Há dias em que a realidade parece brincar connosco. Ou então somos nós que, já cansados, aceitamos brincar com ela. Veja-se o caso de uma greve geral: um facto objetivo, verificável, ocorrido num determinado dia, num determinado país. E, ainda assim, os números dançam como se fossem opiniões.
De um lado, os sindicatos anunciam uma adesão de 80%. Do outro, o Governo, pela voz do ministro da Presidência, garante que não terá ido além dos 10%. Entre os oito e os oitenta, a distância não é apenas aritmética; é civilizacional. Porque perante números tão díspares, das duas uma: ou alguém está a mentir, ou estão os dois. E, como costuma acontecer, a verdade deverá andar algures por onde a virtude gosta de passear – talvez ali pelo meio.
O problema não é apenas a divergência. Divergir faz parte da democracia. O problema é a ligeireza com que se proclamam “verdades” moldadas à conveniência do momento, como se a realidade fosse uma matéria elástica, ajustável ao discurso que melhor serve cada causa. Não é sério. Nunca foi. Mas parece ter-se tornado aceitável.
No meu livro Sentidos de Pertença – o Bom e o Mau, procuro, entre outras coisas, desmontar este mecanismo. As pessoas – todos nós, se formos honestos na introspeção – tendem a raciocinar não para compreender melhor a realidade, mas para chegar à conclusão que confirma a justeza da sua tribo, da sua crença ou da sua identidade política, cultural ou ideológica. Selecionamos com afinco a informação que valida o que já pensávamos à partida e descartamos, quase sem ler, tudo o que nos desafia. Este enviesamento, profundamente humano, empobrece o pensamento, sequestra o debate e degrada a qualidade dos argumentos. Quanto mais rígidos são os nossos sentidos de pertença, mais frágeis se tornam a lucidez e a procura genuína da verdade.
Talvez o erro esteja precisamente na nossa expectativa. Esperamos que nos digam a verdade. Esperamos que os números sejam números, e não instrumentos retóricos. Esperamos que quem tem responsabilidades públicas trate os factos com o respeito que merecem. Ora, talvez essa expectativa seja ingénua. A verdade é um bem escasso – mais escasso do que gostamos de admitir – e, nos dias que correm, pouco valorizado.
Vivemos num tempo em que a perceção vale mais do que a realidade, em que repetir algo muitas vezes lhe confere estatuto de facto, e em que a confiança pública se vai gastando como uma moeda antiga, já sem cunho legível. Entre os oito e os oitenta por cento, não está apenas a taxa de adesão a uma greve. Está o retrato de um país e de um mundo que já não sabe bem em quem acreditar – e que, talvez por isso, começa perigosamente a acreditar em tudo e em nada ao mesmo tempo.
Paradigmático, sem dúvida. E inquietante.
