me resta muito tempo para ler. No entanto, sempre que posso gosto de ler. Já li alguns livros que me marcaram e que não esqueço; Filhos Brilhantes, Alunos Fascinante de Augusto Cury; Os filhos da droga de Christiane F.; O estranho caso do cão morto de Mark Haddon; 1 Dose Droga, 1 Grama Esperança de Daniel C. Oliveira. Também gosto muito de ler Paulo Coelho.

Tem outros projectos em carteira que gostaria de dar à estampa?
Eu escrevo muito, arrumo os meus poemas e textos poéticos de maneira informal em volumes cronológicos. Este “Meus Rabiscos” é o primeiro de oito “cadernos” que já tenho escritos. Se um dia conseguir publicá-los todos, ficarei muito feliz.

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